Acordei com uma dor de cabeça intensa e o nariz entupido. Estava resfriada e sentindo um frio intenso percorrer meu corpo. Não iria a nenhum lugar aquela amanhã. Continuei a dormir, pois permanecer com os olhos abertos era uma tarefa difícil. Parecia que cada musculo do meu corpo protestava, se eu me mexesse.
Mergulhei em um sono profundo, parecendo estar flutuando. Nada parecia me tocar ali. Senti a cama afundar, de repente, mas não conseguia abrir os olhos.
- Acha que ela está preparada para o que virá? - pensei ter escutado a voz de Katherine, mas não sabia dizer se era.
- Ela precisa estar - escutei a voz de um homem, desconhecido para mim.
- Não há como salva-la? Por que precisamos deixa-la sozinha? - Katherine parecia que iria chorar.
Queria abrir os olhos e dizer que estava ali, que nada iria acontecer de m*l.
- Ela tem muito mais dentro de si do que pode imaginar - o homem disse, parecendo querer conforta-la.
Eu tentei me mexer, levantar, mas não conseguia. Respirei fundo, tentando abrir os olhos e acordei sobressaltada. A porta do quarto estava sendo aberta.
- Está escapando dos seus deveres? - Caitlyn perguntou, com um tom acusador. Seu cabelo curto, estilo chanel estava bem arrumado e comportado - Levante-se já dessa cama.
Meus olhos lacrimejavam e eu sentia que minha cabeça iria explodir.
- Bem, eu gostaria de levantar, mas estou doente - respondi, de forma rispida.
Ela estreitou os olhos para mim e veio até a cama, colocando a mão em minha testa, se afastando rapidamente, como se eu tivesse alguma doença muito infecciosa.
- Achei que estivesse mentindo - ela sussurrou.
Eu queria fingir que isso não doía, essa desconfiança que Caitlyn tinha de mim. Sempre que ficava doente, ela não parecia acreditar. Não eram tantas vezes. Na verdade, eu poderia contar quatro no total, em todos os meus dezoito anos de vida. Eu sempre fui muito forte com a saúde, além do normal e cair de cama não era algo com que estivesse acostumada.
- Vou pegar antitérmicos para você e um chá - ela disse, sem me olhar - Vou deixar no quarto e preciso ir trabalhar. Acha que consegue se cuidar sozinha?
Eu não deveria exigir que ela me desse carinho, como uma mãe faria, com Katherine faria, então apenas assenti, sentindo a cabeça explodir pelo movimento. Fechei os olhos e parecia que passou muito tempo, até que escutei a porta abrir novamente. Os passos precisos de Caitlyn ecoarem sobre o carpete, com seus saltos finos de agulha.
- Deixei o remédio e o chá ao lado da sua mesa de cabeceira - ela disse - Se precisar, ligue para mim que a levarei no hospital.
Não falei nada, nem abri os olhos. Era difícil demais de pensar. Quando escutei a porta se fechar, tomei o remédio e forcei a tomar o chá. Parecia ser de camomila. Senti a garganta queimar e dolorida. Afundei a cabeça nos travesseiros novamente e dormi mais uma vez.
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- Kate, olhe - eu apontei para o jardim. Via uma criatura minúscula alçando voo. Era delicada e com um corpo humano, mas era pequena como uma borboleta - Veja, veja.
Ela veio até mim, com seus cabelos longos e loiros. Aquela manhã parecia mais uma fada, aquelas que eu gostava de ver nos jardins. Usava um vestido lilás, com alças.
- O que foi? - ela perguntou, me fitando com carinho, se agachando ao meu lado.
Apontei para a borboleta pousando nas flores de cor branca que já vi Kate plantar uma vez. Parecia que a flor ficou mais bonita e brilhante ao toque do inseto.
- É linda, uma borboleta - Kate respondeu, olhando para mim, não para o inseto.
- Não, Kate, olha - apontei de novo e ao inseto fazia um arco, indo para outra flor - Olha, ela parece humana.
Kate riu e isso me magoou muito.
- Querida, é uma borboleta - ela disse, sorrindo, mas seus olhos não. Pareciam estranhos.
Peguei o rosto dela com as minhas mãos e virei em direção à borboleta.
- Olha, é sério. Não estou mentindo - eu disse, me afastando e olhando para a borboleta - Vê? Ela tem um longo vestido, como o seu e parece estar salpicando as flores com um brilho estranho.
Kate não me deu atenção e se levantou. Johnny estava na porta, com uma lata na mão. Eles conversaram e ele franziu o cenho, preocupado. Não sei o que estavam falando e como não posso ouvir as conversas de adultos, fiquei aqui, olhando para minha borboleta. Logo, um enxame delas veio e uma pousou no meu dedo. Ela ficou olhando para mim e eu para ela.
- Você é bonita - eu disse.
Ela bateu as asas e parecia falar algo. A voz era fina, mas eu não conseguia escutar.
- Agnes, por favor, venha para dentro - Kate pediu, da porta - Eu vou servir o almoço.
- Tchau borboleta, até logo - eu disse, me afastando.
Uma insistiu em ficar no meu ombro, mas não entrou na casa quando eu passei pela porta. Havia tantas, quando olhei da janela da sala. O jardim estava infestado delas. Eram coloridas e brilhantes. Eu queria uma para mim.
- Saia da janela, Agnes - Kate pediu, fechando a cortina.
Escutei ela fechar as portas dos fundos e a da frente. Assim como todas as cortinas das janelas.
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Eu acordei cansada e senti saudades de Katherine. Queria que ela estivesse aqui comigo.
A febre já tinha passado, no final da tarde e consegui apenas abrir o notebook. Havia algumas notificações do site Mystikistís. Algumas pessoas pareciam tão descontentes quanto eu de Kaelus não ter postado a continuação da história. E havia uma mensagem privada dele próprio. Fiquei com medo de abrir e hesitei em apertar para abrir a mensagem.
"Sinto muito se a irritei, Delfos. Se está interessada em conhecer essa história, me encontre na faculdade de Asteri, na biblioteca"
Engoli seco. Isso não era normal. Ele morava ali, em Asteri. Impossível. Era uma coincidência. Digitei uma resposta para ele.
"Por que não conta por aqui?"
Esperei por um tempo, até que desisti e dormi. Quando abri os olhos, a noite já havia caído. Meu celular tinha mensagens de Tomas, Alyssa e Mia. As duas pediram para saber se eu estava bem e se amanhã poderia ir trabalhar. Respondi que sim. Eu estaria bem amanhã. Tomas continuava pedindo para entrar em contato com ele. Sua insistência estava beirando a irritação.
Ignorei a mensagem e abri o notebook, que estava em cima da cama, ao meu lado. Logo mais uma vez no site e vi que havia uma resposta de Kaelus.
"Não sou um psicopata, se é o que está pensando. Não gostaria de falar por aqui sobre isso. É uma lenda perigosa. Insisto que me encontre lá. Você vai se sentir segura assim e não farei nada a você."
Respirei fundo, pensando e pensando. Resolvi não responder nada. Amanhã eu pensaria sobre isso.