O herói

2226 Palavras
Joca Deixo a gatinha lá e vou trabalhar. Já perdi bastante tempo enrolando a conversa. Mas antes preciso acertar com o V13 as peças. Nem falei com ele ainda e dei certeza que o cara aceitava. Balanço a cabeça rindo, o que um homem não faz por um r**o de saia, hein!? - V13! - Grito do lado de fora da casa dele. V13 era um dos meus de confiança. Ele é um pouco mais velho do que eu, herdou do pai, as várias casinhas, e usava como fonte renda, além dos serviços que fazia pela favela. - Qual foi? - Ele grita pela janela. - Chega aí! - Vagner desse as escadinhas e batemos as mãos, em um cumprimento comum, mas que denotava nossa amizade. - Seguinte, chegou uma gata aí, e ela tá precisando de peça pra alugar. - Fiquei sabendo... - Dou uma risada. - Mas cara, que povo fofoqueiro daqui, hein? - Mas também, disseram que é uma gatinha, novinha, vinda de um convento ainda. - V13 passa a mão nos lábios em sinal de delícia, e meu sangue ferve. É melhor deixar claro, que eu é que vou pegar ela, e ninguém mais. - Primeiro, era um lar, tipo orfanato. Segundo, ela já tem dono. - Vagner cai na risada e rio junto. - Então é beldade mesmo? - Cara... - Passo as mãos no rosto lembrando o abraço que ela me deu. - Gostosa no máximo, sabe aquele corpinho todo no lugar, durinho. - Mordo o lábio só de imaginar. - Mas o que mais me fascinou nela, foram os olhos. Pensa, meu, é mel... - Hihiiii... - Vagner debocha e acompanho a zoeira. - Ela é a nova senhora desse morro, quem se aproximar, ó... - Faço uma arminha com a mão, e Vagner ergue as sobrancelhas. - Tá, e porque já não leva pro teu barraco? - Ah, não vamos com sede ao pote, meu amigo, eu gosto da conquista... - Ah tá, entendi. Vou espalhar pro pessoal não se iludir, que tu quer pegar ela. - Tá me arruma o melhor lugar que tu tiver aí, ela vai pedir fiado, mas vou deixar pago, daí depois ela acerta comigo. - Pisco pra ele e ele entende, como eu quero que ela me pague. - Tá livre a ali de cima, três peças. Uma sala cozinha média conjugada, um quarto razoável e banheiro. - Fechou! Mais tarde vou lá buscar ela e trago pra cá. - Feito! Ah olha só, o baile ta certo amanhã com os pagodeiros né? - Claro, até convidei a gatinha pro meu camarote. - Dou uma risada, e nos despedimos. Passo nos barracos de embalos e distribuições, confiro algumas cargas, libero outras, acerto com o contador mais umas coisas, preencho umas planilhas, e quando me dou conta já são seis da tarde. Nem tomei um cafézinho. Saio de casa e passo no bar do tio juca. O Juca quase fundou esse morro com o meu pai, mas ele não quis se envolver nos trabalhos mais pesados e sujos. Montou o seu barzinho, bem sortido, com comidas, bebidas e fazia uns lanches ainda. Era tipo o severino do morro. Abria as 6 horas da manhã, já entregando um café bem preto e forte pro pessoal da manhã pegar no trampo, meio dia entregava as marmita, e a noite só encomendas de lanches. Era um bom homem, mantinha um caderninho de fiado e mais da metade do morro devia pra ele. - E aí Jucão? - Oi Joca. - O senhor me cumprimenta simpático. - O que vai ser hoje? - Bah, aquele energético, pra dar uma animada! Esse dia quente pede um gelo por dentro né?! - Com certeza! - Pego meu energético Monster clássico, porque não gosto dessas variações que fazem, uma nojeira. Abro a lata e desço a pé até a casa da dona Ivone. - Ôh Joca... - Ouço me chamarem, viro e vejo Salsicha vindo até mim. - E aí salsa?! - Cumprimento-o e ele vem cochichar comigo e já sei que é sobre a mina nova, porque esse morro tá assim agora, movido a fofoca. - Seguinte, tu soube da Vih, né? - Vih? - Pergunto de sobrancelhas arqueadas. Mas que i********e é essa que esse moleque já tem com a minha mina? - A Vitória, ela chegou ontem, tu já falou com ela né? - Sim, já falei, consegui descolar umas peças com o Vagner, adiantei lá até ela ter uma grana pra pagar. - Ah, que bom... - Salsicha respira aliviado. - Qual foi a tua com ela? Tá afim? - Vai saber, achava que ele era viado, mas vai que não, né? - Não... é que, eu fiquei com muita dó da menina. - Ah, menos m*l, não vou precisar dar uma dura nele. - Pois é, falei com ela mais cedo e ela me contou meio por cima o terror que foi a noite passada pra ela. - Cara, ela achou que ia ser sequestrada, estüprada, vendida, e que morreria com drogas na barriga na fronteira... - Vejo a cara de espanto de Salsicha, e começo a rir. - Ela é bem doidinha... - Não cara! - Salsicha fala sério. - Ela é inocente demais, e fala o que vem na cabeça. Isso é perigoso aqui. - Ela vai aprender a se cuidar. - Digo sem dar importância. - Joca, cuida dela, principalmente no baile amanhã. - Mas tu também? A Juliana e tu me tirando pra babá agora? - Os guris tão combinado de drogar ela, ela não vai saber se defender. - Pode deixar, eu já convidei ela pra ir pro camarote comigo. - Salsicha ergue as sobrancelhas, e vejo um sorriso se insinuar em sua boca. - Dá o fora, salsa parrilha! - Dou um risada alta, e viro as costas, seguindo o meu caminho, e ele fica lá rindo feito um i****a. Chego na casa da dona Ivone e bato palmas. Não sei porque essa mulher vive com a casa fechada, parece que tem medo de vento! Logo ela aparece e me manda entrar. - Cadê a garota? - Pergunto assim que entro, tô ansioso para começar meu projeto conquista. - Se eu te contar tu não acredita? - Sinto meu peito acelerar, será que a menina tinha ido embora? Era só o que me faltava! - Diz logo mulher, que eu preciso resolver mais umas coisas hoje, ainda. - Ela torce o nariz, porque sabe dos meus trabalhos, e obviamente não gosta. Mas se não fosse o tráfico, girando o capital do morro, nós estaríamos passando fome, como já houve tempos. - Ela está ali na Lídia! - Enrugo o nariz. - Que ela já tá fazendo na casa da mãe da nojenta? - Para de chamar a Patrícia assim, sabe que a mãe dela chora! - A Lídia que não criou bem a filha, fica se esfregando em qualquer louco que para na frente, só por um pouco de pó. - Ta Joca, cala boca e ouve. - Franzo o cenho, essa Ivone tá ficando caduca, só pode, esqueceu que eu sou o dono do morro? Só dou um desconto porque pode ser coisa da idade, e ela me conhece desde criança, se não já metia o cano nas fuça dela! - A Lídia passou aí, porque parece que o morro ta vindo a baixo por causa da nova moradora. - Pois tá faltando BBB na vida dessa gente. - Em fevereiro isso se resolve. - Ela ri e a acompanho. - Tá e aí? - Bom, ela veio ver a garota e ofereceu um dia de serviço como faxineira. - Cerro os punhos, meu sangue voando nas veias, perto de sair pelos olhos. Vitória era tão linda, que serviria para ser modelo, artista, psicóloga, professora... mas não faxineira. - Não acredito que Lídia colocou a menina pra fazer faxina! - A garota não tem nada Joca, o que ela vai comer? Ela precisa conseguir uma grana, até achar um emprego fixo. - Psss... - Balanço a cabeça. - As coisas dela estão aí ainda? - Sim. - Me dá que vou passar na Lídia pegar ela então. - Dona Ivone me entrega a mochila da garota e sigo para uns seis barracos acima, onde Lídia mora com a filha. Ela foi abandonada pelo marido, quando a filha estava com uns 11 anos, desde então fez o que pode. Mas Patrícia se tornara uma insuportável. Era óbvio que eles tinham várias garotas no pé, que davam o r**o em troca de grana, ou pó, ou até de graça mesmo, só por uma bebida no dia do baile. Mas Patrícia, se esfregava, tirava a roupa e dava pra cinco ao mesmo tempo. Era uma depravada, só de olhar para ela, já me anojava. - Lídia! - Assobio, e logo aparece a Patrícia na janela. Argh! - Chama a Vitória! - Grito ela acena e concorda, logo voltando para dentro, até estranho, sempre que me vê joga beijo, e pisca, passa a língua nos lábios, ou chupa os dedos. Não gosto dela, bruuuf! Lídia desce as escadas do barraquinho, com Vitória e uma sacola de coisas. Vitória está vermelha e parece ter chorado. Mas pelo que os guris falaram ela já chegou chorando... Muito sensível, ia me incomodar com ela ainda. mas fazer o que? Depois dos bololô, eu vejo o que faço com ela. - Vamos Vitória? Consegui o barraco que te falei. Peguei sua mochila já. - Vamos, Joca. - Ela me sorri, e eu só falto suspirar. Que merda hein! - Muito obrigada. - Pego a sacola da mão dela e está pesada. - O que tem aqui, Lídia? - Pergunto antes de sair. Tava bem pesada a sacola. - Comida, pra ela passar uns dias, até conseguir mais algum serviço. - Não esquece, se puder me indicar, eu faço todo tipo de limpeza. - Vitória diz, e vejo Lídia concordar. Logo ela se põe a meu lado e começamos a andar. - Fez faxina lá na Lídia hoje? - Puxo assunto e a bonitinha do meu lado, sorri e assente. - Na verdade eu ajudei elas na faxina. Nós conversamos um pouco, a Pati me disse que ia ver se tinha vaga no super mercado que ela trabalha, e daí dividimos os serviços. - Vitória parecia feliz com as novas amizades, mas Pati? - Pati? Já tá íntima? - Dou uma risada de lado e ela ri, deixando os olhos pequenos e com pequenas ruguinhas nos cantos. - Ela que pediu para eu chamar ela assim, ela é muito querida. - Franzo o cenho, o que será que deu na Patrícia? Tratava todas as mulheres como concorrentes! - Que bom que ela foi legal com você. Chegamos! - Aponto para o amontoado de casinhas a frente e Vitória se vira para mim. - Você pode entrar comigo? Tenho vergonha de pedir fiado. - Não consigo não sorrir para aquela carinha de anjinho. - Eu paguei três meses para você. - O quê? Por que fez isso? - Porque eu quis, outra hora, quando você puder, me paga! - Digo com um sorriso safado no rosto, mas ele nem parece perceber, pois seus olhos marejam. Êh laiá, lá vai a garota chorar de novo. - Muito obrigado, vocês estão sendo uns anjos na minha vida. - Deixa disso! - Fico até sem jeito, posso ser tudo, menos um anjo, e nem quero que ela pense assim. - V13! - Chamo e logo ele põe a cara na janela, e vejo seus olhos verdes escurecerem. Cachorro! Botou o olho na minha gata! Ele vai ver só! - E aí Joca, olá, senhorita? - Fingidoooo! Quase grito, mas deixo Vitória responder. - Eu sou a Vitória. - Ela sorri, aquele sorriso grande, em que as covinhas aparecem, e pelo amor de Deus, alguém tira ela da minha frente antes que eu comece a latir e uivar por ela, por favor?! - Seja bem vinda, ao morro do Joca, Vih. - Meus olhos encontram os brilhantes e debochados do V13. Vou matar ele! - Obrigada e o seu nome como é? - Vagner, mas pode me chamar de V13, como todo mundo me chama. - Ah... - Vitória me olha. - Tá bom, V13. V13 nos leva até o barraquinho que reservou pra ela. É razoável, já vem mobiliado, e que eu saiba não chove dentro. - Essas telhas tão boa? - Pergunto olhando para cima, vendo os fios, passando por entre as vigas e as telhas. - Tudo top, topíssimo. Troquei esse inverno. - Ah, beleza, sabe como são as chuvas de verão! - Sim, tá tudo nos trinque. - Dou uma risada, V13 e essas gírias do tempo do guaraná de rolha. - Certo então Vitória. Bem vinda ao seu novo lar. - Ela assente ainda parecendo deslocada e envergonhada. - Amanhã passo as 20 horas, para te pegar pro baile, pode ser? - Vejo-a engolir seco, e seu lábio inferior treme ligeiramente, e por momento acho que ela vai negar, mas por fim ela abre um sorriso tímido, sem mostrar os dentes. - Claro, pode ser. - Pisco pra ela, e aceno pro V13 descer comigo. Vou relembrar ele de quem que ela é, e dizer para não ficar em cima. Que eu vou ser o herói dela!
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