Chegamos ao prédio, sua fachada é de mármore escuro, as varandas se destacam como protuberâncias com grades ao redor, alguns andares têm flores na sacada. Não perdi tempo observando tudo aquilo, sumimos dentro da garagem e logo o elevador nos leva para o vigésimo segundo andar.
Seu apartamento é grande o suficiente para agregar uma família também nada pequena. O andar debaixo é de teto baixo para dar espaço suficiente para outro andar acima, a cobertura. Há um quarto grande nos fundos para o rapaz chamado Gregory Brown, um inglês, também moreno, que é seu empregado.
Escritório, banheiros, quartos, uma pequena biblioteca pela qual me apaixonei, uma sala para tocar alguns instrumentos, sendo o violão e o piano os únicos aos quais me ative. Quando fomos para a cozinha, acabei por ficar a sós com o dito Gregory.
— Como é o Matthew em casa? — perguntei para cortar o silêncio leve que havia entre nós dois.
— Uma pessoa como qualquer outra. — Sorria simples. Seus olhos são negros, cobertos pelas lentes de um óculo de armação preta, seus cabelos estão presos em um r**o de cavalo no meio de suas costas. A postura é ereta e esguia, mas não magra demais. — Gostaria de mais chá? — oferecia.
— Não, obrigado.
— Mike, venha. Temos trabalho a fazer — Matthew me chamou da esquina do cômodo.
— Se me der licença, Gregory. — Desci do banquinho no balcão.
Matthew havia trocado de roupa, vestia uma calça leve, pés descalços e camisa folgada com alguns botões descasados; estava à vontade. Senti minha bochecha esquentar um pouco. Seus fios estavam soltos sobre a gola da camiseta branca social, o que dava o perfeito contraste dos tons.
— Greg, em meia hora, por favor, pode trazer dois cappuccinos para a minha sala. — Seguimos em silêncio para seu escritório. — Está realmente confortável com suas roupas? — Um sorriso simples dançou em sua boca quando seus olhos pousaram em meus cabelos.
— Achei que iria se esquecer disso. — Ignorei sua pergunta anterior, partindo logo para a acusação em suas orbes.
— Eu não esqueceria. — Paramos à frente de seu escritório, ele estendeu a mão para mim, os escuros me encarando firmemente, intimidadores e poderosos.
Passei o dedo pelo elástico que prendia meus fios, sentindo-os serem libertados de acordo com que a cascata cobria meus ombros. Suspirei, passando a mão para colocá-los em ordem. Depositei o elástico simples na palma aberta em minha direção.
— Assim está ótimo, te devolverei quando estiver indo para casa. — Enfiou no bolso da frente de sua calça. — Ou não.
Havia algumas papeladas e outras coisas espalhadas sobre a mesa, colocamos tudo de lado para conseguir espaço hábil de trabalho. Organizando o material sobre o tampo de mogno, dividimos os classificadores para que fossem organizados de acordo com as prioridades.
— Sente aqui. — Puxou a minha cadeira para perto. — Ficará melhor.
Traguei o ar após encarar seu rosto mais uma vez. O cheiro fresco do perfume alheio pelo banho tomado recentemente, invadiu meus pulmões unido ao oxigênio. De onde o observo, percebi que seus fios ainda estão úmidos e que seus cílios são grandes; seus lábios são de um tom rosado suave. Matthew é realmente um homem bonito de se admirar.
— Quando dei uma olhada nos papéis, percebi que não precisamos fazer mudanças drásticas. — Me coloquei a falar na intenção de não continuar encarando seu perfil da maneira que estava. — Podemos tirar algumas pautas e editar outras que tenham tópicos não tão importantes.
— Claro, claro. — Sorria de leve. — Vamos fazer do seu jeito.
Tirei a jaqueta depois de um tempo dentro do cômodo, mesmo com o ar-condicionado, o cappuccino de espuma decorada trouxe quentura para dentro de meu corpo. O trabalho progredia de maneira constante, praticamente sem qualquer interrupção de nossas partes.
— Uma pausa. Você é frenético, Mike — ele ria. — Estamos há duas horas e meia de cara nesses papéis. Não está com fome? — Jogou a cabeça por cima do encosto da cadeira, empurrando com a palma das mãos a barra da mesa, fazendo seu assento levantar os dois pés da frente.
— Estou cansado. — Passei os dedos na testa. — Quero dormir. Mas algo para comer cairia muito bem.
— Volto já — falou já se levantando e caminhando para a porta de saída.
Estar em um ambiente fechado com uma pessoa como o Matthew é realmente tentador. Ainda nesse tempo em que estamos trabalhando, nem mesmo uma ou duas vezes identifiquei os motivos pelos quais Akemi o deseja. As borboletas em meus órgãos internos estão realmente agitadas pela nossa proximidade, pelo tom de sua voz e pelo seu cheiro tão refrescante.
Passei a mão por todo o cabelo, tirando-o do rosto, mas isso não adiantou muito, já que apoiei a testa sobre todos aqueles papéis, virei a cabeça para o lado, os fios atrapalhando qualquer visão nítida que eu quisesse ter das coisas ao redor de mim.
Havia muitos livros nas prateleiras do escritório, todos eles sobre Direito, Economia, Administração e coisas parecidas, todos para ajudar na formação da empresa. Apenas uns e outros que eram romances e, aparentemente, Turismo, porém, que certamente não deveriam estar aqui dentro. Vai ver foi em um momento de preguiça para não levá-los de volta ao local de origem.
Olhando para o relógio na parede de frente, percebi que já é além das oito da noite. Se nós não adiantarmos o que temos para fazer, tenho a impressão de que não irei dormir na minha cama hoje.
— Desculpe a demora. — Entrou. — Tem Temaki para o jantar. — Sorria pequeno. Dando a volta ao redor da mesa, puxou a cadeira para a outra extremidade, ficando de frente para mim. Encostando o encosto da cadeira na borda mesa, sentou de pernas abertas. — Comer de frente é melhor. Voltarei para onde estava depois que acabarmos.
— Tudo bem, claro — concordei. — Não temos mais tanto trabalho, a maioria já foi feita. — Juntei algumas coisas para dar espaço aos pratos.
— Esse é o nosso intervalo. Não vamos ficar falando dessas coisas. — Abanava a mão na frente do rosto. Colocamos algumas das papeladas dentro de um classificador e somente deixamos sobre a superfície o que seria usado no momento em seguida à janta. — O que você gosta de fazer?
— Eu não sei, ah... Gosto de ler. Ouvir música também. Assistir a filmes — ri um pouco. — Bem genérico.
— Okay. — Apoiou as mãos sobre a borda da cadeira, descansando seu queixo sobre as costas delas. — E quando namora? Levar ao cinema? Restaurantes?
— Acho que não se recorda de quando eu disse sobre não estar com muitas garotas.
— Não muitas, caro Mike. Apenas uma é suficiente. — Sorria um sorriso simples.
— Ainda assim, não sou uma pessoa experiente. Namorei quando estava com dezenove anos, mas não fomos além do que assistir filmes, almoços e jantares.
— Não foram longe em tempo de relacionamento, é isso que quer dizer?
— Isso também, ficamos juntos por seis meses. — Fiz uma pausa. — Até que fui deixado. A desculpa dela foi que não tomei atitudes — ri nervoso.
— E você realmente não tomou? — Os olhos estavam espertos.
— Ah, eu tomei, sim. Mas sempre fui recusado. — Dei de ombros.
— Quem recusaria você? — Fazia uma expressão exagerada de espanto. — De lá para cá não se envolveu com mais ninguém?
— Não fixamente.
— Você é uma pessoa muito certinha — ria mais uma vez.
Meus lábios se moveram para formular uma resposta, porém, as batidas na porta me fizeram calar. Percebi também que Matthew esperou pela minha fala e suas feições se fecharam ao ouvir os toques na madeira, quebrando completamente sua expectativa.
— Entre. — Seu olhar não desprende dos meus.
— Senhor. — Gregory entrou portando um carrinho com nossas refeições.
Apesar da i********e que aqueles olhos procuravam penetrar, procurei sustentá-los aos meus, sentindo frio nas coxas, assim como um arrepio gostoso na coluna.
— Mais alguma coisa? — o mordomo perguntou, e devo admitir que não havia percebido quando meu prato foi posto em minha frente.
— Não, obrigado. — Finalmente nos desviamos. — Não nos incomode, chamarei se precisar de algo.
— Com suas licenças. — Curvou-se de leve, seguindo porta a fora com o carrinho em sua frente.
— Ele cozinha muito bem. — Bebeu um pouco do vinho dentro da taça. — Vai, experimenta. — Voltou a me observar. Levantando-se da cadeira, girou-a para ficar de modo normal.
— Tem razão, ele cozinha muito bem. — Meus olhos brilhavam, tenho certeza. — Achei que fosse comer da maneira desleixada que estava — comentei, não deixando de sorrir um pouco.
— Bem, era meu desejo, mas o conforto não ajudou muito — ria com graça.
— Mas me fale sobre você — comecei aleatoriamente, ele parou de sorrir para prestar atenção —, e quando namora? — Seu lado esquerdo se ergueu em um riso cínico.
— Digamos que eu não sou uma pessoa que namora, caro Mike. Meus caminhos são outros.
— Outros? Me diria quais? — investiguei.
— Não se apresse, você terá a chance de conhecê-los. — Voltou a prestar atenção em seu prato.
— Você parece bem confiante quanto a isso — apontei.
— Sim, estou. Não n**o.
— Posso saber por quê?
— Não, não pode. — Sorriu de leve. — Mas saiba de uma coisa, com certeza será de seu agrado. — Apontou para mim com o garfo.
O final do jantar foi um pouco silencioso. E ao fim da organização das papeladas, o que eu previa aconteceu. Troquei as minhas roupas por algumas dele e estas foram postas para lavar, resultado que eu usaria as mesmas peças no trabalho, no dia seguinte.
Acompanhei o moreno até de frente para uma porta que foi aberta por ele.
— Este é seu quarto por hoje, espero que se sinta em casa — disse quando me deu passagem para o cômodo.