O Verdadeiro Deus Egípcio

2117 Palavras
Nos dias seguintes, meus sentimentos oscilavam como as teclas de um piano em um concerto de Tchaikovsky. Ia em meio segundo de “deprimida da p***a” a “super empolgada”. Fazia planos de suicídio que logo eram substituídos por planos mirabolantes sobre como eu reergueria a minha vida. Continue em frente, continue em frente, continue a nadar, se tornara o meu mantra. E era só o que eu podia fazer no momento, continuar em frente, não parar de respirar e esperar por um milagre. O que é que as pessoas faziam quando não tinham nada para fazer? Era a pergunta que não queria calar. Já eram quase nove horas e eu ainda estava na cama, embora estivesse acordada desde as seis, que era o horário em que eu me acostumara a acordar para ir para o trabalho. Não importava o quão tarde eu dormisse, sempre, sempre, inclusive aos domingos, me acordava às seis horas. Logo, se as pessoas desocupadas matavam tempo dormindo, essa era uma tática que não adiantaria de nada para mim. Até tentei, mas ficar rolando de um lado para o outro na cama só me deixava mais entediada e dolorida, e minha cabeça começava a doer. Não, ficar na cama não era a solução e voltar a dormir seria impossível. Levantei, dando uma paradinha básica em frente ao espelho de moldura dourada, pendurado na parede aos pés da cama. Não gostei nem um pouco do que vi, a mulher que me encarava do outro lado não era eu. Quer dizer, lógico que era eu, mas não a eu que eu conhecia, aquela eu impecável, elegante, determinada de sempre, e sim uma versão um ponto zero de mim, uma pessoa pálida, magrela, e eu estava vestindo uma “camisa velha do trabalho” então reparei nos arremedos de coxas que ela deixava aparecer, com olheiras e bolsas inchadas debaixo dos olhos. Era uma visão deplorável. Fui até a cozinha e coloquei a máquina de café expresso pra funcionar. Enquanto esperava a bebida ficar pronta, olhei de relance para a mesa e vi meu notebook onde eu o deixara há dias. Era isso! O que as pessoas faziam quando não tinham nada para fazer era zapear de bobeira nos sites da internet e nas redes sociais. Não deixava de ser uma boa ideia. Eu poderia procurar Silvia, quem sabe marcar um encontro e desabafar com ela? A garota não era muito madura, nem muito experiente, nem muito sensata, mas era melhor do que não ter ninguém. Liguei o computador e abri a página do f*******:. Haviam quatro mensagens não lidas e fui direto ao chat, curiosa para lê-las. Quem sabe algum amigo ou parente tivesse me achado por ali e resolvido dar um oi? Nada era impossível. Cliquei sobre o envelopinho que piscava no canto da tela e uma lista se abriu. Foi meio decepcionante... as quatro mensagens vinham do mesmo destinatário: Ahmed Mir. Uma coisa eu tinha que admitir, o cara era insistente pra caramba. Bom, ter força de vontade era um ponto positivo. Abri a aba de mensagem: “Bom dia. Eu entrar em curso de língua portuguesa. Vai aprender falar seu idioma. Poder conversar melhor com você. Você casar comigo?” Ai meu Deus! Ele entrou em um curso de língua portuguesa, só para poder se comunicar melhor comigo! Uau! Aquela era a coisa mais significativa que alguém já tinha feito por mim durante a minha vida inteira. Mais um ponto para o egípcio! Passei para a segunda mensagem: “Bom dia. Eu aprender palavras românticas para você: te amo, meu amor, estou com saudades. Você gostar de palavras românticas? Eu cuidar de você quando ser minha esposa. Você meu habibi.” Ah! Que bonitinho! Ele aprendeu palavras românticas para dizer pra mim! Ownnnn! Eu estava começando a gostar daquela brincadeira. Não paquerava há tanto tempo que nem sabia mais como era aquilo. Talvez pudesse treinar um pouquinho com Ahmed, já que estávamos tão longe e provavelmente jamais nos encontraríamos pessoalmente, eu não correria o risco de cruzar com ele na rua por acaso e morrer de vergonha. Passei para a terceira mensagem: “Bom dia. Seu idioma complicado. Eu ainda precisar do tradutor online. Eu demorar para aprender. Você poder me ensinar mais coisas no Brasil? Eu querer ir logo, precisar fugir do Egito. Egito em guerra. Você casar comigo?” Essa terceira mensagem me deixou um pouco desmotivada. Me fez lembrar que o interesse daquele homem era, na verdade, mudar de país para escapar da guerra. Não havia nenhum amor platônico sendo nutrido por mim. Era tudo uma enrolação para conseguir um visto. Um casamento arranjado, o que poderia haver de bom nisso? As pessoas tinham que ter muita coragem para aceitar um acordo daquele tipo. Ou estarem muito desesperadas. Pulei para a quarta mensagem: “Bom dia. Porque você não falar comigo? Não gostar minha fotografia? Eu não ser essa pessoa da fotografia. Você querer ver minha fotografia?” Uéi! Como assim ele não era o cara da foto? Que safado! De certo era um velhote careca e desdentado! Merda! Estava bom demais pra ser verdade. Aquele pensamento me fez recordar do sonho, ou alucinação causada pelo pileque, da noite em que eu fora demitida e enchera a cara. A imagem do deus egípcio, em quem eu não voltara a pensar desde então, apareceu na minha mente junto com todo o enredo do sonho (ou alucinação, eu realmente achava que poderia ter sido, afinal, eu estava muito, mas muito bêbada), e a sensação de que o meu futuro marido poderia ser mesmo um velhote careca e desdentado me assolou da mesma forma como aconteceu no sonho (ou alucinação...). Sem pensar muito, comecei a digitar uma resposta às mensagens de Ahmed, tomando o cuidado de usar a forma culta da língua, já que certamente ele traduziria no Google: “Bom dia. Se você não é o homem que aparece na imagem do perfil, por favor, me envie uma fotografia sua. Quero saber quem você é de verdade.” Fechei a janela da conversa e cliquei na barra de busca, pronta para procurar por Silvia. Nem tinha terminado de escrever “Silvia - atriz - Rio de Janeiro” como palavras chave quando ouvi o som de notificação de mensagem. Era ele. O cara era rápido, eu tinha que admitir. “Bom dia. Eu não colocar minha foto para não chamar atenção. Mulheres muito alegres, querer casar com Ahmed. Eu querer casar com você. Só você meu habibi.” Tá, o cara falava o que as mulheres “alegres” gostavam de ouvir. Deveria ser alguém treinado para isso. É claro que aquelas palavras clichês era o que elas, o que nós, gostávamos de ouvir. Quem não gostaria de ter um homem, mesmo estando praticamente do outro lado do mundo, que só tinha olhos para você, que afirmava e reafirmava que dispensava todas as outras por sua causa? Ainda mais um trintona encalhada e m*l amada como eu? Ainda mais depois de relacionar o deus egípcio do meu sonho ao cara da internet? Se a foto do perfil não era realmente dele, tudo poderia acontecer. “Quero ver você.”, respondi, me arrependendo quase na mesma hora. Eu poderia deixar aquilo pra lá e simplesmente imaginar que ele era mesmo o homem do meu sonho. Poderia passar noites e mais noites fantasiando que Ahmed era um príncipe que se apaixonara por mim e estava vindo me buscar para me levar com ele para o Egito onde eu seria sua princesa, sua odalisca, mas com exclusividade, nada de harém, seu único e verdadeiro amor. Pelo menos teria algo para me distrair naqueles dias nefastos. Alguns minutos se passaram e nada de resposta. Voltei minhas atenções à barra de pesquisas e digitei de novo “Silvia - atriz - Rio de Janeiro”. Depois de alguns segundos, mais de cem resultados apareceram na tela. Corri a barra de rolagem, mas nenhuma daquelas garotas se parecia com a Silvia que eu procurava. Filtrei os resultados para “pessoas”, excluindo páginas e grupos. Ainda havia mais de cem mulheres na lista. Que saco! Eu não tinha paciência para abrir cada perfil de um por um. O jeito era passar os olhos rapidinho pelas fotos e contar com a sorte. O problema era que artistas vivam mudando de aparência, não é mesmo? Era bem possível que a Silvia estivesse bem diferente do que eu me lembrava. Quase um ano havia se passado. Talvez não fosse mais loira, quem sabe tinha engordado e perdido o corpão escultural. Ok, aqui eu estava sendo maldosa, mas a sabedoria popular dizia que era sensato ter amigas mais feias do que a gente, sabe, faz bem para a nossa autoestima. Ou, pelo contrário, ela poderia ter se dado bem, se tornado uma famosa atriz global, quem sabe mudado até de nome e estar mais estonteante do que nunca. Qualquer uma das perspectivas complicavam meus anseios de encontra-la. Sem chance de isso acontecer sem abrir aqueles perfis. Então, era melhor começar logo. O primeiro pertencia a uma garota loira, a lógica me dizia que eu devia começar pelas loiras, para aumentar as probabilidades de sucesso, já que eu não me lembrava do sobrenome da Silvia. A garota do perfil era casada, tinha dois filhos, morava na comunidade do Vidigal. Muito bem instalada, falavam que a vista de cima do morro era linda. Olhei bem para as suas fotos e não, aquela não era a Silvia que eu procurava. O segundo perfil era de uma médica, alta e esguia, sempre tirando fotos de “biquinho” e olhos arregalados. Era linda, mas não era a minha Silvia. O quarto perfil, era de uma stripper. O quinto, de uma mãe de família que trabalhava na construção civil para sustentar seus cinco rebentos. O sexto, de uma garota estilo fitness que só postava fotos tiradas em espelhos de academias e frases do tipo “sem dor não há ganho” (sério que existe pessoas que realmente pensam assim?), o sétimo, de uma garota que devia ter no máximo treze anos, mas que andava tão desnuda que parecia uma atriz de filme pornô. É, o mundo estava perdido! Abri mais meia dúzia de perfis, nessas alturas já perdendo as esperanças e ficando entediada, quando o sinal de mensagem apitou. Era Ahmed quem acabara de enviar uma foto. E agora, seria melhor ignorar e manter minhas ilusões ou abrir e talvez me assustar com o careca desdentado? Ai, como era difícil tomar decisões! Corri o dedo no touch pad e cliquei sobre o aviso de mensagem. A janelinha se abriu e... ...me deparei com um cara que mais parecia um galã de novela mexicana (eu não sabia como eram os galãs das novelas egípcias) do que um reles trabalhador da indústria têxtil. Era óbvio que aquele não era ele. Era muito melhor do que o cara na foto do perfil. Aquilo só podia ser uma pegadinha. Era isso! Alguém estava a fim de tirar onda com a minha cara e inventara aquele perfil para isso. Só podia ser! Mas quem seria capaz de uma coisa dessas? Quem faria isso comigo? Analisei meu rol de amigos, mas depois achei melhor examinar meu rol de inimigos. Na verdade, nenhuma das duas listas era muito extensa, já que um amigo na minha vida era um artigo de luxo e não me lembrava de ter feito muitos inimigos também. Sem contar o Dr. Victor Hugo, é claro. Mas o Dr. Victor Hugo certamente não tinha tempo nem paciência e nem fazia o tipo de quem mantinha uma conta em uma rede social. O que não lhe impediria de contratar alguém para fazer aquilo por ele. O dinheiro compra tudo, todo mundo tem seu preço. Pensei no sonho outra vez. Nele o Dr. Victor Hugo havia contratado alguém para me matar. E se aquilo fosse uma premonição? Ah, tá bom, eu nunca acreditei nessas bobagens, não seria agora que passaria a acreditar. Ou será que sim? Minha vida tinha mudado tanto e tão rápido que eu não poderia duvidar de mais nada. Vai que as minhas crenças também mudaram e eu nem tive tempo de perceber? Eu precisava pensar melhor sobre isso. Mais tarde, agora estava hipnotizada pela imagem na tela. Dei um zoom na foto do cara. Ele era realmente lindo, seus olhos eram da mesma cor dos do cara do meu sonho, eu me lembrava deles com perfeição. Da mesma cor da areia do deserto. “Uau!”, digitei na caixinha de mensagens, ao que ele respondeu na mesma hora: “Eu não entendo.”
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR