Começo

787 Palavras
A briga continuava. Gritos. Empurrões. Copos caindo no chão. A música ainda tocava, como se nada daquilo estivesse acontecendo, criando um contraste estranho, quase absurdo. Mas para mim… Tudo tinha ficado em silêncio. Porque, pela primeira vez, eu sabia exatamente o que precisava fazer. Olhei para Lucas. Ele ainda estava ali, na minha frente, esperando alguma reação minha, alguma explicação, qualquer coisa que fizesse sentido para ele. Mas não havia mais nada para explicar. Eu respirei fundo. — A gente precisa conversar. Ele riu, nervoso. — Agora? — Agora. Meu tom saiu mais firme do que eu esperava. Sem espaço para discussão. Sem espaço para fuga. Ele percebeu. Deu um passo mais perto. — Maitê, olha ao redor. Não é o melhor momento. — É exatamente o momento. Ele passou a mão pelo cabelo, claramente irritado. — Você tá fazendo isso por causa dessa festa ridícula? Balancei a cabeça. — Não. Fiz uma pausa. Sentindo cada palavra antes de dizer. — Eu estou fazendo isso porque… já não faz mais sentido. O olhar dele mudou. — O quê? — A gente. O silêncio entre nós foi instantâneo. Mesmo com o caos ao redor. Mesmo com tudo acontecendo ao mesmo tempo. Parecia que o mundo tinha parado ali. — Para com isso — ele disse, mais baixo. — Você não está falando sério. Mas eu estava. Pela primeira vez, completamente. — Eu estou, Lucas. Ele negou com a cabeça, rindo sem humor. — Isso é só uma fase. Você tá estressada, só isso. — Não. Minha voz saiu mais suave dessa vez. Mas ainda firme. — Eu estou cansada. — De mim? Fechei os olhos por um segundo. — De tentar encaixar algo que já não cabe mais. Aquilo o atingiu. Eu vi. No jeito que ele ficou em silêncio. No jeito que ele me olhou, como se estivesse tentando encontrar alguma falha naquilo tudo. — Eu fiz alguma coisa? — perguntou ele. A pergunta veio sincera. E isso… doeu. Balancei a cabeça devagar. — Você é exatamente quem sempre foi. E essa era a verdade. Lucas não tinha mudado. Eu que tinha. — Então qual é o problema? Respirei fundo. E dessa vez não evitei. — Eu não me reconheço mais nisso. Ele ficou em silêncio. Confuso. Perdido. — Isso aqui — continuei, gesticulando levemente — essas festas, essas discussões, esses jogos… já não fazem mais sentido pra mim. Ele passou a mão pelo rosto. — Você tá dizendo que eu sou infantil? Hesitei por um segundo. Mas não menti. — Às vezes… sim. Aquilo foi o golpe final. Ele recuou um passo. Como se tivesse sido empurrado. — Uau. A palavra saiu seca. — Então é isso? Você simplesmente acordou um dia e decidiu que é melhor do que eu? Franzi a testa. — Não é sobre ser melhor. — Parece muito que é. — É sobre ser diferente agora. O silêncio voltou. Mas dessa vez era pesado. Desconfortável. Definitivo. Lucas olhou ao redor. A festa. As pessoas. A confusão. E depois voltou a me encarar. — E você acha que vai encontrar alguém melhor? A pergunta veio carregada. Não de curiosidade. De ego ferido. Eu não respondi de imediato. Porque não era sobre isso. Nunca foi. — Eu acho que eu preciso me encontrar primeiro. Ele soltou uma risada curta. Sem graça. Sem leveza. — Você tá ficando estranha, Maitê. Talvez. Mas, pela primeira vez… Eu não me importei. Dei um pequeno passo para trás. Criando distância. Definitiva. — Eu sinto muito, Lucas. E eu sentia. De verdade. Mas não o suficiente para continuar. Ele me encarou por mais alguns segundos. Como se esperasse que eu voltasse atrás. Que eu mudasse de ideia. Mas eu não mudei. Porque, no fundo… Aquilo já tinha acabado muito antes daquele momento. Ele desviou o olhar primeiro. Assentiu de leve. — Tá. Uma única palavra. Mas carregada de tudo. — Então acabou. Meu coração apertou. Mas não por dúvida. Por fim. — Acabou. Ele não disse mais nada. Só virou as costas. E foi embora. Sem olhar para trás. Fiquei ali, parada. Sentindo o peso daquele momento. Mas também… Algo novo. Algo leve. Como se eu tivesse acabado de soltar algo que já estava me prendendo há tempo demais. Respirei fundo. O ar entrou mais fácil. Mais limpo. Levantei o olhar. E, como se fosse inevitável… Eu o encontrei. Khalil. Ainda ali. Observando. Mas dessa vez… Havia algo diferente no olhar dele. Não era julgamento. Nem curiosidade. Era… atenção. Profunda. Silenciosa. Como se ele tivesse entendido exatamente o que tinha acabado de acontecer. E talvez tivesse. Desviei o olhar primeiro. Mas, dessa vez… Não foi por desconforto. Foi porque, de alguma forma… Eu sabia. Aquilo… Era só o começo.
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