Prólogo

1108 Palavras
Prólogo O morro nunca esquecia um nome marcado pelo sangue. E o nome de Ícaro Navarro ainda era sussurrado pelos becos como uma maldição antiga. Naquela noite a chuva caía pesada sobre as vielas estreitas enquanto o som dos tiros ecoava distante misturado ao barulho do funk que vinha da quadra no alto da comunidade. O cheiro de pólvora se misturava com terra molhada e medo, porque naquele lugar ninguém precisava ver a guerra começar para saber que ela estava perto. Bastava sentir o clima pesado no ar. Ícaro tinha apenas dezessete anos quando aprendeu que o inferno não existia embaixo da terra. Ele existia dentro das pessoas. Os passos rápidos batiam contra o concreto encharcado enquanto ele corria pelas vielas tentando entender o que estava acontecendo. O peito subia e descia rápido, o coração parecia querer sair pela boca e a única coisa que conseguia ouvir era a própria respiração misturada aos gritos espalhados pelo morro. — Pega ele! A voz veio atrás. Ícaro virou a esquina com violência, escorregando quase no barro, sentindo o gosto metálico do sangue na boca depois de apanhar por minutos que pareceram horas. O rosto ardia por causa do corte profundo acima da sobrancelha e a camisa preta estava completamente manchada. Mas nada doía mais que a traição. Ele ainda conseguia ouvir as palavras do tio ecoando na mente. “Você matou seu pai.” Aquela acusação tinha destruído tudo. Horas antes ele estava dentro da casa do pai tentando entender por que o morro inteiro parecia estranho naquela noite. Os homens armados andavam tensos, os rádios não paravam de chiar e ninguém olhava diretamente nos olhos dele. O desconforto cresceu dentro do peito como um aviso r**m até o momento em que entrou no escritório e encontrou o corpo do homem caído no chão. Sangue. Sangue por toda parte. Os olhos de Ícaro se arregalaram na hora em que viu o pai imóvel atrás da mesa. O homem que durante anos governou aquele morro com punho de ferro agora estava morto com um tiro no peito. E antes mesmo que ele pudesse reagir, os homens invadiram o escritório apontando armas na direção dele. Como se já esperassem por aquilo. Como se tudo tivesse sido planejado. O primeiro soco veio forte na boca do estômago. Depois outro no rosto. E outro. Ícaro caiu no chão sem entender nada enquanto escutava acusações vindas de todos os lados. Traidor. Assassino. Covarde. Ele tentou negar. Tentou explicar. Tentou gritar que nunca teria coragem de matar o próprio pai. Mas ninguém queria ouvir a verdade. Porque naquele lugar a verdade nunca importava. O que importava era quem controlava a narrativa. E naquela noite o controle estava nas mãos do seu tio. Otávio Navarro. O homem que fingia chorar diante do corpo do irmão enquanto destruía a vida do sobrinho sem demonstrar um pingo de culpa. Ícaro nunca esqueceu o olhar dele. Frio. Calculista. Vitorioso. Foi naquele instante que tudo fez sentido. O tio não estava abalado pela morte do irmão. Estava satisfeito. Porque finalmente tinha conseguido o que sempre quis. O poder. Mais tarde apanharam dele até quase perder a consciência. Jogaram seu corpo na parte baixa do morro como se fosse lixo e deram uma ordem simples: Se voltasse, morreria. E foi ali deitado na lama enquanto a chuva lavava o sangue do seu rosto que Ícaro Navarro morreu pela primeira vez. O garoto impulsivo, arrogante e protegido pelo sobrenome deixou de existir naquela madrugada. No lugar dele nasceu outra pessoa. Uma versão fria. Cruel. Perigosa. Antes de fugir ele voltou escondido para a antiga casa do pai. O morro inteiro estava ocupado demais comemorando a “queda do traidor” para perceber sua movimentação silenciosa. Entrou pela passagem secreta que apenas os dois conheciam e encontrou o cofre escondido atrás da parede falsa do escritório. Dinheiro. Muito dinheiro. Pacotes e mais pacotes acumulados durante anos. A fortuna que sustentava impérios. Ícaro encarou tudo em silêncio enquanto o ódio queimava dentro dele. Pegou cada centavo. Cada arma. Cada documento. E desapareceu antes do amanhecer. Sem despedidas. Sem deixar rastros. O mundo aprendeu rapidamente quem era Zuko. O garoto expulso do morro atravessou fronteiras, cresceu no crime e transformou inteligência em fortuna. Onde passava deixava respeito ou destruição. Não existia meio-termo. Aprendeu a negociar, manipular e comandar homens muito mais velhos que ele. Ficou milionário antes dos vinte e cinco anos e construiu um império longe da comunidade que um dia o condenou. Mas nenhuma riqueza foi capaz de apagar o passado. Porque todas as noites antes de dormir ele ainda via o corpo do pai caído no chão. Ainda escutava os gritos. Ainda lembrava da humilhação. E principalmente… Ainda lembrava do olhar do tio. Por isso voltou. Anos depois o morro parou ao ver os carros blindados subindo a comunidade numa madrugada silenciosa. Homens fortemente armados ocupavam cada viela enquanto moradores observavam pelas janelas sem coragem de perguntar nada. O medo caminhava junto com aquela comitiva. E no centro dela estava ele. Ícaro Navarro. Mais conhecido agora como Zuko. O cabelo comprido preso para trás, tatuagens cobrindo os braços, olhar frio e uma cicatriz discreta cortando a sobrancelha que carregava como lembrança da pior noite da sua vida. Ele desceu do carro lentamente observando cada canto do lugar onde nasceu. Nada tinha mudado. Mas ele tinha. Muito. Os homens ao redor aguardavam ordens enquanto o silêncio dominava o ambiente. Ícaro ergueu os olhos para o alto do morro vendo a mansão onde o tio vivia agora ocupando o lugar que um dia pertenceu ao seu pai. Seu maxilar travou. O fogo da vingança queimou forte dentro do peito. Porque naquela guerra ele não tinha voltado apenas para recuperar território.Tinha voltado para destruir todos que arrancaram sua vida. E foi exatamente naquele momento que ela apareceu. Kiara. Parada na varanda de uma das casas próximas observando toda movimentação com os olhos presos nele. O vento bagunçava seus cabelos escuros enquanto a luz fraca da madrugada iluminava seu rosto bonito e perigoso ao mesmo tempo. Ícaro sentiu o mundo desacelerar por um segundo. Ela continuava linda.Mais linda do que nas lembranças que tentou apagar durante anos. Só que agora havia algo diferente. Frieza. Distância. E dor. Os olhos dela encontraram os dele por poucos segundos antes da garota desviar o olhar e entrar rapidamente para dentro da casa. Mas aquele pequeno instante foi suficiente para despertar algo que ele acreditava ter enterrado junto com o passado. Porque Kiara não era apenas uma mulher qualquer. Ela era o erro que ele jamais deveria cometer outra vez. E pior…Ela pertencia ao homem que ele mais odiava naquele morro.
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