Fred ainda estava me encarando com raiva, mas ignorei. Não valia a pena.
O vestiário já estava quase vazio quando saí, fui direto para as arquibancadas do ginásio.
Logo na primeira fileira, sentada como se fosse dona do lugar, estava Milla Walton. A loira mais cobiçada do colégio, capitã do time de cheerleading, e o pior de tudo, namorada oficial do Liam.
Ela estava cercada por suas sombras fiéis, Emma e Madson, também conhecidas como as escoteiras, porque seguiam Milla em tudo, desde as roupas até as opiniões. Elas riam de algo que ela acabara de dizer.
Milla estava linda, como sempre. Cabelos longos e lisos, jeans justo e um top que deixava claro que não estava ali só para assistir ao treino.
Meu corpo se acomodou no banco de madeira. Curvei-me para frente, focanda totalmente na tarefa de amarrar os cadarços do meu tênis Nike Air Force 1 Shadow, branco. O eco de vozes e o bater de bolas contra o piso ecoavam no ginásio, e a voz grave do treinador Harrison cortou o burburinho, impondo silêncio e ordem.
— Atenção, Falcões! — ele gritou, com as mãos em forma de megafone. Todos se ergueram, postura reta. — Miller, você comanda o time azul. Carter, você fica com o amarelo
MERDA.
Aquela combinação não ia dar certo. Era tipo jogar gasolina no fogo.
Minha cabeça girou instantaneamente para o lado, onde Tyler Carter estava, seu rosto se contorcendo em um misto de satisfação e ódio puro. O cara tinha uma rivalidade doentia com o Liam, e quem podia culpá-lo? Ele era tudo o que Tyler nunca seria: alto, talentoso, popular, e, vamos ser sinceros, um deus grego de shorts de basquete.
Tyler se aproximou de Liam devagar, estalando o pescoço.
— Bora logo, treinador. Tô doido pra começar e acabar com essa palhaçada, — provocou, ajeitando o colete no corpo.
Liam riu, um sorriso de canto, cheio de confiança.
— Fica tranquilo, Carter. Vai ser rápido mesmo. A gente termina esse treino em 15 minutos… e com você derrotado, como sempre.
— Fala isso agora, depois não chora. Eu vou humilhar você, Miller.
Liam nem pestanejou, apenas deu um sorriso largo e despreocupado.
— Sonha mais alto, Carter. Você não chega nem aos meus tornozelos.
O treinador apitou e a bola subiu. Jogo valendo.
O primeiro lance já mostrou que aquilo ali ia ser guerra. Tyler veio pra cima com tudo, driblando agressivo, trombando, querendo marcar território. Mas Liam era frio. Ele só recuava, observava, e na hora certa… boom. Roubava a bola, corria como um raio e fazia a cesta com estilo.
— Essa foi bonita, hein, Miller? Quer uma moldura? — Tyler gritou do fundo da quadra, tentando disfarçar a frustração com sarcasmo.
Liam só sorriu e levantou a mão, como quem diz: “Obrigado”.
O jogo seguiu quente. Ponto a ponto, marcação pesada, gritos, empurrões disfarçados, olhares atravessados. Em uma jogada rápida, Liam cortou pelo meio e fez uma cesta linda. Tyler não aguentou. Na jogada seguinte, veio com tudo e deu uma ombrada forte demais, desnecessária, fazendo Liam cair com tudo no chão. E o olhar dele mudou no mesmo instante que os pés tocaram o chão.
— QUAL É, TYLER?! — foi em direção ao rival. — Tá jogando ou tentando brigar, hein?
— Tô jogando. Se você não aguenta, sai da quadra.
— Ah, eu aguento. Então, é assim que quer jogar? — disse, o encarando com o maxilar travado.
Tyler fingiu surpresa, levantando as mãos.
— Relaxa, grandão. É só contato físico. Ou vai chorar por causa disso?
O time do Tyler caiu na risada. O do Liam ficou em silêncio.
Liam não respondeu. Apenas sorriu, mas foi um riso calmo, frio.
Dois lances depois, quando Tyler tentou passar por ele num drible, Liam fez um bloqueio tão firme que ele foi pro chão sem chance.
— FALTA! — Tyler se levantou furioso, empurrando Liam no peito.
Liam não se moveu. Só olhou para as mãos de Tyler no seu peito, depois encarou o rosto dele com frieza.
— Tira a mão de mim. — falou, com a voz baixa, e cheia de ameaça.
Me levantei do banco junto com o resto da arquibancada. O clima esquentou em segundos.
Tyler não tirou.
— Vai fazer o quê, Miller? Me bater?
Foi o estopim.
Liam agarrou a camisa do Tyler com uma mão só, puxando-o para bem perto.
— Tenta de novo. Vai. — ele rosnou.
O ginásio virou caos. Gritos, xingamentos, os outros se aproximando como se fosse briga de rua.
Até que, súbito e estridente, o apito do treinador explodiu no ar, um som tão agudo e autoritário que pareceu cortar a tensão como uma lâmina, congelando todos no lugar.
— CHEGA! — gritou entrando entre os dois. — Carter, BANCO. AGORA. — apontou. — Miller, se controla ou vai sair também.
Liam soltou Tyler com um empurrão seco, sem nem fingir arrependimento. Tyler cuspiu no chão e foi para o banco.
O técnico respirou fundo e encarou o time.
— Isso aqui é treino, não um episódio de UFC. Voltem pro foco.
Aos poucos, a quadra foi se acalmando, mas o clima tinha mudado. O time do Tyler ficou mais agressivo, mas o de Liam respondeu com mais união e força.
E no meio daquela tensão toda, eu não conseguia parar de olhar pro Liam.
Ele jogava com raiva agora. Cada passo, cada bloqueio, cada arremesso era como se estivesse mandando um recado.
E quando ele cravou uma bola de três pontos, nem comemorou. Só se virou e me olhou.
Como se eu fosse a única que importava ali.
Meu coração disparou.
Nesse momento Milla me olhou, erguendo uma das suas sobrancelhas perfeitas. Ela se levantou e subiu os poucos degraus da arquibancada que nos separava.
Emma e Madson a seguiram logo atrás. Milla chegou até mim e, sem pedir licença, sentou ao meu lado, jogando os cabelos para trás e deixando seu perfume doce tomar conta do ambiente.
— Ah, olha só. Roxie — ela puxou meu nome como se fosse um insulto.
— Milla. — respondi, seco.
Ela me olhou de lado, com aquele sorrisinho venenoso.
— Você acha que eu não percebo as coisas, Roxie? — falou baixo. — Eu sei do seu crush patético no meu namorado.
— Não tenho crush em ninguém. — menti.
Milla revirou os olhos.
— Ah, claro. Por isso que você fica babando toda vez que ele tira a camisa, né?
Madson e Emma soltaram uma risadinha.