Damian Salazar
25/02| Valência, ES
Ela parecia estar falando sério, e isso fez meu sorriso sumir na hora.
— Você ficou louca? — questionei, incrédulo.
— Estou em plena consciência. Na verdade, nunca estive tão consciente como agora.
O tom debochado dela era irritante.
— Cloe, não existe a mínima possibilidade de eu cancelar meu projeto por birra sua. — tentei não soar tão grosseiro, mas era quase impossível.
Ela respirou fundo, me encarou direto nos olhos e se levantou da mesa.
— Saiba que não existe a menor chance de eu aceitar esse contrato.
Em um impulso, segurei seu pulso para impedi-la de ir. Ela me olhou por alguns segundos e, ao perceber o toque, se soltou.
— Ok. — respirei fundo, já arrependido — Eu não vou destruir o museu.
Ela arqueou a sobrancelha, desconfiada.
— Preciso de um comprovante. Faça um documento e assine. Sem isso, não me caso com você.
Aquela postura confiante era insuportável.
— Ainda hoje envio para o seu e-mail. E amanhã mesmo entraremos em contato com o advogado para começar a papelada do casamento.
Ela assentiu, virou as costas e foi embora, me deixando ali sentado feito um idiøta. Um idiøta que não conseguiu tirar os olhos da bundå dela até que sumisse da minha vista.
Eu nem lembrava que ela era tão estranhamente atraente.
Balancei a cabeça, me repreendendo mentalmente. Que merda eu estava pensando? Ela é uma maníaca. Não tem nada de atraente nisso.
Saí dos meus devaneios e chamei o garçom com um gesto rápido. Assim que paguei a conta, caminhei até o carro com passos decididos. Agora, eu precisava dar um jeito naquela papelada maldita e repensar completamente o local do meu projeto. Aquela ideia, que até então parecia tão sólida, agora não fazia mais sentido.
No painel do carro, disquei para Julian.
— Fala, queridão — atendeu no terceiro toque, com o tom habitual.
— Não vamos mais demolir a Casa Blasco Ibáñez.
O silêncio que veio em seguida foi pesado, denso, como se ele tivesse parado de respirar por um segundo.
— O quê? Você tá bem? — a voz dele veio carregada de preocupação, bem mais séria do que o normal.
— Estou chegando na empresa. A gente conversa melhor pessoalmente — respondi, seco.
— Certo...
Desliguei e pisei fundo no acelerador. Em poucos minutos, estava entrando no prédio da empresa. Caminhei direto para minha sala, onde encontrei Gael e Julian me esperando com expressões inquisidoras.
— Que pørra aconteceu pra você desistir do projeto assim? — Julian explodiu, claramente indignado.
— Cloe disse que só assina o contrato de casamento se eu desistir da demolição — falei, sem rodeios. — Não me sobrou muita escolha.
Gael soltou uma risada debochada.
— Que jogada! Essa mulher é boa — comentou, divertido.
Lancei um olhar fulminante, e ele calou na hora.
— Então vocês vão mesmo casar? — Julian perguntou, com as sobrancelhas erguidas.
— Ao que tudo indica, sim.
Um sorriso surgiu nos lábios dele, nada sutil e cheio de segundas intenções.
— Nesse caso, você precisa de uma despedida de solteiro à altura. Especialmente porque o contrato exige fidelidade mútua, né? — disse, com um brilho malicioso nos olhos.
Não consegui conter o riso. A ideia, confesso, tinha um certo apelo.
— Que tal uma boate hoje à noite?
— Perfeita — respondi, mais leve.
— Eu também tô dentro — Gael disse, servindo-se de uísque como se já estivéssemos comemorando. — E, aliás, acho que a despedida pode começar agora mesmo.
(...)
Assim que o expediente terminou, segui com Julian e Gael para o Mya Club. Durante o trajeto, minha mente não parava de voltar ao contrato. Eu havia enviado para Cloe toda a documentação que comprovava minha palavra de que não pretendia demolir o museu. Ainda não tinha recebido resposta, mas era impossível acreditar que ela não tivesse visto o e-mail. A incerteza me corroía.
Uma parte de mim repetia que tudo aquilo era uma loucura sem tamanho. Casar com alguém que odeio, me amarrar a uma situação completamente fora da minha zona de conforto… parecia insanidade. Mas a outra parte — a que clamava por respostas sobre quem eu sou e sobre meu passado — falava mais alto. E essa voz, por mais que fosse desconfortável, era impossível de ignorar. Um ano ao lado de alguém que me provoca repulsa e que não poderia ser mais diferente de mim será um inferno, mas a sensação de viver sem respostas… essa é ainda pior.
Saí dos pensamentos assim que estacionei. A fila para entrar estava longa, mas sobrenomes como os nossos abrem portas com mais facilidade do que qualquer ingresso VIP. Me aproximei de Julian e Gael, que já trocava palavras com o segurança, e em poucos minutos estávamos com as pulseiras da área reservada e atravessando a entrada principal. Hoje o lugar estava mais cheio do que em todas as outras vezes em que vim. Imaginei que algum DJ famoso estivesse na programação.
— Vamos pegar uma bebida? — sugeriu Julian, e concordamos sem pensar muito.
Seguimos até o bar e fizemos nossos pedidos. Enquanto esperávamos, me permiti observar o ambiente. O som alto, as luzes piscando, as pessoas dançando com a confiança de quem esqueceu os problemas lá fora. Eu precisava aproveitar minha última noite de solteiro, mesmo que parte de mim ainda estivesse atolada em dúvidas.
Meus olhos passearam pelo salão até que, alguns metros adiante, uma figura capturou minha atenção. Comecei reparando nos pés, calçados por um salto fino preto. Subi o olhar lentamente: pernas grossas, torneadas, um quadril largo que quase roubava o ar de quem olhasse por tempo demais. Ela vestia um curto vestido rosa, ajustado ao corpo na medida certa, com as costas nuas revelando uma pele iluminada sob as luzes do clube. O cabelo loiro estava preso em um coque displicente, como se ela não tivesse se esforçado — mas fosse impossível não notar.
Meu corpo se animou e, assim que peguei a bebida, comecei a caminhar na direção dela. Quando me aproximei o suficiente, toquei em seu ombro, já preparando meu melhor charme. Mas, no instante em que ela virou, o sorriso grande que trazia no rosto sumiu — e o meu também.
— O que você quer, Damian? — Cloe perguntou, nitidamente sem paciência.
Ainda em choque com o que estava prestes a fazer, tentei fingir normalidade e soltei a primeira coisa que me veio à cabeça:
— Viu meu e-mail?
Sério… quem, em sã consciência, perguntaria isso numa balada? A verdade é que eu ainda não conseguia acreditar que tinha cogitado flertar com ela antes de saber que era ela.
Cloe me olhou incrédula e bufou.
— Vi por cima. Ainda não tive tempo de ler. Assim que eu fizer isso, aviso. — Finalizou com um tom carregado de ironia.
Apenas assenti e me afastei, voltando para onde Julian e Gael me observavam com curiosidade.
— O que foi falar com ela? — Gael quis saber.
— Sobre o documento que enviei e ela não respondeu — menti.
Ainda estava tentando processar o que havia acabado de acontecer. Eu quase flertei com ela. Quase flertei com Cloe Aguilar. Se ela não tivesse virado rápido, provavelmente eu teria soltado uma cantada — e ela com certeza me zombaria pelo resto da vida.
Mas… naquela noite, ela estava diferente. Muito diferente.
Ou eu havia endoidado de vez.