cap 02 sem interesse

652 Palavras
VENENO O povo acha que me conhece. Acha que sabe quem eu sou, só porque ouve meu nome sussurrado pelas vielas, com medo. "E o Veneno.", "O dono do morro.", "O cara que manda e desmanda." Mas ninguém sabe de verdade. Ninguém viu o que eu vi. Viveu o que eu vivi. Eu não nasci mandando. Cresci vendo minha mãe se matar pra botar comida em casa e meu pai, bom, meu pai sumiu cedo demais pra ensinar qualquer coisa. Aprendi com a rua. Com o acerto. Com o erro dos outros. E quando a vida te bate tanto, uma hora tu para de sentir. Só que parar de sentir é diferente de esquecer quem tu és. Eu virei o que virei porque precisei. Porque ou era isso ou era caixão. E eu nunca fui de abaixar a cabeça pra ninguém. Quem cola comigo sabe: eu protejo os meus. Mas também cobro. E quem trai... já era. Só que, mesmo no meio disso tudo, tem hora que a vida para. Tipo aquele dia. Eu tava no corre de sempre, resolvendo umas pendências com uns caras do lado de fora do morro. Voltei estressado, cigarro na mão, encostei no carro e fiquei ali, só observando. O mundo girando e eu tentando segurar ele com os olhos. E foi aí que vi ela — Rebeca. Ela vinha com umas quentinhas na mão, meio distraída, mas com aquela cara de quem carrega o peso do mundo no ombro e ainda assim anda reta. Tem gente que brilha sem fazer esforço. E ela era assim. Mas não era brilho de enfeite, não. Era luz de quem já apanhou da vida e continuou de pé. Ela tropeçou, deixou a marmita cair. Por instinto, fui até ela. Peguei a quentinha no chão, entreguei de volta e soltei um "cuidado aí", mais por reflexo do que por intenção. Mas o jeito que ela me olhou... mano... Não era medo. Era desafio. A maioria abaixa os olhos, mas ela não. Ela sustentou o olhar como se dissesse "não tenho nada a perder". E talvez fosse isso mesmo. Desde então, comecei a reparar nela. Todo dia, sem querer querendo, eu passava por onde ela tava. E todo dia, ela fingia que não me via, mas eu sentia. Sentia o olhar de canto. O coração acelerado. O medo disfarçado de coragem. Até que hoje, não aguentei. Parei na frente dela. — Tu mora aqui há quanto tempo? — perguntei, só pra puxar assunto, mas também porque... sei lá... queria saber dela. — Desde sempre. — ela disse, firme. — Nunca te vi antes. — joguei. — Talvez porque você só olha pro que te interessa. — ela rebateu. Aí eu sorri. Ali, naquele exato momento, eu soube. Ela era diferente. Não se vendia por medo, nem se entregava por pressão. E isso, pra mim, era perigoso. Perigoso... e viciante. — E se agora você for o que me interessa? — Ela congelou por um segundo. Deu pra ver no olho dela que aquilo balançou. Mas não deixou transparecer. Rebeca é dessas que sente tudo, mas mostra nada. Voltei andando devagar, fingindo que era só mais um dia. Mas por dentro, meu mundo já tava diferente. Porque pela primeira vez em muito tempo, alguém me olhou sem bajulação, sem interesse, sem medo. E isso vale mais que qualquer respeito comprado. A real é que ela não fazia ideia. Não fazia ideia de quem eu realmente sou por dentro. Do quanto a solidão grita aqui dentro, mesmo cercado de gente. Do quanto, às vezes, eu só queria... alguém. Alguém que não perguntasse nada. Só ficasse. Só entendesse. E talvez... só talvez... Rebeca fosse essa pessoa. Mesmo que isso complicasse tudo. Porque no meu mundo, quem entra, não sai ileso. E eu não sei se quero ver ela sangrar por minha causa. Mas já era. A menina da quentinha já entrou. E eu... eu deixei.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR