A volta da viagem foi silenciosa. Amanda passou a maior parte do voo olhando pela janela do jatinho, fingindo estar absorta nas nuvens, mas na verdade revivendo cada detalhe da noite anterior. O quase beijo. A proximidade. O jeito como Lucca a olhou, como se ela fosse um enigma que ele desejava decifrar.
Mas não era amor. Não podia ser. Era apenas química. E química era fácil de ignorar. Pelo menos era o que ela repetia pra si mesma.
Do outro lado, Lucca não disse uma palavra durante o voo. Estava com os olhos fixos no tablet, mas não lia. A imagem de Amanda em seu vestido vermelho continuava grudada em sua mente. Ela tinha se comportado como uma verdadeira esposa de magnata. Com classe, com charme, com inteligência.
Ela não era como Laura.
Essa constatação o incomodou mais do que gostaria de admitir.
De volta à mansão dos Mancini, Amanda foi direto para o quarto que lhe cabia. Precisava de um banho, de espaço, de ar. Lucca, por sua vez, subiu para o próprio quarto, mas ficou parado na porta por alguns segundos, antes de mudar de ideia.
Ele caminhou até a cozinha. Encontrou a governanta organizando algumas flores na bancada.
— Amanda almoçou?
— Ainda não, senhor Lucca. Ela pediu para ficar sozinha no quarto. Posso levar algo, se quiser.
Ele hesitou por um segundo.
— Eu levo.
§
Amanda estava enrolada em uma toalha felpuda, ainda com gotas de água escorrendo pelos ombros, os cabelos molhados colados na pele quente após o banho. Sentada na poltrona perto da janela, observava a vista sem realmente enxergar. O corpo relaxado contrastava com a mente em alerta, inquieta desde a noite anterior.
As batidas na porta interromperam seus pensamentos.
— Pode entrar — disse, com um toque de impaciência.
Lucca entrou, vestindo uma camisa branca com os botões do colarinho abertos, mangas dobradas até os cotovelos, o cabelo levemente bagunçado, como se tivesse acabado de sair do banho também. Trazia uma bandeja nas mãos: frutas frescas, suco natural, salada e frango grelhado. A composição perfeita entre o cuidado e o controle.
— Achei que podia estar com fome — murmurou, colocando a bandeja sobre a mesinha ao lado dela.
Amanda arqueou uma sobrancelha, cruzando as pernas, o gesto fazendo a toalha deslizar levemente sobre a coxa exposta.
— Gentileza agora? Está tentando me confundir?
Ele a observou por um segundo longo demais antes de responder.
— Talvez eu só esteja sendo educado. Acredite, eu consigo ser... quando quero.
Ela riu, mas o som saiu baixo, rouco, carregado de tensão.
— Você sempre age assim quando as coisas começam a sair do seu controle?
— Quem disse que estou perdendo o controle?
— O seu olhar ontem à noite. O quase beijo. A hesitação de agora.
Lucca se aproximou, devagar. A respiração dele já podia ser ouvida. O calor do corpo começava a invadir o ar entre eles.
— Você é esperta. E perigosa.
Amanda o encarou sem recuar.
— Não sou perigosa. Só sei reconhecer quando alguém está lutando contra os próprios sentimentos.
— Sentimentos?
— Ou desejos. Escolha a palavra que mais assusta você.
O sorriso de Lucca foi lento, arrastado, como se surgisse contra a própria vontade. Ele passou uma das mãos pelos cabelos, depois deixou os olhos viajarem do rosto dela até as pernas à mostra.
— Você quer brincar com fogo, Amanda?
Ela inclinou o rosto para o lado, provocando.
— Não. Eu só não finjo que não sinto o calor.
O silêncio que se instalou em seguida era espesso. Quente. O ar parecia eletrificado. Ele a observava como se cada centímetro dela dissesse algo que sua boca ainda não ousava pronunciar.
Lucca estendeu a mão, sem tocar, mas próximo o suficiente para que ela sentisse a energia entre os dois.
— Se eu encostar agora… não vai mais ter volta.
— Talvez a gente já tenha passado desse ponto.
Ele ficou ali por mais alguns segundos, os olhos fixos nos dela, a respiração descompassada. Mas então, como se recolhesse uma parte de si, recuou um passo.
— Eu não quero complicar ainda mais isso.
— Já está complicado, Lucca. Desde o momento que você apareceu na igreja.
— Foi você quem aceitou a proposta.
— Porque eu precisava de um recomeço. Mas eu não sabia que o problema seria o coração.
Os olhos dele se estreitaram, a expressão endureceu por um instante.
— O seu... ou o meu?
Amanda mordeu o lábio inferior, pensativa, mas não respondeu.
Lucca deu um último olhar, carregado de tudo que ainda não podia ser dito — ou feito. Em silêncio, virou-se e saiu, deixando para trás a bandeja intacta, o perfume amadeirado misturado ao vapor do banho... e uma mulher lutando contra um desejo que já não podia mais disfarçar.
§
Ele subiu os últimos degraus com a bandeja nas mãos, tentando manter o foco no equilíbrio dos pratos — qualquer coisa, menos pensar no que realmente o movia até aquele quarto.
Desde a noite anterior, Amanda estava em sua mente como uma brasa viva. Ela o desarmava com palavras afiadas e, ao mesmo tempo, deixava cada gesto dele em chamas. Aquela mulher era um paradoxo: forçada a casar com ele, e ainda assim, era ela quem parecia no controle.
Lucca bateu na porta e, ao ouvir o "pode entrar", girou a maçaneta.
O que viu o deixou por um segundo em suspenso.
Amanda estava ali, com os cabelos ainda molhados, a toalha envolta no corpo como um convite ao caos. As pernas cruzadas de forma displicente, a pele úmida refletindo a luz suave do fim de tarde.
Deus...
Ele inspirou fundo e colocou a bandeja na mesinha com o máximo de calma que conseguiu fingir.
— Achei que podia estar com fome — disse, como se o gesto fosse apenas isso: preocupação.
Na verdade, era desculpa. Ele precisava vê-la de novo. Precisava confirmar se a tensão da noite anterior tinha sido real ou apenas fruto do cenário luxuoso, do vinho e da encenação. Mas ali, diante daquela imagem quase hipnótica, ele teve certeza. Não era fingimento. Era química pura.
— Gentileza agora? Está tentando me confundir? — ela provocou.
Lucca ergueu o olhar, tentando não deixar escapar o que realmente sentia. Amanda o desafiava com aquela ironia encantadora. Ela era diferente de todas as mulheres com quem ele já tivera qualquer envolvimento. Não era submissa. Não era moldável. E talvez, por isso mesmo, ele estivesse começando a perder o controle que sempre teve.
Ela o acusou de hesitar. E estava certa.
Ele quase a beijou na noite anterior. Quase cedeu. Mas aquele contrato, aquela farsa, era como um fio tensionado entre eles — qualquer passo em falso e tudo poderia ruir. E, no entanto, ela falava de sentimentos e desejos com uma naturalidade que o desarmava.
— Você quer brincar com fogo, Amanda?
“Porque eu quero.”
Mas ele não disse isso. Só esperou. Esperou que ela negasse, que recuasse. Só que Amanda não recuou. Nunca recuava.
— Eu só não finjo que não sinto o calor.
As palavras dela queimaram mais do que qualquer toque.
Lucca deu um passo à frente, levado por um impulso que quase sempre conseguia dominar — mas não com ela. Nunca com ela. O cheiro do sabonete ainda fresco, o calor do corpo dela contrastando com o ar condicionado do quarto, tudo fazia o sangue correr mais rápido, a razão vacilar.
Ele estendeu a mão, parou antes de tocá-la. Estava tão perto. Bastava se inclinar um pouco e o gosto da boca dela deixaria de ser uma curiosidade incômoda para se tornar realidade.
Mas não o fez.
O medo de cruzar uma linha que ainda não sabiam como apagar o freou.
“Eu não quero complicar ainda mais isso.”
Mentira. Ele já estava mergulhado na complicação. Desde o instante em que ela entrou naquela igreja com os olhos em chamas e o orgulho ferido. Desde que ele disse "sim" no lugar do irmão covarde. E mais ainda, desde que ela começou a ocupar o espaço que ele jurava manter blindado dentro de si.
— Já está complicado, Lucca. Desde o momento que você apareceu na igreja.
As palavras dela foram um soco bem dado.
Quando Amanda falou sobre recomeço... sobre o problema ser o coração… ele sentiu o chão ceder sob os próprios pés. Não sabia mais se estava tentando protegê-la... ou a si mesmo.
— O seu... ou o meu?
Ela não respondeu. Mas Lucca viu nos olhos dela que a dúvida era real. E isso bastava para deixá-lo em pedaços por dentro.
Ele se virou, sem ousar olhar para trás. O cheiro dela ainda grudado nas narinas, a imagem da pele molhada, da toalha descendo perigosamente pela coxa... tudo isso ficaria com ele por dias. Sem que pudesse fazer nada.
Ou pior: podendo.
Mas escolhendo não fazer. Ainda.