O tempo passou…
E, aos poucos…
Victor foi desaparecendo.
As mensagens continuavam.
“Tô com muito trabalho…”
“Não tô conseguindo sair…”
“Depois a gente se vê…”
Mas ele não aparecia.
Não ligava.
Não estava presente.
E, mesmo assim…
Camila ainda esperava.
—
Até aquele dia.
Ela recebeu um trabalho extra.
Um jantar.
Em uma casa grande.
Elegante.
Familiar.
Ela aceitou.
Precisava do dinheiro.
—
Quando chegou…
Sentiu um leve aperto no peito.
Algo estranho.
Mas ignorou.
Colocou o uniforme.
Prendeu o cabelo.
E começou a trabalhar.
Servindo.
Sorrindo.
Sendo invisível.
—
A casa estava linda.
Mesa posta.
Luzes quentes.
Cerca de vinte convidados.
Um jantar importante.
De negócios.
—
E então…
Ele chegou.
Alonso.
Na cadeira de rodas.
Imponente.
Mesmo sentado.
Os olhos dele percorreram o ambiente…
Até encontrarem ela.
Camila.
Servindo.
Sorrindo.
Sem saber que estava no centro de tudo.
O olhar dele mudou na hora.
Mais escuro.
Mais atento.
Mais… possessivo.
Ele não tirou os olhos dela.
Nem por um segundo.
—
Camila ainda não tinha visto.
Ainda não sabia.
—
Até que…
O som de passos na escada chamou atenção.
Todos olharam.
E então…
Eles apareceram.
Victor.
De mãos dadas com Larissa.
Sorrindo.
Como um casal perfeito.
Como uma família.
—
Camila travou.
A bandeja em suas mãos tremeu.
O coração…
Parou.
Por um segundo.
Os olhos ficaram fixos.
Sem piscar.
Sem reação.
Mas ela não chorou.
Não ali.
Não na frente de todos.
Ela engoliu seco.
E continuou.
—
— Um minuto da atenção de todos! — disse o pai de Larissa.
O silêncio tomou conta da sala.
— Como todos sabem… minha filha está grávida.
Sorrisos.
Olhares felizes.
— Em breve, o herdeiro vai nascer.
Larissa acariciou a barriga.
Victor sorriu.
— E meu genro… foi promovido.
Mais aplausos.
— Então esse jantar é para celebrar tudo isso.
—
Cada palavra…
Era uma faca.
—
Camila respirou fundo.
Tentando não quebrar.
Tentando não cair.
Tentando não existir.
—
Alonso observava tudo.
Cada detalhe.
Cada micro expressão.
Cada tremor.
Ele viu.
A dor.
A surpresa.
A decepção.
Tudo.
E aquilo…
Acendeu algo nele.
Algo perigoso.
—
Camila se afastou discretamente.
Indo para um canto mais reservado.
A respiração falhando.
— Não pode ser… — sussurrou. — Não pode ser…
As mãos tremiam.
O mundo girava.
—
— Vamos precisar de você pra servir a mesa — disse outra funcionária.
Ela fechou os olhos por um segundo.
Se recompondo.
— Claro… claro…
Respirou fundo.
E voltou.
—
Pegou outra bandeja.
E continuou.
Como se nada tivesse acontecido.
—
Até que…
Victor a viu.
—
O sorriso dele desapareceu na hora.
O corpo travou.
O olhar arregalado.
Pânico.
—
Camila se aproximou.
As mãos tremendo.
Mas o rosto… profissional.
Frio.
Distante.
— Senhor…
Ele pegou a pequena tigela de caldo das mãos dela.
Sem conseguir dizer nada.
— Tá tudo bem, amor? — Larissa perguntou, sorrindo.
— Tá… tá tudo bem — ele respondeu, forçando.
Larissa olhou para Camila.
— Ela é muito boa.
Alonso, próximo, ouviu tudo.
Silencioso.
Observando.
—
— Lembra que você disse que a casa estava ficando mais limpa? — Larissa continuou. — É ela que tem limpado aqui.
Um segundo de silêncio.
Pesado.
— E como eu gostei tanto dela… chamei pra trabalhar hoje também.
Victor não conseguia reagir.
Não conseguia falar.
Não conseguia respirar direito.
—
Camila manteve a postura.
Mesmo destruída por dentro.
— Obrigada, senhora Larissa… pelo convite.
A voz saiu firme.
Controlada.
— Com licença… preciso voltar pra cozinha.
— Claro, querida — Larissa sorriu.
—
Camila virou.
E saiu.
Passo firme.
Mas por dentro…
Ela estava desmoronando.
—
Na cozinha…
Assim que ficou sozinha…
A bandeja caiu na bancada com força.
Ela segurou na pia.
Respirando rápido.
Os olhos cheios.
Mas as lágrimas ainda não caíam.
— Ele… mentiu…
A voz saiu quebrada.
Baixa.
Dolorida.
— Ele mentiu pra mim o tempo todo…
—
Do lado de fora…
Alonso não tirava os olhos da direção da cozinha.
O maxilar travado.
Os punhos fechados.
Agora…
Não era mais só interesse.
Nem só proteção.
Era guerra.
—
E dessa vez…
Victor tinha cruzado uma linha…
Que não tinha volta.
Camila aguentou.
Até o último segundo.
Até o último prato servido.
Até o último sorriso forçado.
—
Mas quando saiu daquela casa…
Ela não era mais a mesma.
Caminhou sem rumo.
Sem pensar.
Sem sentir o próprio corpo.
Só… andando.
—
Alguns quilômetros depois…
Ela encontrou uma praça.
Vazia.
Silenciosa.
Fria.
Sentou em um banco.
E ali…
Ela finalmente quebrou.
Encolheu o corpo.
Abraçou as próprias pernas.
E chorou.
Sem controle.
Sem força.
Sem vergonha.
Como alguém que perdeu tudo.
—
Do outro lado da rua…
Dentro de um carro escuro…
Alonso observava.
Em silêncio.
Os olhos fixos nela.
Cada lágrima.
Cada tremor.
Cada pedaço dela se quebrando.
E aquilo…
Doía.
De um jeito que ele não conhecia.
—
Até que…
Faróis se aproximaram.
Outro carro.
Alonso já sabia.
— Ele veio…
A voz saiu baixa.
Fria.
—
Victor desceu do carro apressado.
— Camila! Espera!
Ela levantou o rosto devagar.
Os olhos verdes inchados.
Vermelhos.
O rosto marcado pelas lágrimas.
—
— Explicar? — ela repetiu, rindo sem humor. — Você quer explicar?
Ele se aproximou.
— Camila, eu posso explicar—
— Por que você não terminou comigo por mensagem?
Silêncio.
— Ou melhor… — ela continuou — por que você não terminou comigo?
Os olhos dela queimavam agora.
— Ah, eu lembro…
Ela deu um sorriso amargo.
— Você precisava do dinheiro, né?
—
Do carro…
Alonso apertou o punho.
Com força.
—
— Eu fiquei lá no interior… — a voz dela começou a tremer — trabalhando na roça… em lanchonete… em qualquer coisa…
Ela limpou o rosto com raiva.
— E todo dinheiro que eu ganhava… eu mandava pra você!
Victor abaixou o olhar.
— Pelo menos cinquenta… sessenta por cento!
A voz dela quebrou.
— Eu não ficava com nada pra mim, Victor!
Silêncio pesado.
—
— Mas tudo bem… — ela riu, chorando — porque eu tinha um sonho, né?
Olhou direto pra ele.
— Você.
—
Alonso fechou os olhos por um segundo.
Aquilo…
Era demais.
—
— Você disse que vinha pra cidade grande… estudar… crescer… — ela continuou — e que quando estivesse pronto, ia me chamar pra gente casar.
Ela respirou fundo.
— E eu acreditei.
—
— Camila… me perdoa…
— Perdoar? — ela riu. — A Larissa é uma mulher maravilhosa.
Victor travou.
— Ela não merece saber o tipo de homem que você é.
Silêncio.
— Fica tranquilo… eu não vou falar nada pra ela.
Os olhos dela ficaram frios.
— Eu não vou destruir a vida dela… como você destruiu a minha.
—
Alonso observava.
Imóvel.
Mas por dentro…
Era uma tempestade.
—
— Eu limpei a sua casa, Victor… — ela disse, a voz quase falhando — a casa onde você mora com ela…
Ele fechou os olhos.
— Eu tava lá… na sua casa… e nem sabia…
—
— Eu devia ter percebido — ela continuou — desde o dia que cheguei… você m*l me abraçou… não deixou eu te beijar…
Ela respirou fundo.
— E ainda me deu dinheiro… como se fosse esmola.
—
Victor tentou se aproximar.
— Eu tava esperando meu filho nascer e—
— PARA!
O grito ecoou na praça.
— Você acha que eu sou i****a?
As lágrimas voltaram com força.
— Você acha que eu vou acreditar que você ia largar ela?
Ela balançou a cabeça.
— Pelo amor de Deus…
—
Silêncio.
Só o som do choro dela.
—
— Eu sei me virar — ela disse, mais baixa agora — eu sempre soube.
Olhou pra ele.
— Eu não preciso de você.
—
— Então volta pro interior… — ele disse, tentando recuperar o controle.
Ela congelou.
— Voltar?
Riu.
Sem humor.
Sem vida.
— Você quer que eu volte… porque tem medo de eu falar alguma coisa pra sua esposa?
— Não é isso—
— Meu nome você esqueceu, né?
Ele travou.
— Camila… desculpa…
—
Ela passou a mão no rosto.
Respirou fundo.
E então disse:
— Eu não vou voltar.
—
— Por quê?
—
Ela olhou direto nos olhos dele.
E sorriu.
Um sorriso triste.
Cansado.
— Porque eu fugi de lá.
—
Victor franziu a testa.
— Como assim?
—
— Minha mãe me vendeu.
Silêncio.
Pesado.
—
— Pra um homem chamado Marcão.
A voz saiu firme.
— Ele ia pagar quinhentos mil pra casar comigo.
Victor empalideceu.
— O quê…?
— Ele já enterrou cinco mulheres.
Pausa.
— Você acha que eu ia ser a sexta?
—
Do carro…
Alonso ficou imóvel.
Os olhos escureceram completamente.
—
— Minha mãe disse que você não prestava… — Camila continuou — e sabe de uma coisa?
Ela riu, chorando.
— Ela tava certa.
—
Silêncio.
Final.
—
— Eu não vou voltar pra lá — ela disse. — Não vou voltar pra ser vendida… pra salvar a vida deles… enquanto eu morro.
Ela respirou fundo.
E deu um passo pra trás.
— Cuida da sua família.
A voz agora estava calma.
Vazia.
— Some da minha vida.
—
Victor tentou falar.
— Camila, eu—
— Já deu.
Ela virou.
Sem olhar pra trás.
—
E foi embora.
—
Alonso observou.
Cada passo.
Cada pedaço dela indo embora…
Mais forte do que quando chegou.
Mesmo quebrada.
—
Ele abriu a porta do carro.
Devagar.
—
Porque agora…
Não era mais uma escolha.
Era destino.