Os dias passaram tranquilos para Anne. Estava apaixonada como nunca esteve. Suas noites passava com Henry e de manhã a tarde, cuidava da educação de Erik, que cada vez mais se mostrava inteligente e esforçado. A sexta-feira chegou rapidamente e Anne foi deixada pelo Sr. Jones em frente a confeitaria que marcara com a senhorita Harrison. Ela trajava uma camisa branca, com um terninho e uma saia de cintura alta, que cobriam seus pés. Seus cabelos acobreados estavam amarrados em um coque severo e ela tinha um chapéu de palha sobre a cabeça. Anne teria levado a jovem a sério, se não fosse seu rosto delicado. Ela sabia que a jovem Harrison era adepta das ideias sufragistas. E gostava disso. Talvez, ela devesse aderir também.
As duas se cumprimentaram com um aperto de mão em um beijo no rosto. Anne se sentou em frente a jovem, aguardando o que ela iria dizer.
- Gostaria de um chá, senhorita? Um suco? – ela perguntou, em tom polido.
- Aceito um chá preto – Anne respondeu.
A senhorita Harrison acenou e uma atendente anotou o pedido. Anne notou que a confeitaria era frequentada só por mulheres. E era cheia de cores pasteis, de azul a rosa.
- Bom, senhorita Anne, eu gostaria de parabenizá-la por seu sucesso – ela disse, tirando da bolsa de couro que estava pendurada na cadeira ao lado dela um jornal. Ela colocou sobre a mesa e apontou a notícia – Isso sim é um bom começo. Podemos começar a escrever mais um. Uma continuação para o Barão Enlouquecido. Agora, ele está sozinho e libertou a jovem Srta. Finch. Ela vai se casar com o amor da vida dela e o barão está só. Não acha que ele deveria ter um final diferente?
Anne torceu o nariz. Não queria mais tocar naquele romance. Tudo nele lembrava de Klyne e sua arrogância, sua imponência e seu cinismo. Só de pensar nisso seu estomago se revirou. A senhorita Harrison a fitou com o cenho franzido.
- Não acha que vale a pena? – perguntou.
- Não é isso...é que...bem, eu percebi que o romance que escrevi retrata uma pessoa do meu convívio. Eu não quero ter que lembrar mais dessa pessoa – ela explicou.
- Entendo – a jovem acenou com a cabeça.
O chá foi servido e Anne colocou dois torrões de açúcar no dela. A senhorita Harrison não tocou na xícara dela. A fumaça se levantava do seu chá, espiralando, devido a janela aberta ao lado delas.
- Eu posso compreender que esse personagem tenha mexido com a senhorita. Que tenha relembrado coisas que não queria. Eu entendo perfeitamente isso – ela disse, com a voz dura. Olhava para o lado com certa raiva – Sei como os homens são, quando querem ser cruéis, senhorita. Por isso mesmo peço que reconsidere. Peço que escreva uma sequência. Exponha tudo que ele fez nesse livro. Se quiser dar um final r**m para ele, eu não me oporia.
- Acabou de me dizer que ele deveria ter um final diferente – disse Anne, sem entender – Agora quer que ele sofra?
- E por que não? Eles nos fazem sofrer, precisam sofrer também – ela explicou, como se fosse algo logico e óbvio.
Anne queria rir. A jovem a sua frente tinha uma garra e era movida por raiva. Por despeito de alguém que a aprisionou ou a humilhou.
- Senhorita Harrison, eu escreverei a sequência, mas vamos ver as críticas primeiro – ela disse.
- Sim, é claro. Por enquanto, vendemos muitos exemplares do seu livro – a jovem de cabelos ruivos concordou – E farei o pagamento essa semana. A senhorita vai ser muito reconhecida, eu garanto a você.
- Isso é ótimo – disse Anne, sem se importar mais com o dinheiro. Ela fizera isso por desespero, mas agora, estava tudo bem. Henry e ela estavam indo bem. Quem sabe aceitaria o pedido de casamento – E como está seu pai?
A senhorita Harrison encrespou os lábios.
- Ele está indisposto ainda – ela respondeu, levemente preocupada – Mas, assim que estiver melhor, com certeza vai me tirar o posto.
Ela bufou. E ali estava a jovem impetuosa que vira no escritório do Sr. Harrison.
- Está fazendo isso tudo contra a vontade dele? – Anne perguntou, preocupada.
- Seu livro foi aceito, senhorita. Mas, com muito custo. Ele não acredita que mulheres tenham um cérebro funcionando. Acho que nós somos frágeis demais. Mas, não se preocupe. Ele gostou do faturamento. E é isso que importa.
Anne assentiu. E depois da conversa, as duas se separaram em frente ao prédio onde ficava a editora. Ela sorriu para Anne, calorosamente.
- Eu prometo que irei apoiá-la, senhorita. Tem minha palavra.
Anne se sentiu comovida e viu a jovem subir as escadas e desparecer atrás da porta de vidro. Ela caminhou por um tempo, olhando as lojas e vendo vestidos que nunca poderia pagar na vida. Tinha pouco para viver. Apenas possuía dois vestidos e dois sapatos. Estava acostumada a isso. A sobreviver apenas.
Sentiu seu corpo arrepiar de repente. E não era devido ao frio, mas por ter encontrado o olhar cortante de lorde Klyne, do outro lado da rua. Ele estava elegantemente vestido, com roupas negras e um colete laranja e uma gravata cinza. Sobre a cabeça, uma cartola. Sua bengala inseparável estava em sua mão direita.
Ela sabia que ele tinha um florete, que se desencachava na ponta da bengala. Ele era exímio com uma espada e sabia lutar esgrima. As más línguas falavam que ele havia participado de um duelo, por uma jovem de reputação duvidosa, há dez anos. Ele quase matou seu oponente, para defendê-la. E acabou sendo enganado por ela, quando essa jovem fugiu com outro homem.
Anne baixou a cabeça e puxou o chapéu dela para baixo, andando com rapidez, mas ele atravessou a rua, depois que as carruagens pararam de passar e veio ao encontro dela. Não havia escapatória.
- Nos encontramos de novo – ele disse, com uma voz seca – Eu começo a acreditar que está me seguindo.
Ela o fitou com desdém. Encontrou os olhos dele. Eram frios e negros. Como devia ser sua alma.
- Eu que deveria acusá-lo disso, milorde. O senhor atravessou a rua apenas para zombar de mim – ela retrucou, com raiva.
Ele lhe dirigiu um olhar cortante.
- Já tem meu aviso, senhorita Williams. É melhor sair enquanto tem tempo – ele disse, com a voz lenta e letal – Eu posso fazer da sua vida um inferno. Sabe disso, não sabe?
- E por que não fez? – ela provocou – Vamos, corra contar para Henry o que eu fiz.
- Está tão intima dele assim? – ele perguntou, surpreso. E sua máscara de indiferença caiu – Então, era pior do que eu pensava. Ele a ama?
Ela ficou quieta, tentando não transparecer nada. Se ele não soubesse que se amavam, iria esquecer aquela história.
- Ele a ama, Anne? – repetiu a pergunta.
- Eu não sei. Nunca chegamos a falar sobre sentimentos – ela mentiu e piscou.
- Você mente muito m*l – ele disse, com uma nota de zombaria – Irei ter uma conversa com ele.
Ele saiu pisando duro. Ela o seguiu.
- Espere. Por que de repente decidiu fazer isso, Robert? Por que está tão raivoso? – ela perguntou, tentando alcançá-lo.
- Porque a senhorita é uma aproveitadora, uma pedra no sapato da minha família e vou removê-la agora. Eu nunca deveria ter confiado em você – ele disse, em tom cortante – Você vai tirar a paz dele. Vai enganá-lo, como a última esposa. Como Giovanna fez com...
Ele se calou, irritado e parou. A fitava com raiva agora. E todos ao redor pareciam concentrados na conversa deles. Estavam fazendo um espetáculo de si mesmos.
- Maldição Anne – ele falou em um muxoxo – Você vem comigo agora.
Ele a agarrou pelo cotovelo e os dois chegaram na carruagem que estava parada do outro lado da rua. Ele a fez entrar e demorou alguns segundos para entrar. Fechou a porta com força e socou o teto. A carruagem começou a trepidar na rua.
Ele estava em frente a ela, com um olhar perigoso. Ela engoliu seco.
- Por que está aqui, Anne? Diga-me, é dinheiro que você precisa? Eu posso lhe dar e você vai viver confortavelmente em outro lugar, longe da minha família.
Ela riu, sem humor.
- Você sabe que eu não tive escolha. Você estava lá quando Thomas desapareceu. Você estava lá – ela apontou o dedo para ele, aumentando a voz – quando me fez aquela proposta suja.
- E você deitou comigo de bom grado – ele provocou.
Ela grunhiu. Klyne passou a mão pelos cabelos escuros, com um olhar perdido.
- Você vai arruinar Henry. Sabe disso, não sabe? – ele perguntou, depois de um tempo em silêncio.
- Eu sei – ela sussurrou – Eu disse isso a ele. Mas, precisa acreditar que eu o amo.
- Não precisa ser tão explicita em suas emoções – ele cortou, amargo – Mas, os dois não podem se casar. Isso arruinaria a carreira dele. Ele seria motivo de piada, por ter se casado com a própria governanta. Deus, isso seria um fiasco. E você está se aproveitando dele. Está...
- Não estou. Pare de me acusar – ela negou, agoniada – Por que se tornou tão c***l comigo, Robert? O que mudou?
Ele não a fitou, olhando pela janela. Uma veia saltava do seu pescoço.
- Éramos amigos, Robert. O que mudou? – ela insistiu.
Klyne se virou para ela, com um olhar intenso. O maxilar retesado. Parecia estar um conflito enorme.
- Porque...maldição! – ele praguejou, a fazendo estremecer no assento – É porque eu a amo. E quando você me acusou de querer desmoralizá-la, eu nunca fiquei tão magoado. Eu pensei o pior, pois já fui acusado de tantas coisas. Que não eram verdade. E pensei que você queria nos usar. Por isso estava oferecendo amizade, para comprar meu silêncio, como se eu fosse fazer algo contra você. E eu não iria. Eu queria você, Anne. Mas, iria conquistá-la com o tempo. Eu pensei...eu não sei o que pensei... – ele esfregou a testa com força, com a mão enluvada.
Ele se calou e Anne sentia a respiração acelerada. Não sabia o que fazer com sua revelação.
- Anne – ele falou, depois de um tempo. Ela o fitou, receosa – Você vai adiante com isso, vai ficar na casa de Henry?
- Eu...não sei – ela respondeu, sendo sincera. Nunca poderia deixar o nome de seu amado na lama.
- Sabe que não precisa ser assim...você pode ficar comigo – ele disse, e sua expressão era de dor – Eu posso cuidar de você. Dar o melhor a você.
- Mas, não pode casar comigo – ela disse, sem qualquer emoção – É seu bom nome, não é?
Ele praguejou.
- Eu me casaria. Eu faria qualquer coisa para ter seu amor – ele confessou – Eu falei sobre a reputação de Henry apenas para desencorajá-la. Ele vai sobreviver, assim como eu sobreviveria.
- Então, você fez tudo isso de propósito? Disse tudo isso para me ameaçar? – ela perguntou, dessa vez fervendo de indignação.
Ele não a fitou.
- Eu estou jogando com as cartas que tenho, Anne. Você não jogaria se amasse alguém? – ele perguntou, voltando a olhá-la com intensidade.
- Eu jamais iria manipular a pessoa que amo. Jamais! – ela negou.
Ele assentiu.
- Nisso somos diferentes. Eu faço tudo que estiver ao meu alcance para tê-la comigo. Eu estava desistindo, mas parece que sempre estamos nos encontrando e você sempre acaba voltando em minha mente... – ele se calou, ficando muito quieto.
Ele sentou-se ao lado dela de repente. Ela não estava preparada para o que viria. Ele tomou sua nuca e a beijou seus lábios, com intensidade e deu passagem com sua língua, entreabrindo a boca dela. Por um segundo, ela retribui. Contudo, rapidamente o empurrou pelo ombro, com um olhar indignado.
- Não se atreva a fazer isso de novo – ela disse, entredentes.
- Eu me atrevo, Anne – ele disse, com um olhar que beirava a loucura – Eu me atrevo, pois quero ter sua atenção. É muito pior ser esquecido por você. E se eu tiver sua raiva, para mim, tudo bem. Pelo menos, você sente algo por mim. Você retribuiu meu beijo e isso é sinal de que me deseja, não é?
Ele segurou a nuca dela e voltou a beijá-la. Anne se afastou, indo para o outro assento. Respirava profundamente. Seu coração martelava em seu peito e sua boca formigava. Ela não retribuirá o beijo dessa vez. Mas, estava confusa e não iria pensar sobre isso naquele momento.
- Pare a carruagem agora – ela exigiu.
- Não – ele negou, com um olhar predatório.
- Vai forçar-me aqui mesmo? – ela zombou – Pois, eu sei alguns golpes que vai fazê-lo gritar.
Isso o fez despertar, passando a mão em seus cabelos.
- Eu...não, por Deus – ele disse com a voz baixa, parecendo mortificado com próprio comportamento – Eu sinto muito.
- Deveria sentir muito mesmo – ela cuspiu – Você tem noção do que acaba de fazer? Eu me senti presa, sufocada...e eu não consenti com isso – Contudo, ela ainda sentia algo estranho em sua mente. Rondando, como se ele tivesse poder sobre ela. Não poderia negar que ele era atraente. Tinha medo até de pensar nisso.
- Eu sinto muito – ele disse de novo – Eu não tinha a intenção de fazer isso. Mas, eu não consigo pensar quando estou com você, Anne...eu não...
- Só me deixe sair, Robert. Eu não quero conversar mais sobre isso – ela pediu.
Ele assentiu e a carruagem parou. Ela estava bem próxima da casa de Henry e desceu da carruagem sem se despedir. Sentia seu corpo tremulo e estranho. Não gostava de Klyne. Analisou seus sentimentos e sentia uma atração física, mas era só isso. E sentia pena. Pena do homem que ele era. Do que ele estava disposto a fazer para ter o que queria. E isso a mortificou. Ela somente esperava que ele não a atrapalhasse agora. Ela estava feliz com Henry. E queria ter uma vida com ele.
O problema era que teria que contar a Henry antes o que ela fez com Klyne, dois anos atrás. Talvez, ele a perdoasse. Por que não perdoaria?