Esther

2814 Palavras
(Esther ?) Naquela noite estava impossível de dormir. Eu já me acostumei com o frio intenso do porão, e com o barulho de ratos no forro... Mas a imagem de Pither chegando ao meu quarto, não saia dos meus pensamentos! Era como se eu já o tivesse visto, além de hoje. Eu olhava ao redor, e só o que eu sentia era aquela imensa vontade de vê- lo outra vez. Me levantei e numa mesinha velha ficava uma jarra com água, tomei torcendo pra depois disso conseguir dormir. Me deitei outra vez inquieta, mas depois de tanto tentar acabei adormecendo." Do nada tudo ficou branco, como se uma fumaça cobrisse aquele lugar. E então eu pude ver uma parede azul marinho e de frente a ela havia uma moça. Aquela moça, parecia ter uns vinte e poucos anos. Ela era morena, alta, cabelos negros e muito magra! Ela sorria pra sua mão e mostrava seu dedo. Nele havia um anel, eu poderia jurar que era de noivado, porque ele brilhava muito... Depois pude ver essa mesma moça em outro lugar. Parecia um quarto... Era espaçoso e havia uma cama. Depois vi quando a certa moça jogou o mesmo anel sobre a cama e muito nervosa disse - Não vou usar o anel de uma morta!" Foi nessa hora, que tudo foi ficando branco outra vez e eu pude ainda ver o anel ali sobre a cama, sozinho e brilhando sobre o olhar de uma noiva furiosa. Acordei em choque! Olhei pra todos os lados, e o relógio marcava 3 da manhã. Ainda era cedo e eu não havia dormido nada. Fiquei pensando "Quem poderia ser aquela mulher? Porque tanto ódio por um anel tão bonito?''... Esse sonho foi a única coisa que dispersou meus pensamentos do médico. Então decidi pegar algumas folhas e fazer um desenho. Desenhei aquela moça e o seu anel.. Certamente um dia talvez eu poderia conhece los. (Pither?) Pensa numa noite chata era aquela. Eu estava naquele restaurante ouvindo Déborah falar... Ela tagarelava tanto que eu pude por um momento pensar em Esther. Lembrei-me como me olhou assustada, seus olhos tão azuis que pareciam vidros, aquele cabelo... Nossa!! Louro, tão grande e volumoso, era muita perfeição para uma pessoa só. - Pither! Pither! Olhei para Déborah enquanto chamava minha atenção, com seus estalos de dedos. - Ei! Eu estava falando com você.... - Desculpa... Eu estou um pouco cansado, o que você dizia? Me ajeitei na mesa para observa-la. - Eu dizia, que a Luísa comprou um vestido igual ao meu na formatura e tivemos que ir iguais você acredita?! - Nossa Déborah que chato né.... Eu fazia um enorme esforço para prestar atenção nela. - Chato? Isso foi uma crise mundial! Ela fazia uma expressão como se aquilo fosse mesmo importante... Quanta futilidade! - Tá e agora? Vocês se acertaram? Não eram amigas? - Affs... Ela agora é a namoradinha do seu primo Matheus! - O Matheus tá namorando? Perguntei. - Aaih Pither isso tem meses já... - É... Eu que ando meio m*l informado! - Garçom por favor a conta.... Dei sinal e Déborah parecia querer prolongar mais aquele karmann . - Pither, ainda são onze horas você sabia? Ela me disse sorrindo. O garçom se aproximou, paguei a conta e dei lhe a gorjeta. Ele agradeceu e saiu, olhei para Déborah; - Tarde demais para uma moça de família estar na rua, vamos?! No caminho, Déborah deu um jeitinho de abrir mais a f***a de seu vestido, exibindo mais suas pernas para mim. Fingi não notar, o carro dela estava lá em casa por isso eu precisava levá-la para pega lo. - Pither... Ela fazia aquela voz de gatinha siamesa. - O que acha de eu passar a noite na sua casa? Não queria ser grosso, mas também não queria passar a noite com ela. - Déborah... Eu adoraria mais essa noite não dá! Amanhã ainda é terça feira e eu preciso acordar cedo! Déborah fez bico. Cara! Eu odiava quando ela fazia isso. - Desculpa! Mais eu tô cansado, não vou poder te dar atenção... - Eu curo sua canseira rapidinho... Ela disse sorrindo, como se cansaço fosse doença. E colocou sua mão na minha perna alisando toda a minha coxa sobre a calça. Comecei a entrar em desespero, eu não amava ela mas eu era homem. E estava meio difícil controlar a situação aqui. Dei Graças a Deus quando cheguei no condomínio, nunca fiz o percurso tão rápido, eu estava suando. Não sabia o que fazer. Quando cheguei na minha rua, e avistei o meu portão. Déborah pulou em cima de mim e me beijou. Achei que ela fosse me engolir inteiro, estava mesmo disposta a ficar comigo! E não que isso nunca tenha acontecido. Mas... Não sei! Quando ela puxou o meu zíper eu segurei a sua mão. - Não!! É melhor a gente parar por aqui... Ela olhou para mim e percebeu que eu estava mesmo falando sério. Então puxou sua mão, e fechou a cara. - O que deu em você? Eu vou embora! Ela abriu a porta, e saiu batendo a com toda força que uma mulher pode ter. Saiu pisando duro, seus cabelos voando na brisa daquela noite gelada. Pensei em chama-la de volta, mas deixei que a fosse. Vi quando ela entrou em seu carro e saiu cantando pneus. E eu fiquei lá só observando ela ir. Entrei em casa, meio desolado." O que deu em mim hoje?" Pensei " Eu nunca agi assim antes"... " O que Déborah sairá pensando? Que eu sou um fraco, impotente talvez"... Coloquei minhas chaves sobre a mesa da sala e olhei o quadro da minha mãe. Naquela foto eu já tinha nascido, e lembro que meu pai insistiu para que ela posasse, para que o pintor a pintasse naquele dia. Ela toda tímida aceitou. Era uma das imagens mais bonita dela. Papai fez questão de emoldurar e colocar na sala. E de lá ninguém nunca mais a tirou. Fiquei observando-a por alguns instantes. Mamãe com aqueles cabelos castanhos, pele branca, olhos azuis ... Tão linda! Tão... Esperai?! Como ela parece Esther!! Principalmente os olhos...." Meu Deus eu devo estar m*l da cabeça, vendo essa moça até no retrato da minha mãe! Deixa eu dormir antes que isso piore"! (Esther☀️) O dia m*l amanheceu e um raio de sol tocou meus olhos por uma fresta da janela. Eu pisquei algumas vezes e sorri... Há muito tempo eu não saía pra fora, e vê lo mesmo que fosse por uma frestinha me animava muito. Já imaginava como bonito o dia seria. Me levantei, escovei meus dentes e lavei meu rosto. Supliquei por não ter um espelho naquele lugar; ajudaria tanto... Quando voltei pro quarto eu peguei meu relógio, e marcavam 8 horas, foi quando ouvi passos no corredor. Guardei meu despertador na gaveta. Porque se fosse a bruxa da Lúcia, com certeza me faria perguntas... Como " Onde conseguiu isso?" Mais se ela queria que eu não tivesse noção do tempo, para que aparentasse o avanço da minha " suposta doença" ela tinha perdido uma batalha. A porta se abriu como se alguém fosse arrebenta la com batente e tudo. Eu estava deitada, de olhos fechados quando vi o monstro do Saulo na porta. - Levanta! Você tem visitas! Ande logo! Levantei e sentei na cama pensando que a minha visita estava na porta. Mas Saulo sem explicação, entrou no meu quarto e me puxou pelo braço. - Vamos logo garota! Que eu não tenho o dia todo! Ele me jogou pra fora do quarto e encostou a porta. Eu fiquei no corredor assustada, sem saber o que estava acontecendo. Do nada Saulo começou a caminhar na frente e eu o segui logo atrás, não sabia o que fazer. Observei aqueles corredores horripilantes e percebi que era uma ótima idéia se eu tivesse ficado no quarto... O que aqueles dois queriam?! Hoje não era o dia de vacinação, pois a minha última já fazia dois anos que tinha tomado. Também não era 'Natal e muito menos 'Dia das crianças. Que não adiantaria muita coisa pois o máximo que eu teria era a companhia das crianças no pátio. E isso já fazia um bom tempo. Subimos a escada de ferro, cada degrau rangia com os passos de Saulo. Eu ia logo atrás, quase correndo para poder alcança lo. Quando chegamos no corredor da escola, eu quase chorei quando ouvi algumas crianças falarem. Era tanta saudade delas. Algumas crianças sorriram quando me viram, e eu acenei para todas elas. Nem sei qual foi a última vez que tivemos o privilégio de ficarmos juntas. Estava tão distraída com as crianças, que nem percebi quando Saulo cruzou a diretoria, eu virei meu rosto e olhei para a porta e ali estava ele ... O Pither'! Naquele momento, eu não conseguia esconder a minha felicidade... Eu sorri! Ele sorriu de volta, não estava vestido como ontem, hoje ele veio de camisa social, dobrada os punhos até a altura dos cotovelos. Era branca e tinha dois botões abertos. Ele também vestia calças jeans, e os sapatos sociais. - Bom diaaa! Ele me disse com um sorriso e levantar de sombrancelhas. - Bom dia! Eu respondi. Lúcia apareceu na porta, e me olhou como se quisesse me esganar, eu entendi o recado... Não vou dizer nada! Não por ela, pelas crianças! - Vamos até o jardim? Assenti com a cabeça e acompanhei Pither aos olhares maldosos daqueles dois." Pena que ele não via". No início tive vergonha de descer as escadas para o jardim com Pither, ele estava tão bem vestido e eu toda maltrapilha. Que nem posso chamar aquilo de roupas. - E como você está ? Ele me perguntou ainda descendo os degraus. - Bem ... E você ? Eu tive receio de chamá-lo de senhor. Era tão jovem que parecia uma ofensa. - Estou bem também. Ficou surpresa? Eu disse que voltaria... - É... Eu achei que você iria até meu quarto... Respondi. - Aaah pensei que quisesse tomar um pouco de ar! E você, não se chateou com a minha visita né?! - Não, claro que não ! Balancei minha cabeça. - Hoje você está bem melhor sem aquele uniforme! Falei. Naquela hora Pither gargalhou alto com o meu comentário, eu nunca tinha visto alguem rir daquele jeito. Não era pra ser uma piada mas se ele achou graça... E eu ri também. Fomos caminhando calmamente. Eu observava o jardim com carinho, as árvores já tinham crescido desde a última vez que as vi, as flores também estavam mais bonitas e bem cuidadas. - Esther, tenho que te agradecer por ser a única pessoa, a não me chamar de senhor! Eu sorri e continuei caminhando com ele pelas calçadas daquele lugar. - E então... Leu o final do livro, do Dom casmurro? Ele disse parando no caminho e virando-se pra mim. - Terminei sim! Já li aquele livro 17 vezes... Ele se assustou, e arregalou seus olhos verdes que brilhavam a luz do sol. - Você não fica entendiada de ficar todo o tempo naquele quarto? Eu sabia onde ele queria chegar. Preferi abaixar minha cabeça e não dizer nada. Pither observou meu comportamento, e tive uma leve impressão que ele olhava para meus pulsos, como se analisasse alguma coisa. - Eu sei que sim! Ele disse - Por isso te trouxe uma coisa... Fecha os seus olhos! Eu não sabia o que fazer, então eu fechei meus olhos e confiei nele. Senti ele colocar algo em minhas mãos, então ele disse : - Pode abrir !! - Um livro!!! Eu falei tão surpresa, que ele sorriu muito feliz com o meu entusiasmo.- É seu ? Perguntei. - Não... não é meu! Eu prefiro ver o filme, mais você vai gostar muito! O livro era grosso, tinha capa dura e cheirava novo. Eu gostei tanto que dei um abraço em Pither. - Muito obrigada!! Acho que ele se surpreendeu com o meu abraço espontâneo... Eu me afastei e ele ficou sem graça depois disso. No fim do pátio tinha um banco, Pither deu sinal para que nos sentássemos. Eu folheava o livro animada, não via a hora de lê lo. Ele observava cada gesto meu, como se me estudasse. Olhei o pelo canto dos olhos e ele sorriu e disse: - Sabe o que eu gosto de fazer? - O que ? Disse olhando pra ele, que abriu sua bolsa e pegou um objeto que eu nunca tinha visto. Ele o colocou nos olhos e mirou em mim! Fiquei sem entender. Depois ele a afastou do rosto e olhou pra mim sorrindo... -Olha é você! - O que é isso? Perguntei. - Uma câmera fotográfica! - Que legal! Falei sorrindo. - A fotografia é uma de minhas paixões, logo depois da medicina é claro! Nunca tinha visto? Balancei a cabeça em negativa, e ele estreitou mais seus olhos como se tivesse ficado triste. Então dezenas de pássaros passaram no céu, todos faziam barulhos de alegria no alto, pelo lindo dia que se iniciava. Pither colocou a tal câmera nos olhos e mirou no céu. Vi quando ele mexia nela e depois sorriu me mostrando. - Olha!! Naquela hora vi os pássaros na camera de Pither voarem outra vez e tudo tão pertinho que sorri de animação. - Nossa como você fez isso? - Eu só puxei o Zoom... Ele sorriu e tirou outra foto de mim. - Aah Para! Coloquei minha mão na camera dele. - Isso não vale! Deixa eu tirar uma sua também?! Ele sorriu e pude ver seus furinhos na bochecha, um em cada lado. - Me diz Esther, há quanto tempo você está presa naquele quarto? - Há 7 anos... Respondi. - Por que o seu quarto é lá? Eu sabia que ele ia acabar me fazendo perguntas, era o trabalho dele me questionar. Ele sorriu e colocou a câmera no banco. - Tá! Vamos reformular a pergunta... Por que você acabou parando naquele lugar? - Depois que viemos pra esse orfanato, e a Lúcia acabou virando diretora. Eu acabei ficando no porão... - E sobre o que você disse ontem, sobre o guarda da porta, era verdade? - Sim... Não posso conversar sobre isso no meu quarto! Tem 'escutas' por toda parte, e... Quando levantei minha cabeça vi que Lúcia nos observava de longe. Pither quis olhar pra trás, mais eu o interrompi: - Não! Não olha pra lá! Pither compreendeu e agiu como se tivesse mexendo em sua câmera. - É ela né? Ele disse ainda mexendo em suas fotos. - Ela nos observa lá de cima! - Sim... Eu disse sabendo que talvez seria a última vez que eu o via. - Doutor... Falei meio apressada. Pither me olhou surpreso pois até aquela conversa, eu não tinha o chamado assim. Lúcia descia as escadas, e eu não tinha muito tempo, então encarei o médico e falei com todas as palavras que eu tinha. - Doutor, eu sei o que ela quer... Sei que você está aqui para me diagnosticar! Se ela proibir a sua visita amanhã, faça o que ela quer... Assine logo aquele papel, mesmo na dúvida, assine Pither! Ele pareceu não entender nada. Seus olhos corriam de um lado para outro, sua expressão outra vez ficou séria. - Esther eu não entendo... - Pither dê o que ela tanto quer... Pelas crianças... Eu imploro! Então ela se aproximou e eu fiquei muda, olhando pras árvores. Enquanto via Pither confuso sem entender nada. - Tá tudo bem por aqui, Doutor? Pither virou se para a Lúcia e disse : - Sim... Até aqui tudo bem... - Esther! Ela me chamou. - Sugiro que volte pro seu quarto! - Senhora diretora, eu não terminei de avaliar Esther.... Pither a encarava. - Ela precisa tomar seu café da manhã Doutor! Vá Esther... Estão te esperando lá em cima... Eu sabia quem estaria me esperando lá em cima e não era o café da manhã. Me levantei sem olhar para Pither. Eu não podia dar nenhum deslize. Passei por Lucia, de cabeça baixa. E pelas costas dela, olhei para Pither, com um olhar de despedida. Porque sabia do que Lúcia era capaz de fazer se ele continuasse com suas visitas. Com passos lentos, ainda pude ouvir quando ele disse . - Será que depois eu posso continuar com a minha avaliação com ela? Foi muito pouco tempo e... - Doutor! O senhor está desde ontem com suas ' terapias' e não conseguiu me trazer nenhuma resposta?! Pither se levantou, e a encarou sério. Sua voz grossa e rouca. - Pois bem! Amanhã entregarei o seu relatório... A senhora terá o que quer ! Continuei andando, agora em passos mais rápidos, foi aí que senti uma lágrima quente escorrer pelo canto do olho. " Esquece Esther! Foi melhor assim !" ══════ஜ▲ஜ════
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR