Anne passou os dias esquivando-se de Henry. Ela não conseguia mais pensar nele, sendo tão distante. Não era mais Collins, mas Henry. E gostava do nome dele. Adorava sua forma de rir e conversar com seus criados. E nas poucas vezes que esteve diante dele, ele a tratou com cordialidade de sempre, sem mencionar o que houve na biblioteca. Ele parecia ansioso para dizer algo, mas ela se esquivava quase sempre, colocando Erik entre eles.
Erik a deixava orgulhosa e distraída. O que era bom. O menino estava conseguindo dedilhar as escalas no piano, com perfeição. Ele parecia avido em aprender a sonata que ela havia tocado na primeira vez. Ela tentou ensiná-lo, mas ele não tinha muito paciência. Ficava emburrado e resmungava, tocando com força as teclas.
- Calminha, mocinho – ela pediu, aquela tarde.
Fazia uma semana que estavam treinando. E uma semana que ele aprendia a comer na mesa. Parecia promissor, mas ele sempre derrubava os talheres. As vezes era sem querer e as vezes para chamar sua atenção.
- Não deve esmurrar a tecla, Erik. Isso pode estragar o piano – ela explicou, com calma.
Ele bufou.
- Difícil. Sou burro – ele disse, com firmeza – Burro...mui...to...
- Não diga isso – ela reprendeu – Você não é. Está apenas começando Erik. Vai conseguir ser um pianista magnífico.
Ele a fitou com adoração.
- Você...acha? – ele perguntou, receoso.
- Sim, sim. Eu não sou a melhor professora. Sei muito sobre o piano, mas quando chegar o momento, vou pedir para que Henry...quero dizer o Sr. Collins contrate um professor para você – ela prometeu.
- Não – ele negou, com a cabeça, com olhar assustado – Só...você...só...Henry...
- Querido, precisa conversar com outras pessoas além de mim e seu tutor – ela disse, com pesar.
Ele negou veemente. Parecia resoluto em se afastar das pessoas. Se levantou com rapidez e saiu correndo, esbarrando em Henry na porta. Ele parecia exausto, carregando sua maleta. Anne se levantou, ajeitando as saias e notou que já estava escuro, pela janela.
- Senhor Collins – ela saudou.
- Boa noite, senhorita – ele devolveu, com um olhar tenso – O que houve com Erik?
Anne torceu as mãos, se sentindo culpada. Parecia que ela fora a causa da irritação do garoto, devido a ter dito que ele teria que interagir com outras pessoas. Ele parecia realmente assustado com essa possibilidade.
- Ele ficou chateado devido ao fato de eu ter dito que ele deveria interagir com outras pessoas – ela respondeu, com os olhos baixos – Eu pensei que ele iria gostar disso. Que iria querer ter amigos...
- Mas, não parece que ele gostou – Henry completou.
Ela assentiu. Ele entrou na sala, deixando a maleta sobre o sofá. Parecia cansado e suas vestes estavam amarrotadas. Ele passou a mão pelo rosto, com a barba por fazer.
- Eu também acredito que ele precisa interagir. Ele m*l fala – ele comentou, olhando para ela com compreensão – Acredito que se ele interagir com crianças da idade dele, talvez ele possa se comunicar melhor e poderemos então de fato entender o que aconteceu com ele.
Anne assentiu. Ela queria saber o que de fato havia acontecido com ele e saber o motivo de ele parecia tão arisco e medroso. O seu rosto já mostrava maus tratos. A queimadura era f**a e deformava seu rosto infantil. Esse fato já mostrava que ele tinha receio de se relacionar com outras pessoas. Seu coração se apertou, somente de imaginar que horrores aquela criança deve ter passado, até chegar nas mãos de Henry.
- É o que desejo para ele, senhor. Não quero vê-lo amuado. Ele sempre fica sentado em um canto, pensativo. Seu olhar é triste, por vezes – ela confidenciou – Ele não gosta que o toquem e para cortar seus cabelos foi uma tarefa difícil. E ele não permitiu que outra pessoa fizesse isso, somente eu, mas o senhor deve ver que o resultado é péssimo.
Henry escondeu o sorriso.
- Está peculiar, eu diria – ele disse, sentando-se no sofá – Mas, iremos com calma com ele. Erik quando chegou nessa casa era um trapo humano e apenas berrava. Ficava escondido em algum canto e as vezes o encontrava do lado de fora, agachado, encolhido. Se chegávamos perto, ele saia correndo ou berrava. Então, pode ver que ele progrediu muito e agora muito mais por sua atenção tão devotada a ele.
O peito de Anne se aqueceu pelo elogio de Henry.
- Estou tentando meu melhor, senhor – ela disse – Gostaria que eu pedisse para a Sra. Hackney servir um chá e preparar um banho para o senhor?
- Não é necessário, senhorita. Na verdade, eu gostaria de ouvi-la tocar. Gosto de escutá-la tocar o piano – Sua voz era suave e ele a fitava com um olhar diferente, que ela não quis interpretar.
Ela se sentou em frente ao piano e começou a tocar a composição de Beethoven, Für Elise. Era uma das que mais gostava de executar. Para Elisa, ela pensou. Ficava pensando o que o compositor daquela música pensava quando escreveu a partitura. E se era verdade que ele era louco e excêntrico. Se fosse, ele mesmo assim era um gênio e ela apreciava demais suas composições. Quando terminou, Henry a fitava admirado.
- Nunca fui bom com música – ele confidenciou – Sempre fui um m*l aluno nesse quesito.
Ele se levantou e se aproximou dela, sentando-se ao seu lado. Tocou uma tecla e fez uma careta. Anne não conseguia respirar na presença dele. Parecia que ele estava em toda parte. O calor que ele irradiava a tocava, sem nem ao menos encostar nela. Henry a fitou com intensidade e parecia que seus olhos irradiavam desejo.
- Nunca vi olhos tão bonitos – ele sussurrou – Parece o céu limpo em junho. Tão azul.
Ela engoliu seco, sem saber o que dizer. Os olhos deles eram quase cinza e frios, devido a luminosidade da vela. Mas, mesmo frios, irradiavam calor. E confiança. Ele levantou a mão, tocando seu rosto, a fazendo suspirar. Ela não queria acreditar que estava caindo mais uma vez na armadilha da paixão, mas ali estava ela, rendida ao toque suave dele. Desejava muito se deixar levar por aquela caricia sutil. Ele não parecia fazer qualquer exigência. E isso era bom. Parecia apenas fascinado por ela, mas a permitindo negar seu toque, se desejasse. O som de passos a fez sair do transe e ela se levantou, abruptamente. Ele parecia tão confuso quanto ela. Anne desviou o olhar, envergonhada e olhou para porta, mas não havia ninguém.
- Com sua licença, senhor, vou procurar Erik – ela disse, fazendo uma reverência e saindo do cômodo.
- Anne...- ela o escutou falar, mas ignorou.
Saiu apressada, sem olhar para trás. Sentia o sangue correr rápido em suas veias. Seu corpo inteiro estava tremulo. Como permitiu que ele a tocasse daquela maneira? Era imoral e errado. Ele era seu empregador. Ela não devia ter deixado ele se aproximar. Klyne já tinha feito isso e até mesmo o Sr. Armstrong. Ela fugiu, com repulsa. Sabia da natureza dos homens. Todos eram fracos, como sua mãe havia dito tantas vezes. Eles se deixam levar pelos instintos quando estão perto de uma mulher. Somente se controlam perto de damas. Se uma mulher se mostra fácil, eles aproveitam a situação e tiram o máximo de proveito possível.
Ela se horrorizou com aquele pensamento. Infelizmente, ela havia comprovado a teoria de sua mãe quando cruzou o caminho de Klyne, Thomas e Sr. Armstrong. Mas, era difícil conciliar aquela imagem negativa com Henry.
Ela não conseguia pensar nele mais como Collins. Não, não mesmo. E ele parecia gentil e amável. Contudo, sua mãe sempre disse que os homens as vezes se escondem em uma aparência plácida, benéfica, como um lobo em pele de cordeiro. Será que Henry era assim? Um aproveitador? Ela engoliu seco, tentando não pensar nisso e o quanto desejou o toque dele sobre sua pele. Nunca fora religiosa e nem ao menos se penitenciou por seus pensamentos impuros. Por isso, era muito mais difícil refrear suas paixões.
- Anne, você precisa observar seus pensamentos. Sempre, a todo momento. Somos tentados diariamente. Se não for uma moça pura e honesta, não terá um bom marido e sua vida futura estará condenada – sua mãe a orientava – Reze sempre, todas as noites e peça desculpas a Deus por ter feito algo errado. Seja uma boa moça, querida. Eu sei que você ira conseguir ser.
Mas, no final, ela não era uma moça boa. Estava perdida para sempre. Uma ovelha perdida e condenada. Uma mercadoria estragada, que não poderia ser devolvida. Ela suspirou, frustrada. Não acreditava naquelas bobagens, mas era assim que a sociedade agia com as mulheres. Que chance ela teria? A única coisa que ela sabia de fato era que os homens nunca seriam confiáveis. Nem os maridos. Então, ela já estava fadada a uma vida de tormento e tristeza. Melhor seguir sozinha, trabalhando e sendo útil, do que servir a um homem.
Seus pensamentos foram interrompidos, quando escutou a voz da senhorita Nancy. Ela estava na cozinha, quando Anne passou próximo ao cômodo.
- Querido, me dê isso agora – ela disse, com a voz nervosa.
Ela escutou um não gaguejado. Era Erik. Anne empurrou a porta e viu o menino segurando uma faca de cortar pão. Ela engoliu seco. Ele apenas segurava, com a lâmina para baixo e se esquivava de Nancy, atrás da mesa.
- Erik – Anne chamou, com a voz autoritária – Solte essa faca, antes que machuque alguém.
Havia mais alguém no cômodo. A Sra. Campbell tentava cercar o menino do outro lado da cozinha.
- Nã..o – ele disse, com um olhar assustado.
- Erik, você está seguro, querido – Anne disse, com a voz calma, sem desviar o olhar dele. Se aproximou dele, lentamente, estendendo a mão – Vamos, me dê isso querido. Pode s*******r.
Ela puxou a faca da mão dele, sem dificuldade e ele piscou algumas vezes. Saiu em disparado, para fora da cozinha. Parecia que a tensão no ar dissipou. Anne suspirou, ao mesmo tempo que as outras duas mulheres na cozinha.
- Ele é um menino muito travesso – comentou a Sra. Campbell, irritada – Não podemos deixar essa cozinha aberta.
Anne assentiu e saiu do cômodo, indo atrás de Erik. Procurou nos cômodos, evitando a sala de estar, onde havia deixado Henry e o encontrou do lado de fora da casa, no jardim. Ela estava com lamparina e com a luminosidade fraca, teve sorte de encontrá-lo encolhido, perto da árvore. Fazia dias que ele não fazia isso. Ela se aproximou e foi até ele, ajoelhando-se na grama.
- Erik, não fique assim – ela pediu, tocando-o, mas ele se esquivou – Não tenha medo de mim, querido. Por favor.
- Ho...mem...mal...me levar...não quero – ele sacudiu a cabeça. Seu corpo inteiro tremia.
- Ei, querido, ninguém vai levá-lo – ela disse, tentando garantir a ele com seu tom de voz que tudo ficaria bem – Eu não vou deixar. O Sr. Collins também não. Está seguro.
Ela o abraçou pelo ombro, beijando o topo da cabeça dele. O menino se voltou para ela, com um olhar agoniado.
- Não...deixar? – ele perguntou, parecendo receoso e com uma expressão de dor – Ho...mem...mal...fez...isso...- ele apontou para o rosto – Queimou...dói...
Ele mordeu os lábios, deixando as lágrimas descerem por suas bochechas. Seu rosto infantil demonstrava a dor e sofrimento de uma pessoa adulta. Anne segurou as lágrimas, respirando fundo.
- Ninguém vai maltratá-lo, querido. Confie em mim. Agora, vamos para dentro – ela pediu, se levantando e esticando a mão para Erik.
Ele segurou a mão dela e os dois entraram. No hall encontraram Henry, que os olhou apreensivo. Parecia querer se certificar que eles estavam inteiros. Seu olhar era preocupado, como se realmente eles fossem importantes para ele. E Anne se comoveu com isso.
- Achei que algo grave tinha acontecido – ele murmurou. Tossiu, ficando vermelho – Que bom que está bem.
- Sim, senhor. Erik só está assustado – ela disse – Vou colocá-lo na cama agora.
- Sim, sim – ele disse, assentindo, parecendo perdido em pensamentos.
Ela queria perguntar se estava tudo bem, mas tinha medo de ele tocar no assunto do que aconteceu na sala de estar. Não, ela iria ficar quieta e fingir que nada aconteceu. Levou o menino para o andar de cima, para o sótão e começou a se questionar se aquele lugar era o melhor cômodo para ele. A casa tinha pelo menos oito quartos. Havia um para o pequeno Erik. E ela iria providenciar isso. Entrou no quarto dele, pensando nas mudanças que iria empreender e pediu ajuda a Sra. Hackney para trocar suas roupas e dar o jantar. Dessa vez ele estava quieto e obedeceu.
Depois, o colocou na cama e havia trazido um livro de contos infantis. Iria ler algo para ele dormir. Era o que sua mãe fazia para ela e suas irmãs. Erik estava quieto e não prestou a atenção nela. Segurava com força o cobertor, como se assim pudesse se proteger. Anne puxou a cadeira para o lado da cama de solteiro do menino e abriu o livro.
- A pequena sereia, de Hans Christian Andersen– ela leu o título para ele, mas nem isso o despertou – Sabia que a história é sobre uma jovem sereia que queria andar sobre terra firme, para se casar com um príncipe?
Ele se remexeu e fez uma careta.
- É uma história muito interessante, Erik. Mas, eu também tenho essa aqui. Sobre um homem que sofreu um naufrágio. E então, ele se depara com um reino de pessoas minúsculas. Imagine só, Erik. Que mundo diferente.
Isso parecia interessá-lo. Anne puxou o livro do chão e começou a ler e fazer as vozes, enquanto Erik a interrompia, de vez em quando, para questionar sobre algumas palavras e coisas que não compreendia. Sua fala era mais calma, mesmo ele não sabendo falar corretamente. Anne se empenharia em fazê-lo falar com segurança. E precisaria ter sua confiança para isso. Estava ansiosa para ver as mudanças que poderiam acontecer. Quando ele dormiu, ela se levantou e beijou sua testa. Não era seu filho, mas era especial, como se fosse filho dela. Ela sentiu o peito apertar e sufocou a dor. Não iria pensar no seu filho perdido. Não poderia chorar mais. Seria pior se ele tivesse sobrevivido. Em um mundo como aquele, onde ela não tinha marido e segurança, ele sofreria junto com ela. E ela com certeza não teria um local seguro para trabalhar e nenhum patrão iria permitir que ele fosse criado junto a ela. Ela teria que colocá-lo em um orfanato ou padecer com ele nas ruas mendigando.
Ela se assustou, ao se deparar com Henry na porta. Segurou os livros com força contra o peito e quase derrubou o lampião.
- Peço seu perdão – ele disse – Eu fiquei para ver se estava tudo bem com Erik, mas não resisti em ouvi-la contar histórias. Sua voz é reconfortante.
Ela ficou vermelha e tentou não se afetar com o comentário dele. Não havia nenhuma insinuação com o comentário, apenas admiração. Mas, não mudava nada. Ela não deveria se apegar a ele. E não deveria confiar nele.
- Obrigada, senhor – ela disse, seca – Se me der licença...
Ela tentou passar por ele. Queria sair de perto da sua presença e não ter aqueles olhos inquietantes sobre ela. Ele a segurou, pelo cotovelo.
- Anne, me perdoe – ele sussurrou, transparecendo culpa em sua voz – Eu me senti péssimo pelo que fiz hoje. E pelo que fiz no jardim também. Acho que o que quero dizer é que meu comportamento com a senhorita tem sido de longe exemplar...eu...
Ele parecia tenso e com a voz tremula.
- O senhor está desculpado – ela interrompeu, tentando encerrar a conversa que a deixava desconfortável – Não há necessidade de se retratar. Só não deve mais se repetir...essa...essa...- ela engoliu seco, sem saber o que dizer. Porque não sabia de fato o que estava acontecendo entre eles. E não queria dar nomes a aquilo. Aquela coisa estranha que fazia seu coração palpitar e sua boca ficar seca. E seu corpo inteiro queimar como uma lenha em uma lareira.
Um sorriso tímido se formou nos lábios dele. E ela era capaz de golpeá-lo com o livro pela insolência dele. Ele deveria estar sério e arrependido. Mas, como aquele minúsculo sorriso, se comprovou que não estava. E que Deus a ajudasse, pois ela estava perdendo o juízo se ficasse mais perto dele. E mais intima. Nada de intimidades, ela disse para si mesma. Não seria bom. Mas, ela deixou que ele ainda a segurasse pelo cotovelo. E não conseguia se mover.
- Realmente não devemos, apesar de eu querer muito – ele disse, com a voz terna – Eu nem deveria, mas eu quero e muito.
Ela sentiu os pelos da nuca se arrepiarem. Ele disse o que ela tinha escutado, que queria aquilo? Mas, o que exatamente? Era melhor não perguntar.
- Acho melhor o senhor se conter e parar de pensar nessas...nessas coisas – ela disse, com a voz afetada, se afastando dele – Pode me deixar passar.
- Não – ele sussurrou. E ela precisou prestar a atenção para entender o que ele disse.
- Não? Como assim não? – ela perguntou, indignada – Se precisar de algo mais, é só dizer. Se não, eu gostaria de ser dispensada.
- A senhorita é insolente – ele disse, mas sem vestígio de censura. Estava sendo irônico, é claro.
- Er...me desculpe, senhor – ela se viu dizendo, mas não sentia muito. Se sentia indignada.
- Eu acho que posso desculpá-la, se me deixar conversar com você – ele disse, com a voz intensa e parecia se arrepender – Quero dizer...eu...precisamos falar sobre isso...sobre nós...
Ela engoliu seco. Não poderiam falar sobre eles. Não, não deveriam.
- Senhor, eu acho melhor esquecermos isso e deixar tudo como está – ela disse, com a voz fraca, mesmo tentando demonstrar ser forte.
- É...sim...claro – ele balbuciou e se afastou da porta.
Anne não ficou para discutir mais nada, nem para dizer um boa noite. Apenas saiu correndo, descendo as escadas e indo direto para seu quarto. Ela se trancou, sentindo o coração galopar. Não, não queria pensar nisso. Nem deveria. Mas, só pensa no olhar intenso dele e seu sorriso. Aquilo não acabaria bem para ela. Não mesmo.