Fundo.

503 Palavras
Depois daquele momento na sala, tudo pareceu… estranho. Não havia acontecido nada. Nenhuma palavra fora do lugar. Nenhum toque proposital. Nenhum gesto claro. Mas o quase ainda estava ali, ecoando dentro de mim. Passei o resto da tarde tentando me concentrar, mas minha mente voltava repetidamente ao instante em que ele se inclinou. Ao segundo em que o silêncio pareceu pesado demais. Ao modo como ele se afastou. Foi isso. Ele se afastou. Não por desconforto. Mas por escolha. Quando o vi novamente, já no fim do dia, percebi imediatamente. Khalil estava diferente. Não na aparência. Não na postura. Mas no comportamento. Ele falava com meu pai, revisava documentos, fazia perguntas… tudo normal. Mas não me incluía diretamente. Quando eu comentava algo, ele respondia com educação, porém sem prolongar a conversa. Formal. Controlado. Distante. Como se tivesse colocado um limite invisível entre nós. Aquilo me incomodou mais do que deveria. Eu deveria estar aliviada. Era o correto. Era o esperado. Então por que parecia… errado? Peguei uma pasta e levei até a mesa do meu pai. Khalil estava ao lado dele. Entreguei os documentos. — Já revisei os prazos — falei. Meu pai pegou. — Ótimo. Khalil apenas assentiu. — Está organizado. Só isso. Nada além disso. Antes, ele teria feito um comentário a mais. Perguntado algo. Mantido a atenção por alguns segundos. Agora não. Ele voltou a olhar para a tela do notebook. Como se eu fosse apenas parte do ambiente. Voltei para minha mesa. Irritada comigo mesma por me importar. Passei a mão pelo cabelo e respirei fundo. — Concentra — murmurei. Mas não era simples. O silêncio dele parecia mais alto do que qualquer conversa. No meio da tarde, precisei confirmar um detalhe. Levantei e fui até ele. — Khalil, sobre a autorização… Ele ergueu o olhar. — Sim? — Preciso confirmar se enviamos hoje ou amanhã. Ele pensou por um segundo. — Amanhã. Assim temos tempo de revisar. — Certo. Esperei. Nada. Ele voltou a olhar para o notebook. A conversa tinha terminado. Sem pausa. Sem continuidade. Voltei para minha mesa sentindo algo estranho no peito. Não era exatamente frustração. Era… ausência. No final do expediente, meu pai saiu primeiro para uma reunião. Eu ainda organizava algumas folhas quando percebi que Khalil também se levantava. Ele pegou a pasta, ajeitou o terno e caminhou em direção à porta. Por impulso, levantei o olhar. — Até amanhã — falei. Ele parou. — Até amanhã, Maitê. Educado. Calmo. Distante. Ele saiu. A porta se fechou. E o silêncio ficou. Mais pesado do que deveria. Encostei-me na cadeira e respirei fundo. O escritório estava quase vazio agora. Algumas luzes apagadas, passos distantes no corredor. Passei a mão pelo rosto. Por que aquilo me afetava? Era apenas comportamento profissional. Nada mais. Mas, mesmo tentando me convencer, eu sabia. Algo tinha mudado. E não era só nele. Era em mim também. Porque, enquanto recolhia minhas coisas, uma verdade ficou clara: Eu sentia falta da atenção dele. E isso era mais perigoso do que qualquer
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