O castelo despertava lentamente naquela manhã.
A luz pálida do inverno atravessava as janelas altas quando Theodor acordou com um som diferente do habitual. Não eram passos de guardas, nem o vento batendo contra as muralhas.
Era um choro baixo. Frágil. Vivo.
Ele se ergueu de imediato.
— Já estou indo… — murmurou, ainda rouco de sono, antes mesmo que você abrisse os olhos.
Você o observou em silêncio enquanto ele se aproximava do berço improvisado ao lado da cama. O menino se remexia, o rosto vermelho, os punhos fechados.
— Ei… — Theodor falou baixo, quase como se temesse assustá-lo. — Está tudo bem. O pai está aqui.
Pai.
A palavra ainda parecia estranha em sua boca.
Ele o pegou com cuidado excessivo, como se segurasse algo sagrado. O choro cessou pouco a pouco, substituído por um som suave de respiração.
— Ele reconhece você — você disse, com um sorriso cansado.
Theodor olhou para o filho, fascinado.
— Ele confia em mim…
A voz embargou.
— Mesmo sem saber quem eu fui.
Você se sentou devagar na cama.
— Você não é mais aquele homem.
Ele se aproximou, sentando-se ao seu lado, o bebê aninhado contra o peito.
— Passei a vida acreditando que força era silêncio.
Olhou para o menino.
— Mas ele me ensinou que força é ficar.
Você encostou a mão sobre o braço dele.
— E eu? — perguntou, com suavidade.
Theodor levantou o olhar.
— Você me ensinou o mesmo… mesmo quando eu não escutei.
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Dias depois, o salão principal voltou a se encher.
Mas desta vez, você entrou sozinha.
O murmúrio cessou quando seus passos ecoaram no chão de pedra. Vestia um vestido azul profundo, símbolo do Norte, os cabelos presos com simplicidade, o olhar firme.
Você não entrou como esposa.
Entrou como Duquesa.
Theodor observava do alto do estrado, orgulhoso, mas em silêncio. Aquela decisão era sua.
— Senhores e senhoras da corte — você começou, a voz clara. — Durante muito tempo, ocupei este lugar apenas por um contrato.
Alguns nobres trocaram olhares.
— Fui esposa por dever. Duquesa por nome.
Respirou fundo.
— Hoje, estou aqui por escolha.
Você caminhou alguns passos à frente.
— O Norte é uma terra dura. Sobrevive porque aprende a resistir.
O olhar percorreu o salão.
— E eu sobrevivi.
Houve silêncio absoluto.
— Meu filho não será criado pelo medo.
A voz firme.
— E este ducado não será governado pela ameaça.
Você pousou a mão sobre o símbolo do Norte.
— Sou a Duquesa do Norte.
Uma pausa.
— Não por casamento. Mas por força.
Um a um, os nobres se levantaram.
Inclinaram a cabeça.
Theodor fechou os olhos por um instante.
Aquilo… era amor.
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Naquela noite, ele a encontrou na varanda, envolta em um manto, observando as estrelas.
— Você não precisou de mim lá dentro — ele disse, aproximando-se.
Você sorriu de leve.
— Eu precisei de mim.
Ele riu baixo.
— E foi extraordinária.
Theodor colocou o bebê em seus braços.
— Ele dorme quando escuta sua voz.
Você embalou o menino, sentindo o peso quente e real daquela vida.
— Ele vai crescer sabendo quem somos.
Olhou para Theodor.
— Com erros. Com escolhas. Com amor.
Theodor se aproximou por trás, envolvendo vocês dois.
— Eu não prometo um reino perfeito.
Beijou sua têmpora.
— Mas prometo um lar.
Você fechou os olhos, encostando-se nele.
— Isso é tudo o que sempre quis.
O Norte permanecia frio.
Mas dentro daquelas muralhas, o inverno havia aprendido algo novo.
A amar.