o vazio que ela deixou

1057 Palavras
Capítulo 11 Ponto de Vista — Victor Tolyatti A porta se fechou atrás dela. O som foi suave, quase silencioso… mas para mim soou como um golpe. Fiquei parado no meio da sala por alguns segundos, olhando para a porta por onde ela tinha acabado de sair. Algo dentro de mim parecia estranho, como se o ar tivesse ficado pesado demais para respirar. Eu não entendia aquilo. Não entendia por que aquela garota desconhecida tinha deixado aquela sensação dentro de mim. Passei a mão pelos cabelos e caminhei lentamente até o bar enorme que ficava no canto do escritório. Peguei a garrafa de vodka e servi um copo generoso. Bebi de uma vez. O álcool queimou na garganta. Mesmo assim… o vazio continuava ali. Encostei as mãos na mesa de madeira escura e fechei os olhos por um momento. A imagem dela apareceu imediatamente na minha mente. Cabelos bagunçados. Olhos grandes. A forma como me olhava… como se eu fosse a única pessoa no mundo naquele momento. E aquela palavra que eu tinha pensado quando a vi dormir pela primeira vez… Borboleta. Frágil. Livre. Difícil de segurar sem destruir. Soltei um suspiro irritado comigo mesmo. — Maldita seja… — murmurei. A porta do escritório se abriu. Eu nem precisei olhar para saber quem era. — Victor. A voz firme e respeitosa de Vladimir ecoou no ambiente. Meu braço direito. Meu amigo mais antigo. O único homem que eu realmente confiava. Ele entrou carregando uma pasta grossa nas mãos e fechou a porta atrás de si. — Trouxe a ficha completa do rato que veio procurar — disse ele, colocando os documentos sobre a mesa. — Também temos o endereço onde podemos encontrá-lo. Peguei o copo novamente e tomei mais um gole antes de responder. — Ótimo. Mas eu nem sequer olhei para os papéis. Vladimir percebeu. Ele me conhecia melhor do que qualquer pessoa no mundo. Se sentou no sofá de couro escuro do escritório, me observando em silêncio por alguns segundos. Depois cruzou os braços. — O que aconteceu? Continuei olhando pela janela enorme atrás da mesa. Do lado de fora, a cidade de São Paulo já estava completamente acordada. O trânsito começava a se formar nas avenidas, e o barulho distante da cidade invadia o silêncio do escritório. — Nada. Ele soltou um pequeno riso. — Victor… eu te conheço desde que você tinha dez anos. — inclinou a cabeça. — Você só bebe assim quando está furioso… ou quando algo mexeu com você. Peguei a garrafa novamente e enchi o copo. — Eu dormi com um anjo. Falei aquilo quase como um sussurro. Vladimir levantou as sobrancelhas, surpreso. — Um anjo? Encostei o corpo na cadeira e fechei os olhos por um segundo. — Sim. A lembrança da noite passada veio com força. Ela entrando no carro desesperada. Sentando no meu colo. Me beijando como se a vida dela dependesse disso. Aquele beijo tinha sido tão inesperado que até agora eu não entendia por que não a tinha afastado. Talvez porque fazia anos… Anos desde que alguém tinha me beijado daquela forma. Sem medo. Sem interesse. Sem saber quem eu era. — E onde está esse anjo? — perguntou Vladimir. Abri os olhos. — Foi embora. Ele piscou confuso. — Você deixou? — Sim. Vladimir se levantou lentamente do sofá, caminhando até a mesa. — Você está brincando comigo? — Não. Ele apoiou as mãos na mesa, me encarando. — Victor… você não deixa mulheres irem embora assim. Especialmente quando elas claramente mexeram com você. Dei um sorriso frio. — Justamente por isso. Ele ficou em silêncio por alguns segundos. — Explique. Passei a mão pelo rosto, sentindo o peso de memórias que eu preferia manter enterradas. — Porque eu não posso deixar alguém arrancar meu coração de novo. A sala ficou em silêncio. Vladimir sabia exatamente do que eu estava falando. Valeska. Mesmo depois de dez anos, aquele nome ainda parecia uma lâmina atravessando meu peito. O rosto dela apareceu na minha mente. O bilhete. O sangue. O vazio. — Victor… — Vladimir disse com calma — você não pode deixar o passado destruir o resto da sua vida. Soltei uma risada sem humor. — Meu passado não destruiu minha vida. Peguei o copo e bebi mais uma vez. — Ele me transformou no homem que eu sou hoje. Vladimir balançou a cabeça. — Um homem poderoso… sim. — disse ele. — Mas também um homem sozinho. Não respondi. Porque aquela era a verdade. Meu império era gigantesco. Controlávamos negócios em vários países. Armas. Portos. Rotas de transporte. Política. Dinheiro. Poder. Mas quando eu voltava para casa… sempre era silêncio. Sempre era vazio. Até ontem à noite. Até aquela garota aparecer no meu carro como um furacão. — Como ela era? — perguntou Vladimir. Fiquei alguns segundos pensando. — Diferente. — Diferente como? — Ela não sabia quem eu era. Ele soltou um pequeno sorriso. — Talvez seja exatamente por isso que você gostou. Talvez fosse. Porque todas as outras mulheres me olhavam com interesse. Ou medo. Ou ganância. Mas ela… Ela tinha me beijado porque precisava se esconder. Não porque queria algo de mim. Passei os dedos pela mesa, pensativo. — Eu nem sei o nome dela. — Você não perguntou? — Não. Vladimir suspirou. — Victor Tolyatti… o homem mais perigoso da Rússia… derrotado por uma garota desconhecida. Ignorei a provocação. — Ela parecia… inocente. — E você deixou ir embora? Assenti. — Melhor assim. Ele ficou me olhando por um longo momento. Então disse algo que me fez congelar. — E se você nunca mais encontrá-la? A pergunta ficou suspensa no ar. E pela primeira vez desde que ela tinha saído da minha casa… Algo dentro do meu peito apertou. Porque eu percebi uma coisa. Eu realmente não sabia se voltaria a vê-la. E pela primeira vez em muitos anos… Essa ideia me incomodava. Vladimir bateu de leve na pasta sobre a mesa. — Então vamos resolver o problema que realmente importa. Olhei para os documentos. O rato que tinha roubado milhões da minha organização. Alguém que ia morrer ainda hoje. Abri a pasta lentamente. Mas antes de começar a ler… Uma imagem voltou à minha mente. Cabelos bagunçados. Olhos grandes. O jeito inocente. Minha pequena borboleta. E algo dentro de mim dizia… Que aquela história ainda não tinha terminado.
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