Entre o Amor e as Sombras

1429 Palavras
Entre o Amor e as Sombras Clara desceu as escadas do prédio com passos rápidos, a respiração ainda em transe. O eco da discussão com Henrique vibrava em cada nervo. Suas palavras ainda queimavam como cicatrizes: “Você vai se arrepender.” Mas, quando leu a mensagem no celular — “Estou no terraço. Preciso te ver.” — tudo dentro dela mudou de ritmo. O medo ainda estava lá, mas o amor era mais forte. --- O terraço estava iluminado apenas pela lua, e Rafael já a esperava. Ao vê-la chegar, correu para encontrá-la, os braços abertos. Clara se jogou nele, o corpo inteiro tremendo. — O que aconteceu? — perguntou, segurando-lhe o rosto. As lágrimas vieram antes das palavras. — Eu contei. Contei tudo. Ele sabe. Rafael respirou fundo, fechando os olhos como se absorvesse o peso daquilo. Depois, a abraçou com força. — Você é corajosa, Clara. Mais do que imagina. — Ele vai atrás de mim. Vai atrás de você… — Então que venha — disse Rafael, firme. — O que temos não pode ser destruído tão fácil. Ela o beijou, desesperada, como se aquele fosse o último instante de paz. Os beijos se tornaram mais intensos, mais urgentes, até que se esqueceram do mundo. O terraço parecia suspenso no tempo, apenas os dois contra o universo. Ali, entre os lençóis improvisados e o vento frio, Clara sentiu-se inteira. Não havia mais máscaras, nem desculpas. Apenas a verdade: amava Rafael, e nada mudaria isso. --- Mas, longe dali, Henrique não dormia. O detetive particular lhe entregara mais do que fotos. Entregara endereços, detalhes, horários. Ele estudava cada página como quem traça um mapa de guerra. — Quero saber cada passo dela — ordenou, voz gelada. — Quero nomes, telefones, até os lugares que ele frequenta. O detetive assentiu, já preparando-se para seguir com as investigações. Henrique serviu-se de outro uísque, mas o olhar era de aço. — Ela pensa que pode me humilhar. Ela não faz ideia do que eu sou capaz. --- Enquanto isso, Dona Lúcia recebia um telefonema inesperado. Era Henrique. — Dona Lúcia, precisamos conversar. Clara está confusa… e está se afastando da vida que vocês sonharam para ela. A mãe, já desconfiada das mudanças na filha, ouviu em silêncio. Henrique, com voz mansa e calculada, semeava a desconfiança. — Eu a amo, e quero protegê-la. Mas temo que esteja sendo influenciada por alguém que não quer o bem dela. Lúcia apertou o terço nas mãos. — Quem, Henrique? — Ainda não posso dizer. Mas vou provar. E, quando provar, espero poder contar com a senhora para trazê-la de volta ao caminho certo. Quando desligou, Lúcia estava em lágrimas. O coração de mãe dizia que algo estava errado, mas a voz de Henrique parecia tão firme, tão convincente. --- De volta ao terraço, Clara e Rafael permaneciam abraçados, olhando as estrelas. — Você acha que a gente consegue? — perguntou ela, num fio de voz. — Eu não acho, Clara. Eu sei. — Rafael beijou-lhe a testa. — Mas precisamos ser fortes. O mundo não vai aceitar o que temos. Clara fechou os olhos, deixando o vento acariciar-lhe o rosto. Pela primeira vez, sentia-se livre de todas as amarras. Mas, ao mesmo tempo, no fundo da alma, uma sombra crescia. A sensação de que estavam sendo observados. De que a cidade, silenciosa, já os entregava. --- Naquela mesma madrugada, enquanto Clara adormecia nos braços de Rafael, Henrique observava as fotos sobre a mesa. Cada uma delas uma prova, cada uma um golpe. A escuridão o envolvia como um manto. — Você escolheu a guerra, Clara — murmurou. — E eu nunca perco. Capítulo 12 – As Correntes Invisíveis O dia amanheceu cinzento, e Clara acordou com o coração pesado. O corpo ainda trazia o calor do abraço de Rafael, mas o eco da noite anterior insistia em atormentá-la: Henrique sabia. E, se sabia, não ficaria parado. Vestiu-se devagar, cada movimento carregado de ansiedade. O celular vibrou: mensagens de Henrique, curtas, calculadas. “Precisamos conversar sobre os preparativos.” Nada além disso, mas as palavras tinham o peso de uma ameaça velada. --- Henrique, por sua vez, já estava em ação. O detetive lhe entregara novas informações: o café onde Rafael costumava editar suas fotos, o ateliê emprestado, até os trajetos que fazia pela cidade. — Quero que ele sinta que não está seguro em lugar nenhum — disse Henrique, voz baixa, firme. — Mas sem escândalos ainda. Preciso que Clara veja quem ele realmente é. O detetive assentiu, mas hesitou. — E se a senhora Clara resistir? Henrique apertou os lábios, frio. — Ela não vai resistir por muito tempo. Tenho meios de puxá-la de volta. --- Enquanto isso, Dona Lúcia caminhava de um lado a outro em sua sala. O telefonema de Henrique não saía da cabeça. A filha, que sempre fora tão correta, agora parecia viver num mundo paralelo. Os olhos dela brilhavam de um jeito que Dona Lúcia reconhecia: não era tranquilidade, era paixão. Paixão era fogo. E fogo queimava tudo. Pegou o telefone e quase ligou para Clara, mas desistiu. Em vez disso, abriu a gaveta e tirou uma foto antiga: Clara criança, sorrindo com um vestido azul. — Eu só quero proteger você, minha filha — sussurrou. — Mas não sei de quem. As palavras de Henrique vinham à mente como sementes venenosas. “Alguém que não quer o bem dela…” Quem seria esse homem? E como havia se infiltrado tão fundo na vida de Clara? --- No final da tarde, Clara encontrou Rafael no café pequeno de sempre. Ele já a esperava com o laptop aberto e duas xícaras fumegantes. — Você está diferente — disse, assim que ela se sentou. — Henrique está se movendo. Eu sinto. Rafael pegou a mão dela por cima da mesa. — Então vamos nos mover também. Não podemos viver esperando o ataque. Clara respirou fundo. Queria acreditar que o amor bastava para protegê-los, mas a sombra de Henrique era pesada demais. Enquanto conversavam, não perceberam o homem sentado duas mesas atrás, jornal aberto, câmera discreta. O detetive trabalhava em silêncio, registrando cada gesto, cada sorriso, cada toque. --- Naquela noite, Henrique recebeu as novas imagens. Clara e Rafael, mãos entrelaçadas no café. Olhares que não deixavam espaço para dúvidas. — Perfeito — murmurou, os lábios se curvando em um sorriso frio. — Agora já sei onde atacar. Pegou o telefone e fez uma ligação rápida. — Preciso de uma reunião amanhã cedo com o gerente daquele café. Digam que é urgente. Desligou, os olhos fixos nas fotos. — Vamos ver quanto tempo dura a ilusão do seu amor, Clara. --- No mesmo horário, Dona Lúcia batia à porta da filha. Clara abriu, surpresa. — Mãe? Aconteceu alguma coisa? Lúcia entrou sem pedir, olhando cada canto como se procurasse algo escondido. Sentou-se no sofá, o olhar firme. — Clara, preciso saber a verdade. Você está envolvida com outro homem? Clara congelou. O coração disparou. — Por que está me perguntando isso? — Porque te conheço. Porque você não é mais a mesma. E porque Henrique me procurou. O nome dele caiu como um peso no ar. Clara apertou os olhos, tentando conter a raiva. — O que ele disse? — Que você está confusa. Que alguém está te desviando do caminho. — Lúcia segurou a mão da filha, quase suplicando. — Me diga que não é verdade, Clara. Clara respirou fundo. As palavras saíram num sussurro, mas eram firmes. — É verdade. Estou com outra pessoa. Lúcia levou a mão à boca, chocada. — Meu Deus… — Mãe, eu não posso mais viver de aparências. Eu encontrei alguém que me faz sentir viva. — Viva? — A voz de Lúcia se quebrou. — E eu? Passei a vida inteira acreditando que estava construindo algo sólido para você. Estabilidade, respeito, futuro… — Mas não amor. — Clara segurou o olhar da mãe. — Eu preciso de amor. Lúcia chorava em silêncio, dilacerada entre a lealdade à filha e o veneno de Henrique. --- Quando a mãe foi embora, Clara desabou. Rafael era seu porto, mas o mundo ao redor estava se armando contra eles. Sentia, no fundo do peito, que o tempo de paz havia terminado. --- Na madrugada, Henrique permaneceu no escritório, sozinho, olhando a cidade pela janela. O copo de uísque intacto sobre a mesa. O olhar fixo no horizonte. — Clara pensa que pode me desafiar… — murmurou. — Mas amanhã, o primeiro golpe será dado. E, em silêncio, a cidade parecia se preparar para a guerra.
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