Capítulo 24
Ponto de Vista de Victor Tolyatti
O contraste era quase poético. Há menos de uma hora, eu estava deitado em lençóis de seda, respirando o perfume doce e a inocência de Angélica. Agora, o ar que enchia meus pulmões era denso, sufocante, carregado com o cheiro salgado do mar misturado com óleo queimado, ferrugem e o inconfundível odor metálico de sangue.
Ainda era madrugada quando o carro parou diante do galpão isolado. O prédio antigo de metal enferrujado, abandonado há anos perto da região do porto, era o cenário perfeito. Era um lugar onde gritos se perdiam no som das ondas batendo no cais. Onde homens entravam, mas raramente saíam inteiros.
O motorista desligou o motor e abriu a porta para mim em silêncio absoluto.
Desci lentamente, abotoando o paletó do meu terno sob medida, sentindo o vento gelado do oceano bater contra meu rosto.
— Senhor — disse o motorista, a voz carregada do respeito cego que o medo impõe.
Olhei para ele por um instante. Os olhos do homem estavam cravados no chão.
— Volte para a casa — ordenei. Antes que ele fechasse a porta, a imagem da garota adormecida na minha cama cruzou minha mente. — Se a senhorita Angélica acordar… leve-a para onde ela quiser. Certifique-se de que ela chegue em segurança. Se um único fio de cabelo dela for tocado, a próxima conversa neste galpão será com você.
Ele engoliu em seco, assentindo rapidamente.
— Entendido, senhor.
O carro partiu, sendo engolido pela escuridão da estrada de terra. Fiquei parado por um momento, encarando a enorme porta metálica do galpão. Pelas frestas, a luz amarelada e doentia vazava para o lado de fora, acompanhada de uma trilha sonora que eu conhecia muito bem.
O som de carne sendo esmurrada. O rangido de uma cadeira de metal arrastando no concreto. E a respiração quebrada e úmida de um homem que já desejava a morte.
Um pequeno sorriso, frio e desprovido de qualquer humanidade, curvou meus lábios. Vladimir não gostava de esperar.
Empurrei a porta de metal pesada. Ela gemeu nos eixos enferrujados, anunciando minha chegada.
O interior era um abatedouro improvisado. Lâmpadas industriais pendiam de fios expostos, criando sombras grotescas no chão sujo. Meus homens estavam espalhados pelo perímetro, estátuas letais vestidas de preto. Alguns fumavam, outros apenas assistiam. Mas, no segundo em que a sola do meu sapato tocou o concreto, um silêncio absoluto e sepulcral tomou conta do lugar. Ninguém se mexeu. Ninguém respirou alto.
No centro do galpão, sob o foco da luz mais forte, estava Vladimir. Seus punhos estavam manchados de vermelho escuro.
Amarrado à cadeira de metal diante dele, estava o rato.
O homem estava irreconhecível. Um de seus olhos estava inchado ao ponto de estourar, a boca era uma ruína de dentes quebrados e sangue, e a camisa social cara que ele usava estava reduzida a trapos ensopados. O cheiro de urina misturado ao suor do pânico emanava dele.
Vladimir segurava o homem pelos cabelos, erguendo a cabeça dele para trás, pronto para desferir mais um golpe. Quando percebeu minha presença, ele parou no meio do movimento. Um sorriso sádico iluminou seu rosto.
— Ah, Victor. — Vladimir soltou o cabelo do homem, deixando a cabeça dele cair para frente como a de um boneco quebrado. — Achei que fosse demorar mais. Eu estava apenas amaciando a carne para você.
Cruzei os braços, caminhando em passos lentos e medidos até o centro do galpão. Cada clique dos meus sapatos no chão ecoava como a contagem regressiva de uma bomba.
— Eu estava ocupado — respondi, minha voz monótona e gélida.
Parei a poucos passos da cadeira. O homem ergueu o rosto com um esforço colossal. Seu olho bom tentou focar em mim e, quando a compreensão finalmente atravessou a névoa da dor, o terror absoluto desfigurou o que restava de suas feições. Ele começou a hiperventilar, o peito subindo e descendo em espasmos.
— V-Victor... Senhor Tolyatti... por favor...
Não movi um músculo do rosto. Não alterei o tom de voz.
— Você sabe, o problema da traição não é o dinheiro. É o insulto à minha inteligência. — Inclinei a cabeça levemente para a esquerda. — Você realmente achou que poderia desviar três milhões de dólares pelas docas sem que eu sentisse o cheiro?
— N-não... eu fui forçado! Eu...
Atingi o rosto dele com as costas da minha mão, um golpe rápido e seco. O impacto fez a cadeira tombar para trás, chocando a nuca do homem com violência contra o concreto. O som do osso batendo no chão foi úmido e nauseante. Ele soltou um grito engasgado.
Com um aceno imperceptível meu, dois dos meus homens avançaram e colocaram a cadeira de pé novamente.
Caminhei até uma pequena mesa de metal encostada na parede. As ferramentas de Vladimir estavam meticulosamente alinhadas. Alicates, maçaricos pequenos, correntes, facas de diferentes calibres. Instrumentos de persuasão.
Meus dedos pairaram sobre o aço frio até encontrarem um punhal de caça curvo. A lâmina capturou a luz suja do teto.
Voltei para a frente da cadeira, girando a faca distraidamente entre os dedos. O homem começou a chorar de forma patética, as lágrimas limpando trilhas no rosto ensanguentado.
— Quem mais estava envolvido? — perguntei. Minha voz era um sussurro, e isso os aterrorizava mais do que qualquer grito.
— E-eu não sei... eu era apenas o intermediário!
Suspirei, parando bem na frente dele. Agachei-me até que nossos olhos estivessem no mesmo nível.
— Que decepção. — Apoiei a ponta gélida da lâmina logo abaixo do olho bom dele. Ele parou de respirar instantaneamente. — Sabe o que acontece quando alguém mente para mim olhando nos meus olhos? Eu tiro os olhos deles. Assim, não precisamos mais passar por esse constrangimento.
— N-não! Por favor! — Ele se debateu inutilmente contra as amarras, a voz estridente de pânico. — Eu tenho família! Minha esposa... meus filhos...
Pressionei a ponta do punhal o suficiente para perfurar a primeira camada de pele. Uma gota vermelha e espessa escorreu pela bochecha dele.
— Eu sei. — Sorri, um sorriso que não alcançou meus olhos. — Sua filha mais nova se chama Clara, não é? Oito anos. Estuda na escola Santa Maria. Sai todos os dias às dezesseis horas. O motorista que a busca costuma parar no sinal da Avenida Paulista. Seria tão fácil... um vidro quebrado, um grito, e você nunca mais a veria.
O corpo do homem inteiro convulsionou de pavor. A menção exata da rotina da filha quebrou o último pilar de resistência que ele tinha. A lealdade aos comparsas evaporou.
— Foi o Mauro! — Ele berrou, cuspindo sangue. — Mauro Rossi! Ele montou o esquema com o sindicato do porto! Eu juro pela vida da minha filha, foi ele!
Olhei para Vladimir por cima do ombro. Meu segundo em comando assentiu lentamente.
— Rossi. Faz sentido. Ele tem controle sobre os contêineres do setor sul.
Voltei minha atenção para a criatura patética na minha frente. Afastei a faca do rosto dele, limpando a gota de sangue no tecido rasgado de sua camisa.
— Onde ele está agora?
— N-no escritório da transportadora! Perto do galpão 4! Ele tem uma reunião com os colombianos antes do amanhecer! — O homem soluçava, o peito arfando. — Eu falei! Falei tudo! Por favor, senhor Tolyatti... me deixe ir. Eu desapareço. Você nunca mais vai ouvir falar de mim.
Levantei-me devagar, alisando a frente do meu paletó. Olhei para ele do alto, a indiferença total tomando conta do meu olhar. Eu já não via um ser humano ali; via lixo que precisava ser incinerado.
— Você está certo sobre uma coisa — murmurei, virando as costas para ele. — Eu nunca mais vou ouvir falar de você.
Caminhei em direção à saída de metal. Vladimir deu um passo à frente, puxando um revólver pesado do coldre sob a jaqueta, mas eu ergui a mão sem olhar para trás.
— Não gaste bala. O barulho me irrita hoje. — Parei por um segundo e ajustei as abotoaduras das minhas mangas. — Usem as ferramentas. Façam durar o suficiente para ele entender o que custou. E joguem os pedaços no mar.
O grito que irrompeu da garganta do homem foi puramente animalesco, o som de uma alma sendo rasgada ao meio.
Eu não pisquei. Empurrei a porta do galpão e saí para a madrugada fria, deixando o abatedouro para trás.
O dia ainda não tinha nascido e Mauro Rossi era o próximo, e o porto inteiro iria queimar antes do nascer do sol se fosse preciso. Victor Tolyatti sempre cobrava suas dívidas.