cap 21 uma ótima vitória

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REBECA Depois de tanto tempo longe, voltamos para o morro. O carro descia pela estrada sinuosa que dava acesso ao Vidigal, e eu não conseguia tirar os olhos da janela. O sol já estava se pondo, pintando o céu com tons laranja e rosa, mas a minha cabeça estava cheia de pensamentos que não me deixavam aproveitar a paisagem. Felipe estava ao meu lado, cansado e marcado pela guerra que ele havia vencido, mas vivo – e isso era o que importava. Segurava minha mão com firmeza, e eu sentia ali toda a força que ele tentava reunir para o que viria pela frente. A barriga já começava a aparecer, uma barriguinha discreta, mas que eu sentia se mexer de vez em quando, me lembrando da vida que crescia dentro de mim. Chegamos no morro quando a noite já caía. O cheiro característico da terra molhada misturava-se ao cheiro de comida feita na lenha, de roupas penduradas no varal e da fumaça que saía das casas. Tudo tão familiar, e ao mesmo tempo tão pesado. Minha mãe abriu a porta antes mesmo que pudéssemos tocar a campainha, seus olhos cheios de lágrimas e um abraço apertado que me fez sentir segura de novo. Minha irmã, tímida, espiava por trás da mãe, sorrindo e me abraçando em seguida. Fiquei ali naquele abraço quente por alguns minutos, tentando absorver toda a força que só a família pode dar. Sabia que os dias que viriam não seriam fáceis, mas pelo menos estaria rodeada por quem me amava. Nos primeiros dias, tudo girava em torno de adaptações. Felipe se mantinha ocupado, mesmo com as marcas da guerra no corpo e no rosto. Cada olhar que ele lançava pela janela denunciava o peso que carregava. Mesmo assim, ele sorria para mim, para o bebê, e para a nossa esperança. Minha mãe era um furacão de cuidado e preocupação, preparando comida, trazendo chás, e não parava de perguntar se eu estava me alimentando bem, se eu precisava de alguma coisa. Minha irmã ajudava, mas também parecia estar processando tudo aquilo, a ideia de eu grávida, do Felipe finalmente em casa, da vida que continuava, mesmo após tanto sofrimento. A noite, eu sentava na varanda, olhando para o céu estrelado, e deixava as lágrimas caírem silenciosas. Medo, alegria, saudade, esperança – tudo misturado dentro do peito. Pensava em como contar para o Felipe tudo o que sentia, em como ele enfrentou a guerra para voltar pra gente, em como eu queria que ele pudesse descansar. Mas ele não descansava. Mesmo com tudo, ele saía cedo, batia nas portas, perguntava, negociava. Procurava um lugar para a gente, uma casa que pudesse ser o nosso lar, longe do fogo cruzado, longe do medo, onde eu pudesse criar nosso filho em paz. A cada dia, o cansaço dele ficava mais visível, mas ele nunca desistia. Eu o admirava e temia ao mesmo tempo. Sabia que o peso da guerra não sumiria tão rápido, e que a vida que nos esperava ainda teria muitos desafios. Porém, em meio a tudo isso, havia também os pequenos momentos que nos mantinham vivos: as risadas bobas, o toque suave na minha barriga, as promessas sussurradas no meio da noite, o cheiro do cabelo dele enquanto me abraçava. Naquele pedaço do morro, entre paredes simples e ruas esburacadas, a gente começou a reconstruir o que a guerra havia tentado destruir. Eu sabia que não seria fácil. A vida não perdoava ninguém, e muito menos quem escolheu esse caminho. Mas, com ele ali, segurando minha mão, e a vida crescendo dentro de mim, eu me sentia pronta para lutar de um jeito diferente, com um motivo novo, com a força de quem sabe que a vitória mais importante é a que acontece no coração.
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