Episode: The First Collision
Diante seus passos calmos entrecortando o sereno da noite - noite de lua cheia aliás, Louis foi se guiando sem rumo, não tendo certeza de qual caminho Harry seguira.
Jardins palacianos são enormes. O breu do luar não ajudava muito.
Ele andava tranquilo, embora. Orientou-se pelo próprio instinto entre os canteiros altos e o aroma floral das damas-da-noite, ao leste. E ao sul.
No que soaram sete minutos depois, Louis começou a sentir o vestígio da presença humana naquela direção, vendo de longe alguma claridade de luz amarela se destoando de toda a escuridão.
Seu caminhar o levou a um coreto (é a imagem salva na mídia). Um coreto redondo e iluminado. Um coreto com estrutura grega em tom creme e colunas de padrão jônico, ramos das plantas entrelaçados a suas grades e um ar de requinte romântico vitoriano aperfeiçoando o ambiente.
E, em uma extremidade deste, estava a verdadeira alma do espaço.
Harry estava parado como uma estátua no cenário.
Seus voluptuosos cachos eram as únicas que delatavam sua identidade, embora.
Ao menos de costas o vestuário do maior parecia precário, e um pouco sujo. Nada requintado e styliano.
Era uma camisa de mangas longas branca - com marcas beges de gordura ou rastros de bolor estampando-a - e uma calça simples preta, sem curvaturas ou tecidos finos, um tanto larga em suas pernas.
Ele se assemelhava a um camponês após um dia de trabalho.
Louis não precisou chama-lo ou reafirmar sua presença, Harry nem mesmo virado para si ouviu-o chegando e, de algum modo, soube que era ele.
- Parece que está sempre me seguindo... - Styles murmurou, virando-se em seu próprio eixo. - Príncipe Louis.
Ao flagra-lo de frente, foi constatado o estado miserável que Harry - de fato- se encontrava.
As vestimentas abarrotadas, seu cabelo ligeiramente desgrenhado e oleoso, a ausência de Carolina ou a palidez de sua pele não eram nem um grande indício se comparados a expressão dos olhos.
Seus olhos estavam na mesma tonalidade verde clara usual, no entanto com um aspecto exasperado, inquietos, e sobretudo perdidos.
Havia um incômodo por trás deles que instigou Louis instantaneamente.
Eles estavam há bons passos de distância e ainda assim era como se um certo terror que Styles se esforçava para mascarar pudesse ser transmitido a Tomlinson, de modo que ele simplesmente captasse que alguma coisa estava errada.
Harry nunca fazia contato visual que não fosse invasivo e pretensioso. Ele nunca sustentava contatos visuais se certamente não estivesse em uma posição superior ou em seu comportamento insinuante.
Mas, naquele momento, sim.
Ele permaneceu com suas pupilas fixas nas de Louis sem ousar se movimentar. É como se estivesse agoniado internamente e aquele olhar significativo fosse um aviso de emergência.
Louis escutou um grito no silêncio de seus olhos.
E se perguntou se isso era um sinal de incêndio: Harry estava em chamas por dentro e ninguém ousaria saber.
Alguma coisa só... Estava muito errada. (Como sempre).
- Vai ficar calado? - sua voz um tanto grogue e falha insinuou, embora a ironia não alcançasse ou se tornasse legítima naquele momento.
- Perdão, o que disse? - O herdeiro de Riverland indagou, piscando suas divagações para fora.
- Comentei que tenho a impressão de que está me seguindo sempre. - Harry replicou, soando mais como um resmungo rabugento porém forçado.
- Só quando acho que deseja ser encontrado, Harry. - o menor disse. E claramente sua frase surtiu algum efeito em Harry desde que foi impactante o suficiente para que ele desviasse sua atenção do rosto delicado de Louis para o lado ou qualquer direção.
A resposta não verbal e involuntária de Harry se resumiu a um fraco suspiro enquanto seu silêncio era a confirmação de que as coisas não estavam em ordem.
O cacheado andou alguns passos do meio do coreto para o canto direito, onde apoiou seus braços na grande e passou a fitar o que estivesse na frente de seu campo de visão, possibilitando a Louis somente uma imagem um pouco distante de seu perfil.
Louis estava se esforçando para agir o mais natural que conseguisse apesar de haver um ímpeto de questionar Styles o que havia de errado.
Bem, ele não precisou ter esse trabalho, Harry eventualmente ressoou suas palavras de forma dolorida ao adentrar no assunto:
- Por que você ainda se importa? - foi o que interrogou primeiro, aparentando mais estar em um monólogo do que direcionando uma pergunta a Louis. Seu tom expressava incredulidade genuína enquanto meneava sua cabeça em negação. - Eu não entendo. - soprou indignado, um pouco mais baixo, para enfim finalizar com o rosto voltado a Príncipe William em um misto de cansaço e atordoamento - Você não escutou dos boatos?
E Louis entendeu.
Naquele segundo ele ligou os pontos, a situação fez sentido e se esclareceu.
O incidente.
Harry estava sendo culpado por todos.
Claro.
E aquilo... o machucava. Mesmo que não admitisse ou não quisesse demonstrar, rejeição tem um limite. E talvez a maior parte do repudio que era voltado para si fosse consequência de suas ações, mas parte também eram graças a imagem que o circundava e que não faziam questão de desconstruir.
Talvez ser odiado e acusado por tudo de r**m que acontecia naquele palácio o chateasse mais do que qualquer um imaginasse.
Louis não seria um i****a como os outros.
- Não. Não escutei. - Tomlinson mentiu. Era óbvio que ele havia escutado, assim como todos que estavam no café da manhã o qual Luminiére anunciou o ocorrido.
Harry abaixou ainda mais a cabeça.
- Eles acham que fui eu quem envenenei Niall. Que eu tentei matá-lo. - Styles quase cochichou de tão fraco que saiu, como se estivesse envergonhado de até mesmo pronunciar tal afirmação.
Louis, que até então estava do lado de fora do coreto - sendo parte da cena ainda em meio ao jardim - subiu os degraus da estrutura oval adornada com luzes, os três que haviam, calmamente.
Calado, passou a observar despreocupado o seu redor, brevemente encantado por toda a essência de um romance vitoriano que era aquilo.
Após ter tido o suficiente do ambiente, retornou para a conversa deles, quase como se estivessem tratando de algo trivial igual o clima, perguntando em um tom casual e leve:
- Foi você?
Harry não o disse nada durante os próximos dois minutos. Nesse meio tempo tenso Louis sustentou o olhar fixo em suas costas, não sabendo qual era a feição do herdeiro Malta.
De repente, escutou-o murmurar (sátira escorregando pelas bordas, e lamentação no centro).
- Você não iria acreditar em mim. - sua réplica veio acompanhado de um dar de ombros, de forma que parecesse que Harry achasse que qual fosse sua alegação, Louis jamais de fato acreditaria nele. Porque honestamente... quem acreditava?
- Não foi o que perguntei. - Tomlinson rebateu, direto. - Foi você? Foi você quem envenenou Niall?
Mais um período sem pronunciações.
As palavras pareciam ter sumido de Harry ao que ele nada dizia, aumentando o suspense no ar.
Porém, seus ombros começaram a tremer levemente e então sua cabeça estava se balançando de um lado para o outro em negação, até que de seus lábios algo audível finalmente saísse.
- Não. - soprou, firme e quebrado.
Harry parecia pronto para o que vinha a seguir, estava preparado para escutar Louis rindo de sua negação como se falasse 'ah, claro, e eu sou um pirata', ou qualquer deboche humilhante que com certeza viria das outras pessoas.
Porque, veja, o que realmente valia a palavra de Harry quando ele é conhecido por ser um grande filho da p**a egocêntrico e egoísta? Manipulador, perverso, pervertido...
Harry Edward Styles estava sinceramente pronto, até em expectativa para qual seria a resposta zombeteira que Louis lançaria sobre si.
Mas....
- Então os mande se foderem.
Talvez o queixo de Styles tenha ido ao chão.
Ele até se virou rápido, certo de que ouviu errado.
- O que disse? - Harry pediu, agora com os olhos percorrendo o rosto de Louis em busca de alguma sanidade nele.
No entanto Louis permaneceu impassível ao repetir:
- Eles que se fodam. Mande-os se foderem.
E Harry não se lembra de alguma vez na vida ter ficado assim perplexo - nem ao t*****r com um príncipe embaixo da mesa de jantar enquanto acontecia um banquete no Palácio de Vidro, três temporadas atrás.
Ele cogitou estar doente e delirando. Escutou coisas.
Seu espanto estava claro enquanto seus olhos pareciam ter o dobro de tamanho do tão arregalados que ficaram.
Aquilo foi o suficiente para que Louis entendesse que ele não diria nada por estar preso em uma espécie de choque interno, o que o levou a esclarecer melhor:
- Harry, você não tem que se construir em torno da imagem que as pessoas guardam de você. - Louis ia proferindo, procurando clarear toda sua honestidade em cada frase. - Você não tem que insistir em se defender deles caso duvidem da sua palavra. Se não foi você, então isso basta. Você sabe a verdade. Se eles vão continuar te acusando ou não, deixe que falem. Quem liga? Eu acredito em você.
Styles aparentava prestes a ter um colapso emocional de tão tocado que estava.
Sua respiração de repente ficou muito ofegante, como se fosse ter um ataque de asma ou chorar impotente.
Seu peito subia e descia tão bruscamente que o ar escapava por seus lábios entreabertos, à medida que seus olhos estavam estatísticos nos de Louis, ligeiramente marejados.
Harry andou três passos bambos para frente.
- Não fui eu também que armou aquilo da cobra falsa com Andrew. Eu juro. - Harry sussurrou, sua voz se perdendo no sereno da noite, em iminência de desabar.
- Eu sei. - Louis sussurrou convicto de volta, embora aquilo fosse bobagem já que não havia ninguém por perto para escuta-los.
- Como? - Styles franziu as sobrancelhas, comovido demais para pensar em esconder suas expressões.
- Você nunca cogitaria a ideia de assustar alguém ou algo com uma cobra, nem mesmo um cavalo. Não quando tem um carinho tão grande pela história de Carolina. - Louis afirmou, de uma maneira que tornara certo de que ele nunca comprara a ideia de que Harry estivera por trás do acontecimento no passado.
Harry abria e fechava a boca, sem falar nada propriamente.
- E eu não creio que você seria capaz. - Louis acrescentou, tomando as rédeas da conversa já que Harry estava frágil demais para sequer participar. - Você não é uma pessoa r**m, Harry. - constatou, inspirando fundo. - Mas você permite que as todos tenham essa imagem de você, porque ela te remete a algo poderoso e inquebrável.
Você quer ser forte por fora porque se sente frágil por dentro.
A esse ponto Styles realmente estava a um nanômetro de despencar em um abismo mental. Respirando pesado e piscando com força, as luzes do coreto iluminado-o devidamente.
A camisa grudava em seu corpo devido ao suor.
Ele nunca esteve tão deplorável quanto agora, Deus.
Meio inerte da realidade, meio chocado com ela, fitando Louis com uma intensidade descomunal.
- Merda. - Styles xingou baixinho.
Ele não deu nenhum tempo de compreensão antes de avançar seus passos em direção a Louis, sem aviso, e jogando seus braços com pressa em torno do pescoço do outro - como se precisasse se agarrar nele para não cair.
Antes até mesmo de Tomlinson entender o que estava acontecendo Harry aproximou seus rostos em tempo recorde, e tomou seus lábios desesperadamente.
Desesperado.
Era a palavra ideal para descrever o ato de Styles, o qual seus beiços se movimentavam em um colapso físico, onde após exatos oito segundos Louis finalmente despertou e aceitou aquilo.
Aceitou Harry sugando-o como se houvesse esperado muito por esse momento. E como se precisasse dele agora.
Louis estava visivelmente surpreso, e ainda assim fechou os olhos e permitiu que Harry abraçasse seu pescoço agitado, apertando-os um contra o outro no calor veranista da noite.
Primeiro foi um encaixe de lábios molhados.
Um encaixe meio inconsciente e impulsivo
que levou a Harry pedir passagem exasperado para que sua língua viesse a encontrar a de Louis, como um encontro de amantes separados por uma vida, ofegante. .
O gosto de Louis era adocicado, com resquício de canela - certamente do chá que ele tomara no jantar, já Harry oferecia um sabor inusitado de cerejas.
Tomlinson sempre desconfiara que seus lábios eram extremamente rosa por um motivo. Só não tinha certeza que provinha de um gloss labial com sabor.
Suas línguas giravam em sincronia, ora ou outra fazendo sons de estalo.
Toda a euforia de Harry - quase agressiva e animalesca - estava se condensando para calma, como se aquilo o levasse a um nível de paz, como se um beijo estivesse traduzindo inicialmente seu desespero e por fim o sossegando.
Harry suspirava contra o rosto de Louis, aparentando-se perdido naquilo, perdido em movimentar e embalar seus beiços cheio de intensidade, cheio de... De algo que cutucava a boca de seu estômago há algum tempo.
Era como provar o céu.
Styles se sentia flutuando suspenso em uma nuvem, buscando se unir cada vez mais contra o corpo de Louis prestes a embolarem-se em uma mesma pessoa.
Ele estava sendo um tanto sufocante ao pressionar tão firmemente suas bocas, quase gemendo ao escorregar sua língua contra a áspera do menor.
Ele estava tão perdido naquilo que não notara sua própria perna esquerda se levantando e a direita se encaixando entre as de Tomlinson, completamente inebriado pela sensação de êxtase que o tomara.
- Harry. - Louis exclamou em advertimento, o afastando minimamente para trazer algum oxigênio aos seus pulmões visto que se fosse depender de Styles eles jamais interromperia o beijo para respirar. E, veja, ar é importante também.
Harry desuniu seus lábios um tanto ofegante, distanciando seus rostos para que pudesse olhar nas lagoas azuis, deparando-se com elas brilhantes, encarando-o de volta.
O príncipe de Malta se deu conta do quanto estava pressionando Louis contra a grade, e o quanto estava apertando-se nele como se a qualquer segundo fossem se tornar uma única peça.
Talvez ele também tenha se dado conta que havia sudo sufocante demais para o menor.
E ficou atordoado com seu próprio comportamento, confuso por ter agido sob um impulso primitivo de agarra-lo sem seu consentimento.
Envergonhado de si próprio, Harry lançou a Louis um último olhar indecifrável antes de dar alguns passos para trás, se virar e descer as escadas do coreto, sumindo pelos jardins e largando o futuro rei de Riverland um pouco trêmulo e confuso, pálido. Piscando afoito na tentativa de digerir os últimos trinta minutos.