Episode: Touché
- Como você ousa?! - Andrew mancava com sua perna esquerda engessada para atravessar apressadamente o salão do almoço.
Devido suas fraturas do dia anterior havia sido dispensado das aulas teóricas, podendo se recuperar melhor no conforto de seu quarto com o auxílio de suas criadas.
No entanto, assim que amanheceu com o jornal deixado ao pé da porta de seu aposento - assim como os todos os príncipes também obtiveram seus exemplares da mesma maneira - imediatamente se enfureceu.
Suas criadas sentiram-se imediatamente culpadas por te-lo entregue o manuscrito enquanto levavam seu almoço em uma bandeja de prata, razão pelo qual o príncipe engoliu a dor da fratura e se vestiu mais adequadamente, exigindo que algum empregado real o ajudasse a descer as escadas.
Rumou desconcertado para o Salão A onde os jovens estariam tendo sua segunda refeição do dia e não hesitou ao escancarar a imensa porta, a raiva estampada em seu belo rosto.
Procurou-o com o olhar, encontrando-o sentado perto da ponta degustando seu suco de frutas.
- Você! - reverberou quase em um berro, esforçando-se para se aproximar da figura petulante que o encarava surpreso pela intimação nervosa.
Harry vestia uma calça branca larga com uma típica camisa de mangas compridas bufante florida em tons de rosa, concedendo-o uma imagem pacífica de quem dificilmente teria acometido uma maldade com outro garoto de modo tão bárbaro.
No entanto, aparências enganam.
E era necessário se lembrar que a bengala do glorioso Príncipe de Malta não possuía formato de cobra a toa.
- Eu? - Harry indagou repuxando um sorriso sacana lateral, afastando sua cadeira para trás e se erguendo de pé enquanto levantava as mãos para o alto, em uma fingida rendição.
- Seu p****e! - Andrew xingou-o, parando em sua frente. O dedo apontado para o nariz afilado de Styles.
- Mas o que fiz dessa vez para deixa-lo tão fora de órbita? - Harry falou com uma voz triste forçada. - Oh deus, escutei que deveria estar de repouso, não lhe fará bem esses esforços.
- Cale a boca! Como pôde, seu i****a?!
Todos os príncipes ficaram em alerta, levantando-se assustados pela proporção que aquilo poderia tomar.
- Especifique-se, cavalheiro. - Harry continuou com sua expressão de 'inocência' pintada em um tom de deboche, enquanto as cores que Andrew via em sua frente eram avermelhadas, quentes, que o remetiam a sangue.
- Você sabe! Usou uma cobra pra assustar meu cavalo?! Tudo isso por quê?! Porque eu deixei claro que sua personalidade egocêntrica e prepotente destruiria a moral alheia?
- Oh! Mas quanta hipocrisia, meu Deus! Ontem mesmo presenciei o senhor e uma roda de outros jovens discursando sobre como não devemos dar ouvidos aos burburinhos que esse escritor anônimo pretende causar... - Harry dizia, olhando desinteressado para os próprios dedos longos adornados de anéis caros. - ... E agora, basta a primeira matéria com acusações para a minha pessoa que você vem me julgar? Isso é feio, hum.
- Harry Edward Styles, é bom que você não esteja envolvido nisso ou eu juro que lhe quebro o pescoço agora mesmo!
O sorriso que tanto se prendia no rosto insolente do príncipe arrogante aumentou.
- Eu não afirmei que fui eu. Em momento algum.
Andrew estreitou os olhos castanhos para as esferas verdes poluídas, buscando abrandar a exaltação de alguma maneira.
- Mas também não neguei. - Styles acrescentou, uma risadinha petulante escapulindo de seus lábios ao passo que o príncipe avançava furiosamente em sua direção, com um punho fechado pronto para acertar-lhe um soco, mas impedido devido às limitações que sua perna engessada o causavam.
Outros príncipes se prontificaram no mesmo instante, indo segura-lo e impedi-lo de se machucar ou machucar Styles, que fitava-o expressando tédio.
- Você é o próprio d***o! Vai queimar no inferno! - Andrew vociferou, sendo sustentado por braços que bloqueavam suas tentativas de se desvencilhar e agredir o descarado sujeito do cetro de cascavel.
As palavras, de algum modo, despertaram o interesse de Harry, o qual parou gradativamente de sorrir adotando uma postura mais séria.
Ele andou alguns passos para frente, curvando-se a medida que seu rosto pairava alinhado ao de Andrew.
- Querido, eu vivo no próprio inferno. - Edward sussurrou em um timbre audível para quem estivesse próximo. - E arrasto quem puder comigo.
Com a voz rouca selando o que seria um desfecho horroroso para o cenário de um almoço - em que ninguém realmente teve apetite para a sobremesa - Styles se endireitou e o lançou um último sorriso de lábios fechados, olhos perversos e juras ocultas.
Afastou-se e saiu do salão, deixando dentro dele pessoas espantadas com o comportamento dos dois e o príncipe de Western jurando que ainda daria a volta por cima.
****
Ao entardecer daquela mesma terça-feira, quando os ânimos gerais haviam se acalmado embora uma tensão densa pairasse no ar seco de um verão quente, os príncipes rumaram para o campo de treino portando o sabre nas mãos e vestindo-se adequadamente com máscaras e jaquetas protetoras do esporte.
Andrew fora obrigado a retornar ao seu aposento para descansar devidamente durante três dias.
A administração real foi acionada, tomando ciência do incidente e prometendo providências até o final de semana. Eles não poderiam de fato acusar Harry Edward Styles sem provas concretas - mesmo que no fundo soubessem os limites e traquinagens do príncipe que esteve lá e já causou problemas durante outras cinco temporadas.
- Prontos para o verdadeiro Esgrima? - o treinador Jordan questionou, ordenando que eles se enfileirassem lado a lado para 'ensina-los' algumas instruções práticas, visto que na semana passada aprenderam somente informações teóricas do esporte.
Conforme ditava os passos e demonstrava os golpes, segurando firmemente o sabre e golpeando o ar com precisão - sinceramente, ele estava lecionando príncipes que provavelmente já lutaram com espadas verdadeiras e sem proteção alguma com seus conselheiros. Fazia parte da programação de 'como criar um garoto que tornar-se-á um futuro destemido rei'. Espadas costumavam ser um extra nas brincadeiras de pega-pega.
- Irei coloca-los em duplas para treinarem suas primeiras partidas. - o treinador avisou, separando aleatoriamente jovens.
Ao final, suas escolhas foram fascinantes.
- Harry Edward Styles e Louis William Tomlinson.
Enquanto Harry se apressava para tomar sua posição com o típico queixo erguido e seu casual orgulho ostensivo pesando talvez mais do que as joias que enfeitavam exageradamente seu corpo, Louis andava devagar em passos secos porém delicados, que remetiam a uma pluma planando no ar e simultaneamente ao estrondo de um raio cortando o céu no apogeu de uma tempestade.
Um de frente para o outro.
Fazia cerca de uma semana desde que as gramas de verão repousaram sobre as lagoas azuis, e nenhuma outra vez desde então.
Apesar de Harry até ter preferido evitar contato desnecessário com o príncipe que ferira facilmente seu orgulho, não fora uma escolha sua a distância entre os dois.
O Príncipe William era simplesmente inalcançável. Ele não interagiria por pura vontade com os outros e raramente era flagrado transitando no Salão dos Homens ou jogando conversa fora com qualquer um deles.
Geralmente, Louis passava como um fantasma nas aulas e refeições.
Calado. Focado. Austero. Sóbrio demais para uma realidade de coroas e cortejos, onde todos nasceram em berços de ouro - no sentido denotativo da frase - e cresceram como protagonistas de contos de fada.
Tomlinson parecia ser a exceção. Ele era o rei da fábula. Um jovem que nunca exerceu o estereótipo de um príncipe, nascendo em um atalho direto para o trono e a administração de algo maior.
A sua presença bastava para que quem estivesse próximo sentisse sua dominância natural, o respeitasse sem motivos aparentes como se ele de fato possuísse uma grande coroa de ouro cravejada de diamantes invisível sobre os fios acastanhados.
Ninguém - além de Liam Payne - nem ao menos se submetia a missão impossível de tornar-se amigo de alguém tão reservado quanto Tomlinson. Liam era o único que realmente fazia questão de estar por perto de Louis quando este dava as caras - o que já era de uma inexorável raridade - em espaços comuns.
Claro, se conversassem com o Príncipe William e tentassem estabelecer um diálogo, Louis seria um agradável ouvinte e intelectual transmissor de ideias. No entanto, era preciso que você fosse até ele e desenvolvesse um assunto, caso contrário o príncipe optaria pelo isolamento, na companhia de livros clássicos com títulos em latim ou na língua franca.
Harry, particularmente, sentia certa aversão pelo jeito tranquilo e inabalável de Louis. Não ser capaz de atingi-lo o irritava.
- Pronto para perder? - Styles provocou enquanto os dois faziam uma reverência de iniciação, intersectando suas armas.
Tomlinson não o respondeu, embora. Era uma coisa sua, desde menino, cresceu com cinco irmãos extremamente competitivos que ameaçavam e pressionavam uns aos outros durante os jogos, intimidando-os. O garoto do meio, Louis, era o único que evitava escutar as insinuações, focando-se no jogo. E ganhando na maioria de vezes.
Quando o tintinar dos sabres preencheu o silêncio do campo, os príncipes já atacavam e se esquivavam dos golpes, abaixando-se ou dando passos para trás elegantemente, sendo ressaltada a importância de nunca perderem a etiqueta de um 'rei' durante seus movimentos.
Precisavam ser graciosos. Delicados. E rígidos.
Harry era um verdadeiro desafio.
Ele desenvolvera uma grande habilidade para o Esgrima, agindo rápido e cordial, igual um leão feroz encurralando uma presa.
Sua mão segurava firme a 'arma', buscando formas de atingir o corpo menor.
O uso de máscaras eram essenciais para a proteção, e, não tão surpreendentemente, Harry possuía um traje diferente. Enquanto toda a vestimenta para os demais príncipes era inteiramente branca (desde as luvas ao plastrão), Styles mandara confeccionar em sua segunda temporada no Palácio um figurino próprio, tendo como Azul Maya a principal cor de suas composições - em exceção à mascara, que era em uma extravagante tonalidade Índigo com fios de prata se abraçando e entrelaçando até formarem desenhos de flores de lis.
Ele sempre seria o destaque.
Ele gostava disso.
O que ele não gostava era do fato de Louis não vacilar nenhuma vez diante dos seus ataques, mantendo-se firme na defensiva, sem brechas ou falhas, desviando fervorosamente de suas investidas, o que frustrava Harry.
Então o cacheado teve uma ideia. Distrai-lo.
- Diga-me, vossa alteza. - Harry balbuciou, esticando rapidamente seu braço sem sucesso devida à rápida reação de Louis. - Não tens medo de ser meu adversário visto a minha reputação dos últimos acontecimentos?
O semblante concentrado do menor não se alterou, olhando antenado para o leão com suas armadilhas.
- Últimos acontecimentos?
- Oh, ora, não me diga que é tão recluso ao nível de não estar a par dos escândalos vigentes. Não acredito.
- Honestamente. - Louis reverberou, desviando de um novo movimento e começando contra-atacar, pegando Harry desprevenido pela sua agilidade marcante e golpes firmes. - Não me inteirei no assunto, não é de minha persona atentar-me a intrigas.
- Então você não pensa que fui eu quem colocou a cobra?
- Foi?
Styles recuou alguns passos somente para dar um impulso mais preciso em seus próximos movimentos, disposto a perder uma perna pela vitória da partida.
- Eu nunca conto os meus segredos. - Harry reforçou, com uma nova estratégia de ataque lateral, que foi percebia rapidamente por Louis, o qual se esgueirou para trás e bateu com as pontas dos sabres, entornando o do príncipe para baixo. - Assim como você? Presumo.
- Não sou um homem de segredos, vossa alteza. - Tomlinson rebateu, apresentando um sorriso lateral simpático embora seu olhar se mantivesse atento para o Esgrima.
- Blasfêmia. - Harry contestou, conseguindo pela primeira vez uma brecha na defesa das lagoas azuis, estando há milímetros de ter acertado o ombro alheio e ganhar a partida. - Não há ninguém que resista uma vida sem privacidade.
- Pois bem, segredos é o caminho oposto de privacidade. Eles existem unicamente para que sejam expostos.
- Isso não faz o menor sentido. - Styles argumentou, flexionando os joelhos e executando um ataque baixo, novamente quase acertando Tomlinson e vencendo.
- Você precisa transparecer aquilo que não quer que os outros saibam sobre você. Quanto mais debaixo de seus narizes estiver, menos enxergarão. É um grande provérbio chinês.
- Sem fundamento algum. Chineses não passam de banqueiros querendo trapacear nos acordos comerciais.
- Estão corretos pelo provérbio, embora. Aqueles que buscam se fantasiar em uma armadura que não vos pertencem, menos escondem suas verdadeiras fraquezas. - Louis reverberou, sereno, com uma neutralidade exímia.
Harry, no entanto, franziu seu cenho. Cada minuto mais sedento pela vitória de fazê-lo engolir essa mansidão, junto com uma derrota vergonhosa, para então escutar daqueles lábios finos atrevidos um 'Touché', de quem reconhece a perda do jogo.
- Isto é sobre mim, vossa alteza, hum? Seja direto.
- Eu não me refiro a ninguém específico. É apenas um provérbio.
- Pois pra mim foi uma referencia clara. Estamos em um novo jogo e eu não sabia? Está me transmitindo morais?
- Não sou alguém para tal. - Louis replicou. Os sabres batendo em volume alto. - Guardo a moral para mim próprio.
- Oh, jura? Isso é patético. - Harry caçoou, revirando deselegante os olhos. - Mas vamos, eu te desafio, me fale um ditado que mais se atribuiria ao meu ser.
- Não acho necessário.
- Uma. Apenas uma. Ande. - instigou, segurando o sabre com firmeza e aplicando mais força nas batidas.
- Certo. Eu lhe diria que não é pela força que se vence.
- Bobo. - Styles riu. - Isso me soa como discurso de gente fraca.
Rebateu um contra-ataque sendo quase violento.
- Força física é um artifício para fracos de mente, Príncipe Edward. Respeito não se conquista através da opressão.
Um riso arrogante e debochado escapuliu da boca vermelha - talvez fosse uma pigmentação de cosméticos, sempre estava vermelha demais - de Harry Styles.
- Olhe para mim, Louis. Eu estou no controle de tudo. Sendo quem quero e fazendo o que sou. - Harry proferiu, sorrindo insano ao reparar o descuido de Louis ao querer defender-se com passos bambos para trás, causando a desproteção de seu lombar esquerdo, facilitando a vitória de Harry, que bastaria uma distensão rápida do braço para nocaute-lo.
Contudo, ao aproximar-se rumando um alvo no corpo de Tomlinson, o mesmo desviou com um giro surpresa, pegando-o desprevenido e atingindo-o certeiro em sua clavícula.
Louis ganhou.
- Essa é manha. Você precisar fazer com que pensem que estão no controle, até demonstra-los o contrário - Príncipe William pronunciou tenro, livrando-se da máscara branca, endireitando sua postura, e, pondo os braços para trás das costas formalmente, enquanto assistia o adversário de cabelos compridos e cacheados removendo a máscara Indigo estampada de flores com sua respiração ofegante e pose curvada.
Os olhos verdes de grama de verão se arregalaram ao notar que o dono das lagoas azuis nem sequer possuía uma respiração desregulada, ou mesmo apresentava sinais de exaustão.
Ele continuava distinto, intocado, como quem terminara de jantar e não quem estivera praticando um esporte estratégico e ardiloso. O que fez parecer uma vitória fácil, sem muita resistência por parte do adversário - embora Harry tenha muita habilidade para esgrima.
Louis aguardava calado. Harry sabia o que ele esperava e seu estômago corroía sua honra.
- Touché. - Harry murmurou a contragosto, tendo que (contra sua vontade) reconhecer a derrota.
Louis concordou com um aceno da cabeça, estendendo a mão para que Styles correspondesse o cumprimento amistoso entre jogadores.
Era parte da etiqueta da elite educada.
Ao unir suas palmas em um aperto condescendente, Harry notou o calor natural que Tomlinson emanava - e não só pela epiderme.
- Foi um bom jogo, vossa alteza. - Tomlinson elogiou, sorrindo com cordialidade.
Contudo, Harry estreitou seus olhos verdes de uma maneira provocativa, aproximando seus rostos sem quebrar o contato visual.
- Eu vou ter a minha revanche, príncipe. - ameaçou, uma covinha maldosa afundando a bochecha. - Espere e verá