REBECA
Faz duas semanas que eu não tenho notícia dele.
Duas longas semanas em que o silêncio pesa mais do que qualquer palavra. Eu conto as horas nos ponteiros do relógio da parede, mas eles parecem girar em câmera lenta, como se o tempo quisesse me torturar. Toda vez que escuto um barulho mais alto vindo da rua, meu coração dispara como se fosse explodir dentro do peito.
Desde o último tiroteio no morro, o clima tá diferente. As ruas estão vazias mais cedo, os vizinhos cochicham entre si como se soubessem de alguma coisa que ninguém quer dizer em voz alta. Até a dona Roseli, que sempre coloca música alta na janela, tá em silêncio.
Eu não sei mais como fingir que tá tudo bem. Porque não tá. Porque ele tá lá em cima, no meio do fogo cruzado, e eu tô aqui, impotente, torcendo pra que ele volte. Inteiro. Vivo.
Tem sido difícil até respirar.
Eu me peguei hoje sentada no canto do quarto, abraçada no casaco dele. Aquele que ele deixou aqui na última vez que dormiu comigo. Ainda tem o cheiro dele. Mistura de cigarro, perfume forte e alguma coisa que só ele tem. Me dá vontade de chorar, mas eu me seguro. Eu sempre me seguro. Só que hoje... hoje eu tô desabando por dentro.
Meu peito tá apertado. Minha cabeça parece girar. E tem um enjoo estranho que não passa. Achei que fosse ansiedade no começo, mas tem algo diferente. Não é só medo. Não é só saudade. Como se meu corpo estivesse tentando me avisar de algo que minha mente ainda não entendeu.
Depois do almoço (ou melhor, de tentar comer), sentei no banheiro com um teste de farmácia na mão. Comprei ontem, sem nem ter certeza do porquê. Talvez por impulso. Talvez por desespero. Ou talvez... por intuição.
A verdade é que meu ciclo atrasou. Uns 8 dias. Eu sou regulada, sempre fui. Mas com o estresse, pensei que fosse normal atrasar. Só que agora, juntando com esse m*l-estar, a tontura, a sensibilidade... alguma coisa me fez encarar a possibilidade que eu vinha tentando negar.
Fiquei quase dez minutos encarando o teste antes de ter coragem de usar. Minhas mãos tremiam. Sentei na borda da privada com o coração batendo forte, como se ele soubesse que, a partir daquele momento, tudo ia mudar.
Dois risquinhos.
Dois.
Olhei de novo. Esfreguei os olhos. Balancei a cabeça.
Dois.
Eu tô grávida.
Meus olhos se encheram d'água e eu nem consegui segurar. Chorei. Chorei como há muito tempo não chorava. Foi um misto de medo, alívio e desespero. Eu não sei nem explicar.
Porque, no fundo, uma parte de mim sorriu.
Felipe sempre falou que sonhava em formar uma família, ter um moleque ou uma menina correndo pela casa. Ele falava isso enquanto me abraçava depois de t*****r, como quem deixava escapar uma parte do coração. Eu sorria, achava bonito, mas nunca levei a sério.
Agora, aqui estou eu. Com um filho dele crescendo dentro de mim, enquanto ele lá fora... luta pra sobreviver.
E eu?
Eu tô dividida entre a felicidade e o terror.
Não posso contar pra ninguém ainda. Nem sei como. Nem sei se devo. Mas preciso contar pra ele. Ele tem que saber. Só que como? Como, se eu não consigo nem saber se ele tá bem?
Pego o celular. Nada. Nenhuma mensagem. Nenhuma ligação. Nada dele.
Coloco a mão na barriga, ainda reta, ainda igual. Mas agora, eu sei que tem uma vida ali. Uma parte dele. Uma parte de nós dois. Uma esperança em meio a tanto caos.
Levanto e vou até a janela. O sol se pôs há pouco. O morro tá calado demais. Não é normal. Meu coração se aperta.
"Por favor, Felipe... volta pra mim. Eu preciso de você. A gente precisa de você."
Falo em voz baixa, quase como uma reza.
Penso no dia em que fomos pra Angra. No brilho dos olhos dele quando me pediu em casamento, quando jurou que ia me proteger de tudo, que a gente ia sair dessa vida. Naquele momento, eu acreditei. E agora, mesmo com medo, eu quero acreditar de novo.
Eu queria tanto que ele estivesse aqui. Que pudesse colocar a mão na minha barriga e sorrir do jeito dele. Dizer que vai dar tudo certo. Que a guerra vai acabar. Que a gente vai ser uma família.
Mas tudo que eu tenho agora... é o silêncio.
Volto pro quarto, deito na cama e abraço o casaco dele mais uma vez. Fecho os olhos e imagino a voz dele sussurrando no meu ouvido. Imagino o beijo, o toque, o calor. E faço uma promessa pra mim mesma:
Eu vou ser forte. Pelo nosso filho. Pela nossa história. Por ele.
Porque esse amor... ele não pode acabar assim.