O Refúgio
O dia estava claro, incomum para o inverno da cidade. Clara saíra do escritório mais cedo, alegando uma reunião externa. Mas, na verdade, o coração já sabia para onde ia.
Rafael a esperava na porta de um ateliê emprestado por um amigo artista. O prédio antigo, escondido numa ruela grafitada, guardava dentro dele janelas largas, luz suave e silêncio. Era o refúgio perfeito para quem precisava desaparecer.
— Pensei que não viesse — disse Rafael, quando ela apareceu.
— Eu também pensei — respondeu Clara, com um sorriso nervoso.
Ele não a beijou de imediato. Apenas a levou até a janela maior, de onde se via a cidade em miniatura: carros apressados, pessoas correndo, a vida acontecendo como se fosse de outro mundo.
— Aqui o tempo anda diferente — disse Rafael. — É como se fosse só nosso.
Clara encostou-se ao parapeito, sentindo o vento frio entrar. Pela primeira vez em semanas, respirava sem peso nos ombros.
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Passaram a tarde conversando. Rafael mostrou cadernos cheios de anotações e rabiscos — frases soltas, ideias de fotos, pequenos poemas. Clara, que sempre vivera em esquadros e medidas exatas, encantou-se com aquele caos criativo.
— Você vive como se cada instante fosse único — comentou.
— Porque é — respondeu ele, simples. — Olhe para você agora, por exemplo. Se eu perder este segundo, ele nunca mais volta.
Clara riu, mas o riso foi interrompido quando Rafael se aproximou. Ele não pediu, não anunciou. Apenas a envolveu num abraço, lento, profundo, como se dissesse tudo sem palavras.
E ela não resistiu.
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Os beijos vieram carregados de urgência, mas também de ternura. Cada toque parecia uma descoberta, cada olhar, um mergulho. Clara sentia-se ao mesmo tempo segura e em vertigem, como se tivesse encontrado um porto dentro de uma tempestade.
Deitaram-se sobre um tapete gasto, entre telas inacabadas e pincéis esquecidos. Não havia luxo, não havia perfeição. Mas havia verdade.
— Nunca pensei que pudesse ser assim — sussurrou Clara, com os olhos marejados.
Rafael tocou de leve o rosto dela. — Assim como?
— Como se o mundo tivesse finalmente parado… só para eu sentir.
Ele sorriu. — Então sinta. O resto não importa agora.
E, por horas, não importou.
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Quando o sol começou a se pôr, Clara se levantou devagar. Vestiu-se em silêncio, olhando pela janela a cidade que voltava a chamá-la. O coração, no entanto, permanecia ali, entre paredes manchadas de tinta e braços que sabiam guardá-la.
— Preciso ir — disse, com voz trêmula.
— Eu sei — respondeu Rafael. — Mas sempre vai voltar.
Clara sorriu, triste. — Você fala como se tivesse certeza de tudo.
— Não de tudo. Só de você.
Ela hesitou, como se quisesse gravar cada detalhe dele na memória. Então, antes de sair, beijou-o mais uma vez, como um selo silencioso de que não havia mais volta.
No caminho de casa, o peso da escolha caiu sobre ela. O noivado, o casamento às portas, a mãe orgulhosa, Henrique planejando cada detalhe… e ela, vivendo um amor escondido.
Mas, naquele instante, a culpa parecia pequena diante do que sentia. Era errado. Era proibido.
E, ainda assim, era o que a fazia respirar.
Capítulo 6 – As Fissuras do Silêncio
Clara ainda sentia o perfume de tinta e café preso na pele quando se encontrou com Henrique, na noite de sábado. Ele a buscara para um jantar com clientes importantes. O restaurante era sofisticado, taças alinhadas, talheres cintilantes. Tudo perfeito. Tudo sufocante.
— Você está linda — disse Henrique, ajeitando a gravata no reflexo do vidro.
Clara agradeceu com um sorriso ensaiado. Por dentro, ainda queimava com lembranças do ateliê, do abraço de Rafael, do sol se pondo sobre a janela.
Durante o jantar, enquanto Henrique falava sobre processos, contratos e viagens, Clara percebeu algo diferente. Ele a observava mais do que o normal, como se medisse cada expressão.
— Está tudo bem, Clara? — perguntou, após uma longa pausa.
Ela assentiu depressa. — Só cansada.
Henrique inclinou-se, olhos semicerrados. — Você anda distante. Não sei se é o trabalho ou… outra coisa.
O coração de Clara acelerou. Manteve o controle, fingiu surpresa. — Como assim, outra coisa?
Henrique não respondeu de imediato. Apenas pousou a mão sobre a dela, firme. — Você sabe que pode me contar qualquer coisa.
Clara sorriu, desviando o olhar para a taça de vinho. — Claro. Não há nada para contar.
Mas, no fundo, sabia que as primeiras rachaduras começavam a aparecer.
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Dias depois, foi a vez de Dona Lúcia notar. A mãe a esperava para o almoço de domingo, como de costume. Mesa posta, feijão fumegante, cheiro de lar.
— Está magra — disse Lúcia, assim que a filha entrou. — Está dormindo direito?
Clara riu, tentando escapar. — Só trabalho demais.
Mas a mãe a estudava com olhos atentos, experientes. Reconhecia aquele brilho estranho, aquele riso nervoso.
— Esse casamento… está mesmo te fazendo feliz? — perguntou de repente.
Clara engasgou. — Por que a pergunta?
— Porque te conheço, filha. Você não olha para mim do mesmo jeito. Parece que guarda um segredo.
Clara desviou o olhar, mexendo na comida. — É só ansiedade. Casamento grande, muitos detalhes.
Lúcia não insistiu, mas o silêncio pesado durante a refeição foi pior do que qualquer sermão.
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Naquela noite, Clara saiu para caminhar sozinha. Precisava respirar. As ruas estavam cheias, buzinas ecoavam, o caos urbano pulsava. Mas, em vez de refúgio, a cidade parecia vigiá-la. Cada esquina trazia lembranças de Rafael. Cada vitrine refletia uma versão dela que não podia ser vista.
De repente, ouviu a voz atrás de si.
— Clara.
Virou-se. Rafael estava lá, de mochila e câmera pendurada, como se tivesse saído de dentro da multidão.
— Não pode aparecer assim — disse, nervosa.
Ele sorriu, sereno. — Não consigo evitar. Você é como uma fotografia: onde eu menos espero, surge diante de mim.
Clara olhou ao redor, aflita com a possibilidade de ser vista. Mas, ao encarar aqueles olhos, todo medo se dissolveu.
— Eu não consigo ficar longe de você — confessou, num sussurro.
Rafael se aproximou. — Então não fique.
O beijo aconteceu ali, entre passantes apressados, buzinas, faróis vermelhos. Era imprudente, era arriscado. Mas era também inevitável.
Quando se afastaram, Clara sabia: a cidade já não era cúmplice. Era testemunha.
E testemunhas, cedo ou tarde, falam.