Chapter IX

2667 Palavras
Episode: Touché - Como você ousa?! - Andrew mancava com sua perna esquerda engessada para atravessar apressadamente o salão do almoço. Devido suas fraturas do dia anterior havia sido dispensado das aulas teóricas, podendo se recuperar melhor no conforto de seu quarto com o auxílio de suas criadas. No entanto,  assim que amanheceu com o jornal deixado ao pé da porta de seu aposento - assim como os todos os príncipes também obtiveram seus exemplares da mesma maneira - imediatamente se enfureceu. Suas criadas sentiram-se imediatamente culpadas por te-lo entregue o manuscrito enquanto levavam seu almoço em uma bandeja de prata, razão pelo qual o príncipe engoliu a dor da fratura e se vestiu mais adequadamente, exigindo que algum empregado real o ajudasse a descer as escadas.  Rumou desconcertado para o Salão A onde os jovens estariam tendo sua segunda refeição do dia e não hesitou ao escancarar a imensa porta, a raiva estampada em seu belo rosto. Procurou-o com o olhar, encontrando-o sentado perto da ponta degustando seu suco de frutas. - Você! - reverberou quase em um berro, esforçando-se para se aproximar da figura petulante que o encarava surpreso pela intimação nervosa. Harry vestia uma calça branca larga com uma típica camisa de mangas compridas bufante florida em tons de rosa, concedendo-o uma imagem pacífica de quem dificilmente teria acometido uma maldade com outro garoto de modo tão bárbaro. No entanto, aparências enganam. E era necessário se lembrar que a bengala do glorioso Príncipe de Malta não possuía formato de cobra a toa. - Eu? - Harry indagou repuxando um sorriso sacana lateral, afastando sua cadeira para trás e se erguendo de pé enquanto levantava as mãos para o alto, em uma fingida rendição. - Seu p****e! - Andrew xingou-o, parando em sua frente. O dedo apontado para o nariz afilado de Styles. - Mas o que fiz dessa vez para deixa-lo tão fora de órbita? - Harry falou com uma voz triste forçada. - Oh deus, escutei que deveria estar de repouso, não lhe fará bem esses esforços. - Cale a boca! Como pôde, seu i****a?! Todos os príncipes ficaram em alerta, levantando-se assustados pela proporção que aquilo poderia tomar.  - Especifique-se, cavalheiro. - Harry continuou com sua expressão de 'inocência' pintada em um tom de deboche, enquanto as cores que Andrew via em sua frente eram avermelhadas, quentes, que o remetiam a sangue. - Você sabe! Usou uma cobra pra assustar meu cavalo?! Tudo isso por quê?! Porque eu deixei claro que sua personalidade egocêntrica e prepotente destruiria a moral alheia? - Oh! Mas quanta hipocrisia, meu Deus! Ontem mesmo presenciei o senhor e uma roda de outros jovens discursando sobre como não devemos dar ouvidos aos burburinhos que esse escritor anônimo pretende causar... - Harry dizia, olhando desinteressado para os próprios dedos longos adornados de anéis caros. - ... E agora, basta a primeira matéria com acusações para a minha pessoa que você vem me julgar? Isso é feio, hum.  - Harry Edward Styles, é bom que você não esteja envolvido nisso ou eu juro que lhe quebro o pescoço agora mesmo! O sorriso que tanto se prendia no rosto insolente do príncipe arrogante aumentou. - Eu não afirmei que fui eu. Em momento algum. Andrew estreitou os olhos castanhos para as esferas verdes poluídas, buscando abrandar a exaltação de alguma maneira. - Mas também não neguei. - Styles acrescentou, uma risadinha petulante escapulindo de seus lábios ao passo que o príncipe avançava furiosamente em sua direção, com um punho fechado pronto para acertar-lhe um soco, mas impedido devido às limitações que sua perna engessada o causavam. Outros príncipes se prontificaram no mesmo instante, indo segura-lo e impedi-lo de se machucar ou machucar Styles, que fitava-o expressando tédio. - Você é o próprio d***o! Vai queimar no inferno! - Andrew vociferou, sendo sustentado por braços que bloqueavam suas tentativas de se desvencilhar e agredir o descarado sujeito do cetro de cascavel. As palavras, de algum modo, despertaram o interesse de Harry, o qual parou gradativamente de sorrir adotando uma postura mais séria. Ele andou alguns passos para frente, curvando-se a medida que seu rosto pairava alinhado ao de Andrew. - Querido, eu vivo no próprio inferno. - Edward sussurrou em um timbre audível para quem estivesse próximo. - E arrasto quem puder comigo.  Com a voz rouca selando o que seria um desfecho horroroso para o cenário de um almoço - em que ninguém realmente teve apetite para a sobremesa - Styles se endireitou e o lançou um último sorriso de lábios fechados, olhos perversos e juras ocultas.  Afastou-se e saiu do salão, deixando dentro dele pessoas espantadas com o comportamento dos dois e o príncipe de Western jurando que ainda daria a volta por cima. **** Ao entardecer daquela mesma terça-feira, quando os ânimos gerais haviam se acalmado embora uma tensão densa pairasse no ar seco de um verão quente, os príncipes rumaram para o campo de treino portando o sabre nas mãos e vestindo-se adequadamente com máscaras e jaquetas protetoras do esporte. Andrew fora obrigado a retornar ao seu aposento para descansar devidamente durante três dias.  A administração real foi acionada, tomando ciência do incidente e prometendo providências até o final de semana. Eles não poderiam de fato acusar Harry Edward Styles sem provas concretas - mesmo que no fundo soubessem os limites e traquinagens do príncipe que esteve lá e já causou problemas durante outras cinco temporadas. - Prontos para o verdadeiro Esgrima? - o treinador Jordan questionou, ordenando que eles se enfileirassem lado a lado para 'ensina-los' algumas instruções práticas, visto que na semana passada aprenderam somente informações teóricas do esporte. Conforme ditava os passos e demonstrava os golpes, segurando firmemente o sabre e golpeando o ar com precisão - sinceramente, ele estava lecionando príncipes que provavelmente já lutaram com espadas verdadeiras e sem proteção alguma com seus conselheiros. Fazia parte da programação de 'como criar um garoto que tornar-se-á um futuro destemido rei'. Espadas costumavam ser um extra nas brincadeiras de pega-pega. - Irei coloca-los em duplas para treinarem suas primeiras partidas. - o treinador avisou, separando aleatoriamente jovens. Ao final, suas escolhas foram fascinantes. - Harry Edward Styles e Louis William Tomlinson. Enquanto Harry se apressava para tomar sua posição com o típico queixo erguido e seu casual orgulho ostensivo pesando talvez mais do que as joias que enfeitavam exageradamente seu corpo, Louis andava devagar em passos secos porém delicados, que remetiam a uma pluma planando no ar e simultaneamente ao estrondo de um raio cortando o céu no apogeu de uma tempestade. Um de frente para o outro. Fazia cerca de uma semana desde que as gramas de verão repousaram sobre as lagoas azuis, e nenhuma outra vez desde então. Apesar de Harry até ter preferido evitar contato desnecessário com o príncipe que ferira facilmente seu orgulho, não fora uma escolha sua a distância entre os dois. O Príncipe William era simplesmente inalcançável. Ele não interagiria por pura vontade com os outros e raramente era flagrado transitando no Salão dos Homens ou jogando conversa fora com qualquer um deles. Geralmente, Louis passava como um fantasma nas aulas e refeições.  Calado. Focado. Austero. Sóbrio demais para uma realidade de coroas e cortejos, onde todos nasceram em berços de ouro - no sentido denotativo da frase - e cresceram como protagonistas de contos de fada. Tomlinson parecia ser a exceção. Ele era o rei da fábula. Um jovem que nunca exerceu o estereótipo de um príncipe, nascendo em um atalho direto para o trono e a administração de algo maior. A sua presença bastava para que quem estivesse próximo sentisse sua dominância natural, o respeitasse sem motivos aparentes como se ele de fato possuísse uma grande coroa de ouro cravejada de diamantes invisível sobre os fios acastanhados.  Ninguém - além de Liam Payne - nem ao menos se submetia a missão impossível de tornar-se amigo de alguém tão reservado quanto Tomlinson. Liam era o único que realmente fazia questão de estar por perto de Louis quando este dava as caras - o que já era de uma inexorável raridade - em espaços comuns. Claro, se conversassem com o Príncipe William e tentassem estabelecer um diálogo, Louis seria um agradável ouvinte e intelectual transmissor de ideias. No entanto, era preciso que você fosse até ele e desenvolvesse um assunto, caso contrário o príncipe optaria pelo isolamento, na companhia de livros clássicos com títulos em latim ou na língua franca.  Harry, particularmente, sentia certa aversão pelo jeito tranquilo e inabalável de Louis. Não ser capaz de atingi-lo o irritava. - Pronto para perder? - Styles provocou enquanto os dois faziam uma reverência de iniciação, intersectando suas armas.  Tomlinson não o respondeu, embora. Era uma coisa sua, desde menino, cresceu com cinco irmãos extremamente competitivos que ameaçavam e pressionavam uns aos outros durante os jogos, intimidando-os. O garoto do meio, Louis, era o único que evitava escutar as insinuações, focando-se no jogo. E ganhando na maioria de vezes. Quando o tintinar dos sabres preencheu o silêncio do campo, os príncipes já atacavam e se esquivavam dos golpes, abaixando-se ou dando passos para trás elegantemente, sendo ressaltada a importância de nunca perderem a etiqueta de um 'rei' durante seus movimentos. Precisavam ser graciosos. Delicados. E rígidos. Harry era um verdadeiro desafio. Ele desenvolvera uma grande habilidade para o Esgrima, agindo rápido e cordial, igual um leão feroz encurralando uma presa.  Sua mão segurava firme a 'arma', buscando formas de atingir o corpo menor. O uso de máscaras eram essenciais para a proteção, e, não tão surpreendentemente, Harry possuía um traje diferente. Enquanto toda a vestimenta para os demais príncipes era inteiramente branca (desde as luvas ao plastrão), Styles mandara confeccionar em sua segunda temporada no Palácio um figurino próprio, tendo como Azul Maya a principal cor de suas composições - em exceção à mascara, que era em uma extravagante tonalidade Índigo com fios de prata se abraçando e entrelaçando até formarem desenhos de flores de lis. Ele sempre seria o destaque. Ele gostava disso. O que ele não gostava era do fato de Louis não vacilar nenhuma vez diante dos seus ataques, mantendo-se firme na defensiva, sem brechas ou falhas, desviando fervorosamente de suas investidas, o que frustrava Harry. Então o cacheado teve uma ideia. Distrai-lo. - Diga-me, vossa alteza. - Harry balbuciou, esticando rapidamente seu braço sem sucesso devida à rápida reação de Louis. - Não tens medo de ser meu adversário visto a minha reputação dos últimos acontecimentos? O semblante concentrado do menor não se alterou, olhando antenado para o leão com suas armadilhas. - Últimos acontecimentos? - Oh, ora, não me diga que é tão recluso ao nível de não estar a par dos escândalos vigentes. Não acredito. - Honestamente. - Louis reverberou, desviando de um novo movimento e começando contra-atacar, pegando Harry desprevenido pela sua agilidade marcante e golpes firmes. - Não me inteirei no assunto, não é de minha persona atentar-me a intrigas. - Então você não pensa que fui eu quem colocou a cobra?  - Foi?  Styles recuou alguns passos somente para dar um impulso mais preciso em seus próximos movimentos, disposto a perder uma perna pela vitória da partida. - Eu nunca conto os meus segredos. - Harry reforçou, com uma nova estratégia de ataque lateral, que foi percebia rapidamente por Louis, o qual se esgueirou para trás e bateu com as pontas dos sabres, entornando o do príncipe para baixo. - Assim como você? Presumo. - Não sou um homem de segredos, vossa alteza. - Tomlinson rebateu, apresentando um sorriso lateral simpático embora seu olhar se mantivesse atento para o Esgrima. - Blasfêmia. - Harry contestou, conseguindo pela primeira vez uma brecha na defesa das lagoas azuis, estando há milímetros de ter acertado o ombro alheio e ganhar a partida. - Não há ninguém que resista uma vida sem privacidade. - Pois bem, segredos é o caminho oposto de privacidade. Eles existem unicamente para que sejam expostos. - Isso não faz o menor sentido. - Styles argumentou, flexionando os joelhos e executando um ataque baixo, novamente quase acertando Tomlinson e vencendo. - Você precisa transparecer aquilo que não quer que os outros saibam sobre você. Quanto mais debaixo de seus narizes estiver, menos enxergarão. É um grande provérbio chinês. - Sem fundamento algum. Chineses não passam de banqueiros querendo trapacear nos acordos comerciais. - Estão corretos pelo provérbio, embora. Aqueles que buscam se fantasiar em uma armadura que não vos pertencem, menos escondem suas verdadeiras fraquezas. - Louis reverberou, sereno, com uma neutralidade exímia. Harry, no entanto, franziu seu cenho. Cada minuto mais sedento pela vitória de fazê-lo engolir essa mansidão, junto com uma derrota vergonhosa, para então escutar daqueles lábios finos atrevidos um 'Touché', de quem reconhece a perda do jogo.  - Isto é sobre mim, vossa alteza, hum? Seja direto. - Eu não me refiro a ninguém específico. É apenas um provérbio. - Pois pra mim foi uma referencia clara. Estamos em um novo jogo e eu não sabia? Está me transmitindo morais? - Não sou alguém para tal. - Louis replicou. Os sabres batendo em volume alto. - Guardo a moral para mim próprio. - Oh, jura? Isso é patético. - Harry caçoou, revirando deselegante os olhos. - Mas vamos, eu te desafio, me fale um ditado que mais se atribuiria ao meu ser. - Não acho necessário. - Uma. Apenas uma. Ande. - instigou, segurando o sabre com firmeza e aplicando mais força nas batidas. - Certo. Eu lhe diria que não é pela força que se vence. - Bobo. - Styles riu. - Isso me soa como discurso de gente fraca.  Rebateu um contra-ataque sendo quase violento. - Força física é um artifício para fracos de mente, Príncipe Edward. Respeito não se conquista através da opressão. Um riso arrogante e debochado escapuliu da boca vermelha - talvez fosse uma pigmentação de cosméticos, sempre estava vermelha demais - de Harry Styles. - Olhe para mim, Louis. Eu estou no controle de tudo. Sendo quem quero e fazendo o que sou. - Harry proferiu, sorrindo insano ao reparar o descuido de Louis ao querer defender-se com passos bambos para trás, causando a desproteção de seu lombar esquerdo, facilitando a vitória de Harry, que bastaria uma distensão rápida do braço para nocaute-lo. Contudo, ao aproximar-se rumando um alvo no corpo de Tomlinson, o mesmo desviou com um giro surpresa, pegando-o desprevenido e atingindo-o certeiro em sua clavícula. Louis ganhou. - Essa é manha. Você precisar fazer com que pensem que estão no controle, até demonstra-los o contrário - Príncipe William pronunciou tenro, livrando-se da máscara branca, endireitando sua postura, e, pondo os braços para trás das costas formalmente, enquanto assistia o adversário de cabelos compridos e cacheados removendo a máscara Indigo estampada de flores com sua respiração ofegante e pose curvada.  Os olhos verdes de grama de verão se arregalaram ao notar que o dono das lagoas azuis nem sequer possuía uma respiração desregulada, ou mesmo apresentava sinais de exaustão. Ele continuava distinto, intocado, como quem terminara de jantar e não quem estivera praticando um esporte estratégico e ardiloso. O que fez parecer uma vitória fácil, sem muita resistência por parte do adversário - embora Harry tenha muita habilidade para esgrima. Louis aguardava calado. Harry sabia o que ele esperava e seu estômago corroía sua honra. - Touché. - Harry murmurou a contragosto, tendo que (contra sua vontade) reconhecer a derrota. Louis concordou com um aceno da cabeça, estendendo a mão para que Styles correspondesse o cumprimento amistoso entre jogadores.  Era parte da etiqueta da elite educada. Ao unir suas palmas em um aperto condescendente, Harry notou o calor natural que Tomlinson emanava - e não só pela epiderme.  - Foi um bom jogo, vossa alteza. - Tomlinson elogiou, sorrindo com cordialidade. Contudo, Harry estreitou seus olhos verdes de uma maneira provocativa, aproximando seus rostos sem quebrar o contato visual. - Eu vou ter a minha revanche, príncipe. - ameaçou, uma covinha maldosa afundando a bochecha. - Espere e verá
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