— Isa, espera — a voz de Clara veio apressada, os passos atrás dela ecoando pelo corredor de mármore. — Seu pai não está sozinho. Tem… tem visita. Um Bianchi.
Ela parou. Só por um instante. Só até o nome cortar o ar como uma lâmina afiada. Bianchi.
O sangue pareceu congelar por um segundo. Ela parou, dando um passo para trás, o ar a sufocando. Enzo? Enzo estava aqui?
Tentou conter a tremedeira. Seria bom vê-lo. Ele precisava saber e tomar as responsabilidades.
— Mesmo assim — disse, com a voz mais firme do que esperava —, ele vai ouvir. Vai ter que ouvir.
***
O corredor até o escritório parecia mais longo naquela noite. Cada passo ecoava com um peso que não vinha só das solas dos pés. Vinha das palavras que carregava no peito. Das mágoas que vinham se acumulando há vinte anos.
Ela não bateu. Abriu a porta.
O escritório era como ela lembrava: madeira escura por todos os lados, cheiro de couro e tabaco, estante com livros que ninguém lia. O relógio de parede fazia tic-tac com arrogância. Como se medisse o tempo daqueles que podiam desperdiçá-lo.
Eduardo Diniz estava sentado atrás da mesa imponente, os dedos cruzados sobre um documento aberto. O rosto sério, o olhar impaciente.
E de pé, ao lado da estante, Matteo Bianchi.
Isadora piscou por um segundo. Não era Enzo. Era o homem da farmácia. E agora ela lembrava. Matteo Bianchi era o primo dele.
Por um novo segundo sentiu-se aliviada por não ser o Enzo. Não sabia se teria coragem de encará-lo.
Matteo Bianchi não parecia surpreso. Só virou o rosto, os olhos cinza-escuro cravando nos dela com o mesmo olhar que lançara na farmácia. Era como se já a conhecesse. Como se já a tivesse catalogado.
Ela quase recuou. Mas forçou os pés a seguirem.
Talvez ele mude. Talvez agora ele veja que eu sou de verdade. Que existo. Que mereço.
Lembrou da última vez que tentara buscar conforto no pai.
Tinha sete anos. Caiu no jardim e rasgou o joelho. Sangue escorria até o tornozelo, e ela correu para dentro, soluçando. Eduardo estava no telefone. Disse apenas:
— A babá cuida. Você é forte. Não precisa de choro.
Desde então, ela aprendeu a sangrar em silêncio.
— O que faz aqui? — perguntou Eduardo, sem disfarçar o incômodo.
Ela engoliu seco.
— Preciso falar com o senhor, é… hm… urgente — disse, as mãos trêmulas na frente do corpo.
— Fale logo e não perca meu tempo! Não vê que estou ocupado?
— Mas pai…
— Se não tiver nada a dizer, saia de uma vez! — o homem gritou.
— Estou grávida.
Silêncio. Matteo virou levemente o rosto em direção a Eduardo. Não disse nada. Mas os olhos dele estavam mais atentos agora. Frios. Precisos.
Eduardo se recostou na cadeira com lentidão, como quem avalia o valor de uma mercadoria que já não serve mais.
— E por que acha que isso me diz respeito?
Isadora sentiu o peito apertar.
— Porque sou sua filha — disse, a voz embargada. — E isso… isso muda tudo.
Eduardo riu. Mas não de verdade. Era um som seco. Um ruído morto.
— Você é filha da fraqueza de um momento. Não me venha com dramas. Você não é minha responsabilidade.
Matteo cruzou os braços, apenas observando. Isadora não sabia se ele achava aquilo normal. Ou só conveniente.
Ela queria gritar. Mas não havia força.
Então, o som de bengala batendo no chão fez os ombros dela se enrijecerem.
Dona Celina Diniz entrou no escritório como uma sentença de morte entrando em cena. Vestia um casaco azul escuro com detalhes dourados e usava um colar de pérolas como se fosse uma coroa. A postura reta, os olhos cortantes.
— Sinto muito, Matteo, essa menina sem modos atrapalhando as negociações — A velha disse olhando incriminadora para a garota que se encolheu ainda mais.
— Sem problemas. Posso voltar outro dia.
— Não é necessário. Isso será rápido. — E olhando para Isadora: — Sente-se. Ou ao menos finja que tem algum traço de dignidade.
Isadora não se moveu.
— Você devia ter sumido com a sua mãe — continuou Celina, andando devagar pelo cômodo. — Eu paguei para ela sumir. Sabia disso? E mesmo assim, você apareceu. Uma falha no plano.
A pele de Isadora formigava.
— Esse é o seu problema — completou Eduardo, com um suspiro impaciente. — Você insiste em existir.
Matteo observava Eduardo com um certo tédio no olhar. Como se já conhecesse aquele discurso de cor.
E foi isso que fez Isadora notar: ele não estava chocado. Não estava nem curioso.
Estava só… registrando.
Ela se virou para ele. Pela primeira vez, encarou os olhos frios e disse, com um fio de voz:
— Foi com o primo do senhor… que eu engravidei.
Matteo ergueu uma sobrancelha, apenas.
O silêncio que se seguiu foi denso. Eduardo não ficou furioso. Não se levantou. Não protestou. Ele apenas disse:
— Pior ainda. Não é problema meu. É dele agora.
Isadora fechou os olhos por um segundo. Queria ter ficado surpresa. Mas não ficou.
***
Saiu da sala com passos trêmulos. Sentia o olhar de Matteo nas costas, mas não olhou para trás. Não queria ver pena. Nem desprezo. Nem nada.
No fundo da sala, a voz seca de Celina ecoou como um prego no caixão:
— Ela vai acabar exatamente onde a mãe dela terminou. No lixo.
Matteo não respondeu. Mas Isadora, mesmo de costas, sentiu. Os olhos dele apertaram — ainda que levemente.
***
No quarto, Isadora bateu a porta com força e encostou-se nela, os punhos cerrados. Respirou fundo. Uma. Duas vezes. Depois, explodiu.
Chutou a cadeira que usava para estudar. A almofada voou contra a parede. Rasgou o travesseiro e viu as penas voarem como neve maldita. Derrubou os livros da estante, um por um. Arrastou a colcha, jogou a luminária no chão.
E quando tudo estava em ruínas, sentou-se no chão. A respiração arfante. Os olhos úmidos. Os lábios mordidos até sangrar.
Esticou o braço. Abriu a gaveta do criado-mudo. Tirou o teste de gravidez. Segurou entre os dedos.
Duas linhas. Ainda ali. Claras. Implacáveis. Ela olhou aquilo como quem observa um inimigo.
E sussurrou, sem chorar:
— Se o sangue deles não me protege… então o meu vai queimar tudo.