A descoberta e confronto

1590 Palavras
O tempo passou… E, aos poucos… Victor foi desaparecendo. As mensagens continuavam. “Tô com muito trabalho…” “Não tô conseguindo sair…” “Depois a gente se vê…” Mas ele não aparecia. Não ligava. Não estava presente. E, mesmo assim… Camila ainda esperava. — Até aquele dia. Ela recebeu um trabalho extra. Um jantar. Em uma casa grande. Elegante. Familiar. Ela aceitou. Precisava do dinheiro. — Quando chegou… Sentiu um leve aperto no peito. Algo estranho. Mas ignorou. Colocou o uniforme. Prendeu o cabelo. E começou a trabalhar. Servindo. Sorrindo. Sendo invisível. — A casa estava linda. Mesa posta. Luzes quentes. Cerca de vinte convidados. Um jantar importante. De negócios. — E então… Ele chegou. Alonso. Na cadeira de rodas. Imponente. Mesmo sentado. Os olhos dele percorreram o ambiente… Até encontrarem ela. Camila. Servindo. Sorrindo. Sem saber que estava no centro de tudo. O olhar dele mudou na hora. Mais escuro. Mais atento. Mais… possessivo. Ele não tirou os olhos dela. Nem por um segundo. — Camila ainda não tinha visto. Ainda não sabia. — Até que… O som de passos na escada chamou atenção. Todos olharam. E então… Eles apareceram. Victor. De mãos dadas com Larissa. Sorrindo. Como um casal perfeito. Como uma família. — Camila travou. A bandeja em suas mãos tremeu. O coração… Parou. Por um segundo. Os olhos ficaram fixos. Sem piscar. Sem reação. Mas ela não chorou. Não ali. Não na frente de todos. Ela engoliu seco. E continuou. — — Um minuto da atenção de todos! — disse o pai de Larissa. O silêncio tomou conta da sala. — Como todos sabem… minha filha está grávida. Sorrisos. Olhares felizes. — Em breve, o herdeiro vai nascer. Larissa acariciou a barriga. Victor sorriu. — E meu genro… foi promovido. Mais aplausos. — Então esse jantar é para celebrar tudo isso. — Cada palavra… Era uma faca. — Camila respirou fundo. Tentando não quebrar. Tentando não cair. Tentando não existir. — Alonso observava tudo. Cada detalhe. Cada micro expressão. Cada tremor. Ele viu. A dor. A surpresa. A decepção. Tudo. E aquilo… Acendeu algo nele. Algo perigoso. — Camila se afastou discretamente. Indo para um canto mais reservado. A respiração falhando. — Não pode ser… — sussurrou. — Não pode ser… As mãos tremiam. O mundo girava. — — Vamos precisar de você pra servir a mesa — disse outra funcionária. Ela fechou os olhos por um segundo. Se recompondo. — Claro… claro… Respirou fundo. E voltou. — Pegou outra bandeja. E continuou. Como se nada tivesse acontecido. — Até que… Victor a viu. — O sorriso dele desapareceu na hora. O corpo travou. O olhar arregalado. Pânico. — Camila se aproximou. As mãos tremendo. Mas o rosto… profissional. Frio. Distante. — Senhor… Ele pegou a pequena tigela de caldo das mãos dela. Sem conseguir dizer nada. — Tá tudo bem, amor? — Larissa perguntou, sorrindo. — Tá… tá tudo bem — ele respondeu, forçando. Larissa olhou para Camila. — Ela é muito boa. Alonso, próximo, ouviu tudo. Silencioso. Observando. — — Lembra que você disse que a casa estava ficando mais limpa? — Larissa continuou. — É ela que tem limpado aqui. Um segundo de silêncio. Pesado. — E como eu gostei tanto dela… chamei pra trabalhar hoje também. Victor não conseguia reagir. Não conseguia falar. Não conseguia respirar direito. — Camila manteve a postura. Mesmo destruída por dentro. — Obrigada, senhora Larissa… pelo convite. A voz saiu firme. Controlada. — Com licença… preciso voltar pra cozinha. — Claro, querida — Larissa sorriu. — Camila virou. E saiu. Passo firme. Mas por dentro… Ela estava desmoronando. — Na cozinha… Assim que ficou sozinha… A bandeja caiu na bancada com força. Ela segurou na pia. Respirando rápido. Os olhos cheios. Mas as lágrimas ainda não caíam. — Ele… mentiu… A voz saiu quebrada. Baixa. Dolorida. — Ele mentiu pra mim o tempo todo… — Do lado de fora… Alonso não tirava os olhos da direção da cozinha. O maxilar travado. Os punhos fechados. Agora… Não era mais só interesse. Nem só proteção. Era guerra. — E dessa vez… Victor tinha cruzado uma linha… Que não tinha volta. Camila aguentou. Até o último segundo. Até o último prato servido. Até o último sorriso forçado. — Mas quando saiu daquela casa… Ela não era mais a mesma. Caminhou sem rumo. Sem pensar. Sem sentir o próprio corpo. Só… andando. — Alguns quilômetros depois… Ela encontrou uma praça. Vazia. Silenciosa. Fria. Sentou em um banco. E ali… Ela finalmente quebrou. Encolheu o corpo. Abraçou as próprias pernas. E chorou. Sem controle. Sem força. Sem vergonha. Como alguém que perdeu tudo. — Do outro lado da rua… Dentro de um carro escuro… Alonso observava. Em silêncio. Os olhos fixos nela. Cada lágrima. Cada tremor. Cada pedaço dela se quebrando. E aquilo… Doía. De um jeito que ele não conhecia. — Até que… Faróis se aproximaram. Outro carro. Alonso já sabia. — Ele veio… A voz saiu baixa. Fria. — Victor desceu do carro apressado. — Camila! Espera! Ela levantou o rosto devagar. Os olhos verdes inchados. Vermelhos. O rosto marcado pelas lágrimas. — — Explicar? — ela repetiu, rindo sem humor. — Você quer explicar? Ele se aproximou. — Camila, eu posso explicar— — Por que você não terminou comigo por mensagem? Silêncio. — Ou melhor… — ela continuou — por que você não terminou comigo? Os olhos dela queimavam agora. — Ah, eu lembro… Ela deu um sorriso amargo. — Você precisava do dinheiro, né? — Do carro… Alonso apertou o punho. Com força. — — Eu fiquei lá no interior… — a voz dela começou a tremer — trabalhando na roça… em lanchonete… em qualquer coisa… Ela limpou o rosto com raiva. — E todo dinheiro que eu ganhava… eu mandava pra você! Victor abaixou o olhar. — Pelo menos cinquenta… sessenta por cento! A voz dela quebrou. — Eu não ficava com nada pra mim, Victor! Silêncio pesado. — — Mas tudo bem… — ela riu, chorando — porque eu tinha um sonho, né? Olhou direto pra ele. — Você. — Alonso fechou os olhos por um segundo. Aquilo… Era demais. — — Você disse que vinha pra cidade grande… estudar… crescer… — ela continuou — e que quando estivesse pronto, ia me chamar pra gente casar. Ela respirou fundo. — E eu acreditei. — — Camila… me perdoa… — Perdoar? — ela riu. — A Larissa é uma mulher maravilhosa. Victor travou. — Ela não merece saber o tipo de homem que você é. Silêncio. — Fica tranquilo… eu não vou falar nada pra ela. Os olhos dela ficaram frios. — Eu não vou destruir a vida dela… como você destruiu a minha. — Alonso observava. Imóvel. Mas por dentro… Era uma tempestade. — — Eu limpei a sua casa, Victor… — ela disse, a voz quase falhando — a casa onde você mora com ela… Ele fechou os olhos. — Eu tava lá… na sua casa… e nem sabia… — — Eu devia ter percebido — ela continuou — desde o dia que cheguei… você m*l me abraçou… não deixou eu te beijar… Ela respirou fundo. — E ainda me deu dinheiro… como se fosse esmola. — Victor tentou se aproximar. — Eu tava esperando meu filho nascer e— — PARA! O grito ecoou na praça. — Você acha que eu sou i****a? As lágrimas voltaram com força. — Você acha que eu vou acreditar que você ia largar ela? Ela balançou a cabeça. — Pelo amor de Deus… — Silêncio. Só o som do choro dela. — — Eu sei me virar — ela disse, mais baixa agora — eu sempre soube. Olhou pra ele. — Eu não preciso de você. — — Então volta pro interior… — ele disse, tentando recuperar o controle. Ela congelou. — Voltar? Riu. Sem humor. Sem vida. — Você quer que eu volte… porque tem medo de eu falar alguma coisa pra sua esposa? — Não é isso— — Meu nome você esqueceu, né? Ele travou. — Camila… desculpa… — Ela passou a mão no rosto. Respirou fundo. E então disse: — Eu não vou voltar. — — Por quê? — Ela olhou direto nos olhos dele. E sorriu. Um sorriso triste. Cansado. — Porque eu fugi de lá. — Victor franziu a testa. — Como assim? — — Minha mãe me vendeu. Silêncio. Pesado. — — Pra um homem chamado Marcão. A voz saiu firme. — Ele ia pagar quinhentos mil pra casar comigo. Victor empalideceu. — O quê…? — Ele já enterrou cinco mulheres. Pausa. — Você acha que eu ia ser a sexta? — Do carro… Alonso ficou imóvel. Os olhos escureceram completamente. — — Minha mãe disse que você não prestava… — Camila continuou — e sabe de uma coisa? Ela riu, chorando. — Ela tava certa. — Silêncio. Final. — — Eu não vou voltar pra lá — ela disse. — Não vou voltar pra ser vendida… pra salvar a vida deles… enquanto eu morro. Ela respirou fundo. E deu um passo pra trás. — Cuida da sua família. A voz agora estava calma. Vazia. — Some da minha vida. — Victor tentou falar. — Camila, eu— — Já deu. Ela virou. Sem olhar pra trás. — E foi embora. — Alonso observou. Cada passo. Cada pedaço dela indo embora… Mais forte do que quando chegou. Mesmo quebrada. — Ele abriu a porta do carro. Devagar. — Porque agora… Não era mais uma escolha. Era destino.
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