Chapter XIV

2802 Palavras
Episode: You don't know him Ninguém entendia Harry Styles geralmente. Mas, neste momento, perceberam que não compreendiam sua persona menos ainda. Aquele seria supostamente o aniversário de morte de sua irmã... E ele estava dando uma festa? Celebrar no começo da semana não era uma novidade ao se tratar do intragável e insaciável príncipe de Malta, no entanto, em meio a um dia fúnebre, de alguém de seu próprio sangue... Era inescrupuloso.  Seria ele monstro a esse nível? Os príncipes constataram que sim ao chegarem em seu aposento às oito da noite. O fato dos quartos reais serem de uma dimensão exagerada possibilitava a realização de eventos particulares sem a objeção da administração do Palácio, afinal, os jovens eram maiores de idade, da corte e estavam em seu próprio recinto... Não havia formas de impedi-los. Ao empurrarem cuidadosamente a grande porta de madeira com uma lenço vermelho amarrado na maçaneta - assinatura registrada de Styles - quem nunca estivera lá antes (não o faziam visitas noturnas) ficou de queixo caído. No decorrer das temporadas Harry, que fez questão de consagrar aquele aposento como seu em todas elas, foi decorando pouco a pouco, trazendo mobílias de seu próprio Palácio em Malta, reformando e pintando as paredes. Ele basicamente se apropriou do lugar que já se tornara seu 'Palácio de verão' de tantos meses dessa estação que passara lá. A entrada desembocava em uma sala de estar relativamente grande, onde as paredes foram encapadas com papel de parede de camurça vermelho, cedendo uma aspecto luxuosamente macio para quem as tocasse; o chão todo de mármore claro também coberto por um tapete de pelo creme persa em formato redondo; havia uma mesa de granito oval no centro do cômodo onde jazia um vaso contento dois compridos ramos de Kadupul, a flor mais cara do mundo; algumas mesas postas de último instante ofereciam cúpulas grandes de ponche rosa, provavelmente uma mistura de suco de morango e champanhe. Se o ambiente já não era fino o suficiente, um enorme lustre inteiro disposto com uma espécie de cortina de cristais pendurava-se no teto sinalizando que uma vida de ostentações pode ser muito bem representada em somente um espaço de trinta metros quadrados. - Entrem, queridos! - a voz melodiosa de Harry ressoou para além do arco de ouro que separava a suntuosa sala de estar do seu verdadeiro quarto. E aquilo definitivamente não poderia ser considerado um quarto. Talvez 'O inferno de Lúcifer' se encaixasse mais adequadamente na descrição.  O interior era inteiramente vermelho, parecendo que estava em chamas. Em labaredas ardentes de um ambiente lúbrico com cheiro de selva e aspecto lascivo. As janelas de vidro cobriam todo o lado de uma parede, indo do teto ao rodapé de madeira escura.  Um aparador de mogno bem detalhado localizava-se no canto leste do aposento, abrigando uma coleção impressionante de whiskys nas mais variadas garrafas. Outra característica forte era a presença de espelhos. Muitos deles, em sua maioria ocupavam boa parte das paredes. Até no teto grudara-se um.  A cama king size, no centro do recinto, era no estilo dossel, tendo vigas de madeira fincadas em suas quatro extremidades sustentando um majestoso conjunto de cortinas de tule vinho, quase transparentes, o qual faziam com que o colchão (e seu conjunto de fronhas e colcha bordados) parecesse um verdadeiro mar de sangue. À frente da cama estava um longo divã camurça vermelho forte, onde, naquele momento, Harry se encontrava deitado. Oh. Mas nada naquele quarto equivalia em luxuosidade e devassidão quanto à figura imoral que os observava sorrindo presunçosamente. O verdadeiro d***o dos olhos verdes, famintos e maldosos.  Harry, esparramado no estofado com sua perna direita esticada e a esquerda dobrada, esperava para assistir as diversas reações dos maculados e inocentes príncipes, atraídos para o covil da cobra. O Príncipe de Malta trajava nada mais nada menos do que uma blusa branca de babados volumosos na gola, justa em seus ombros, punhos e torso, demarcando sua fina cintura ao estar modelada por um aparente corset - sim, corset - de couro preto, apertando suas costelas e barriga, sobre a blusa. Quem diabos usa um corset feminino? E ainda em cima da vestimenta (e não sob ela, como as princesas costumavam o fazer para delinearem melhor suas silhuetas por baixo do vestido). O corset, no entanto, deixava-o mais belo, cedia excentricidade e uma vulgaridade desmedida com curtas cordas amarradas em laços frontais em uma elegância descomunal para tal tipo de peça. Pregueada em torno de seu pescoço estava uma capa larga preta simulando uma mistura de nobreza e romantismo vitoriano. A calça justa em mesmo tom harmonizava-se com os sapatos envernizados, e tudo contribuía para o olhar selvagem ao ser somado com a rebeldia dos longos cachos, metade soltos e a outra metade - superior - presos em um choque alto. Os jovens ficaram de queixo caído. E não sabiam se era de espanto ou excitação, porque sinceramente, aquilo estava além dos limites. - Sejam bem-vindos, estou feliz por me acompanharem nesta noite es-plên-di-da! - Styles reverberou, levantando-se do divã com os lábios rosados (aquilo era batom?) puxados em um sorriso malicioso, balançando a capa para trás, enquanto andava rumo ao aparador e apanhava a garrafa de champanhe e uma taça, erguendo-as no alto. - Será divertido. *** Com o passar das primeiras horas mais príncipes foram chegando e chegando, até que o aposento espaçoso estivesse lotado, pessoas na sala de estar bebericando ponche, pessoas sentadas em rodas no chão debatendo trivialidades e, sobretudo, pessoas idolatrando Harry. O Príncipe Edward mantinha-se sentado no centro do colchão, rodeado de príncipes que o encaravam fascinados conforme mordiscava o canto dos próprios lábios em meio a monólogos superficiais sobre suas conquistas e joias. Quando o relógio marcava onze da noite, o Príncipe William resolveu comparecer brevemente no evento - a pedido de Liam, que o insistira durante o jantar - e não era como se fosse conseguir dormir cedo de qualquer modo. Vestindo materiais simples como conjunto preto de fraque acolchoado nos ombros e calça social, adentrou o recinto, olhando curioso para o tecido vermelho amarrado na maçaneta. Ao chegar, foi logo abordado por um grupo de colegas rindo animadamente e oferecendo-o ponches, o qual ele rejeitou educadamente e se pôs a procura de Liam. A maioria dos rapazes estavam em estado inicial de embriaguez e apesar de não se achar no direito de julgar ninguém, Louis não compactuava com álcool (ou com qualquer tentação que dissimulasse sua responsabilidade). Avistou Payne próximo ao arco dourado, segurando uma taça de champanhe enquanto conversava com o Príncipe Zayn Malik e Thomas Gallagher (de Alfena). Aproximou-se do grupo, saudando-os formalmente. - Altezas. Príncipe de Bristok, Liam Payne, imediatamente virou-se para o de olhos azuis com um sorriso entusiasmado. - Não acredito que veio! Que surpresa! - Payne clamou, apertando sutilmente o ombro de Tomlinson. - Realmente é quase um milagre vê-lo aqui, vossa alteza. - Zayn interviu, olhando carinhosamente para Louis.  - Não é exatamente minha área de interesse, mas confesso ser revigorante dar um suspiro para longe da rotina. - Príncipe William proferiu, averiguando o lugar brevemente como um todo. Se estava perplexo por flagrar Harry Styles com dois príncipes sentados em seu colo, um em cada coxa, paparicando-o e torcendo seus dedos nos cachos macios com as bocas ralando-lhe o pescoço, Louis realmente não demonstrou. Na realidade, nada que viesse do futuro herdeiro do trono de Malta, seria um verdadeiro baque.  As façanhas de Styles eram imprevisivelmente previsíveis. O que certamente os surpreendia era a maneira que seus seguidores estavam abandonando em cada vez maior frequência a autopreservação e normas de decência para agarrarem-se firmemente na imoralidade oferecida por Harry. O pecado estava penetrando seus poros e guiando-os a cederem os valores éticos cultivados até então. Esta seria uma nova era, onde o hedonismo estaria personificado em cachos de cor chocolate e olhar penetrante. Styles seria pior que a serpente do Jardim do Éden. Os príncipes mordiam a maça sem poderem resistir ao seu encanto. - Ele é impossível. - Zayn comentou sorrindo, negando com a cabeça ao passo que fitava o cenário lúbrico ocorrendo sob as véus de tule do dossel.  Embora estivesse com dois príncipes sobre si, ainda haviam mais três sentados ao seu redor, conversando animadamente com o Príncipe de Malta. - Eu não compreendo o que veem nele, honestamente. - Liam murmurou, torcendo o nariz. - Harry possui um charme natural. Ele tem um carisma atraente o suficiente para convencê-los a se lançarem de uma ponte.  - Para mim, ele é um exibido, sem sentimentos algum. Soube que semana retrasada, sábado, rasgou maldosamente a foto de família que Tyler trouxera para o palácio, tudo isso porque o rapaz o afrontara durante uma aula de estratégia de luta. - Liam revelou, recebendo uma expressão abismada de Thomas. - Disseram que quando Tyler estava ausente de seu aposento, assim como as criadas, Harry invadiu e removeu a foto do porta-retrato, picando-a em pedaços e espalhando pela cama, de modo que seus pedaços formassem a letra 'H'. O príncipe ficou inconsolável com aquilo, era um item de significado inestimável. - Harry pode ser um p****e quando quer. - Zayn murmurou em concordância. - Mas creio que é porque ele está tentando manter as aparências. - O que quer dizer com isso? - Nem todos são instintivamente malvados. Eu já conversei com Harry Styles. Conversei sobre equinos. Eu vi a paixão em seus olhos pelo cavalo que usa durante a equitação, o Hades. Há uma bondade genuína em si que talvez Harry seja orgulhoso demais para demonstrar ao mundo. - Malik revelou, observando pacificamente o sorriso presunçoso do cacheado ao flagra-lo encarando-o. - Talvez ele só esteja perdido em si mesmo. - Bobagem. - Thomas rebateu. - Depois do incidente com Andrew, eu não consigo enxerga-lo de boa forma. Eu assisti a queda do príncipe, ele poderia ter morrido coiceado tudo porque Harry estava o castigando infantilmente por ter sido contrariado por Andy. Nada justifica. Liam assentiu e Zayn deu de ombros. No entanto, Louis não reagiu, somente continuou com as lagoas azuis fixas na cena, digerindo silenciosamente todo o diálogo o qual não participara. - Queridos! - Styles de repente berrou rindo. Podre de bêbado. Afastando delicadamente os corpos amontoados de si, tomou impulso e levantou-se cambaleante da cama, acenando com os braços para chamar a atenção de todos. O rosto sempre pálido de porcelana estava pintado com um tom rosado, indícios que o alcoolismo fizera-o vítima de seus sintomas. - Guardei-os uma surpresa! Inclinou-se tonto para o criado mudo e retirou de uma das gavetas um grande pote de vidro cheio de pó branco. - Isso é areia? - um garoto perguntou ingênuo, fitando confuso o recipiente. - Oh! Meu jovem, sua inocência me excita. - Harry reverberou, rindo nasalado. - Esta 'areia' é o que eu chamo de pó da felicidade! A maioria dos príncipes - que realmente não sabiam o que aquilo significava porque nunca tiveram o mínimo contato com substâncias ilícitos em seus reinos (sempre rodeados de conselheiros e tutores apresentando-os apenas as maneiras corretas) - acreditaram, crendo que se tratava de um doce. - Nós o recebemos pelas narinas, e tudo parecerá leve então. - Styles manipulou, fazendo com que os rapazes se aproximassem de si. - Isso é cocaína. - uma voz se sobressaiu em tom agudo. As cabeças voltaram-se em busca de sua origem. - Isso se chama cocaína. - Príncipe William repetiu. - Se vão se arriscar, precisam estar cientes exatamente do que é. - Oh, vejo que temos um cientista na festa. - Harry satirizou. - O que és agora? O pai deles? - Não estou dizendo o que devem ou não fazer.- Louis disse, mantendo uma expressão neutra. - Mas precisam ter o mínimo conhecimento. - Pelo amor d- - O pó se chama cocaína, e é uma espécie de alucinógeno. Quando você aspira, ela age diretamente no sistema nervoso central, com efeito semelhante ao de anfetaminas, causando uma euforia intensa e rápida, seguida de um profundo relaxamento.  Os olhos alheios brilharam pela descrição do que parecia ser a pílula da felicidade, animados com a ideia de passarem por essa experiência. - Mas a cocaína aumenta o risco de o usuário ter um ataque cardíaco, derrame cerebral, convulsões ou insuficiência respiratória, sendo que qualquer um destes pode resultar em morte súbita. - Louis complementou, piscando lento para o horror estampado na face dos príncipes ao alerta-los sobre as consequências. - Não deem ouvido a esse estraga prazeres, vamos lá. - Harry murmurou entredentes, fulminando Tomlinson. - Vocês têm tendência a ficar facilmente viciados e as pessoas que a usam não comem nem dormem adequadamente. Podem experimentar taquicardia, espasmos musculares e convulsões. E talvez sintam paranóias furiosas, hostis e ansiosas. Finalizando seu monólogo, a maioria dos príncipes haviam recuados seus passos, afastando-se de Harry e o pote de pó branco, demonstrando-se apreensivos com a decisão. - Ora, ora. Mas você não consegue segurar esse seu jeito pessimista nem por um segundo, não é mesmo Príncipe William? - Harry debochou, arrastando-se cambaleante para próximo dele. - Não fiz nada além de alerta-los, vossa alteza. - Tomlinson pronunciou, encarando com intensidade as gramíneas de verão enfurecidas. - Bom, já que não é capaz de mudar essa sua indiferença pra tudo, talvez seja a hora de ir embora, vossa alteza. - Styles enfatizou irônico. Ele se preparava para se afastar ao que tropeçou no próprio pé direito e pendeu bambo para o lado, contudo as mãos ágeis de Louis o seguraram pelo cotovelo a tempo, impedindo que caísse e o reerguendo. Seus braços se afastaram birrentos da sustentação de Tomlinson, como se fosse culpa do menor sua iminente queda. - Obrigado. - cuspiu contrariado, lembrando que sua postura superior deveria prevalecer-se sobre o orgulho. Ele ainda era um príncipe, afinal. - Mas agora, pode ir.  Louis prensou os lábios como se estivesse repreendendo um riso, porém o resto de sua feição mantinha-se inabalada, olhando-o neutro ao reverberar calmo e melodiosamente: - Como desejar, vossa alteza. Tenha uma boa noite. Acenou educadamente com a cabeça e se virou para o grupo de Liam, Zayn e Thomas, despedindo-se com uma breve reverência antes de virar-se no próprio eixo e andar tranquilo em direção à saída. **** Horas transcorridas e Louis ainda estava acordado em seu quarto, lendo um livro de diplomacia germânica. A insônia não se importava com horário, evidentemente. Muito menos com a regulação saudável do seu sono. Honestamente neste momento ela parecia querer-lo desperto em plenas três e meia da madrugada como nunca antes. Sentindo-se cansado da leitura densa, Tomlinson depositou o exemplar de quatrocentas páginas na superfície de seu criado mudo e levantou-se da poltrona de couro marrom, observando sem interesse os detalhes de seu aposento. Sendo o oposto do de Styles, o recinto separado para o Príncipe William era de uma elegância fina e tradicional, preservando mobília com estofados de cor de escura - puxados para o marrom em sua maioria - e cômodas de mogno grande. Seu colchão não era um dossel - o que ele agradecida, porque não se imaginaria dormindo em uma espécie de ninho de cortinas, porém tão grande quanto o do seu próprio quarto em Riverland. Ele sentia saudades de sua família, mas procurava não remoer muito o assunto na mente, sabia que se o fizesse seu coração se apertaria ainda mais, o que era completamente desnecessário pois essa seria uma fase passageira, de transformação pessoal, para que finalmente retornasse a Riverland apto para a posse do trono quando seu pai decidisse repassa-lo. Só uma fase passageira de transição. Passageira. Inspirando lentamente ele andou em círculos pelo perímetro, dispersando pensamentos e almejando o sono.  Ao parar próximo a janela e olhar através dela, notou que chovia. E como chovia! Não havia percebido antes o barulho das gotículas colidindo contra o vidro, mas agora que o notara poderia apreciar a paisagem bucólica e clichê de uma tempestade inundando o espaço afora, engolindo pela escuridão, enquanto mantinha-se seguro e aquecido em seu aposento. Espremendo os olhos e esforçando-se para enxergar melhor o jardim de inverno e o movimento icônico das árvores que dançavam no ritmo da ventania, Louis surpreendeu-se ao flagrar a sombra de uma figura solitária mergulhando-se na tempestade. Graças a intensa penumbra, pouco conseguia visualizar além de uma silhueta escura vagando entre a trilha de coníferas, próximo das damas da noite e outras flores frescas, segredando novamente sua solidão para o luar e infiltrando-se mais e mais no breu dos jardins. Reconheceu o caminhar rebolado e ultrajante. Meio bêbado, talvez. Harry se afogava. E ninguém sabia. Se era em si próprio, ou no mar de seus pesadelos, ninguém se importava. Expirando fundo, Louis desviou o olhar para o chão durante alguns segundos, remoendo em sua mente onde havia guardado seu guarda-chuva.
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