Capítulo 3

1671 Palavras
Quando chegou à sua casa, Juliana não sabia o que pensar ou como se sentir. Diferente de tudo o que acontecia normalmente em seus dias de aula, naquela manhã ela não foi recebida por seus amigos, sequer teve alguém para conversar durante o intervalo entre as aulas, sentia-se como se tivesse contraído uma doença contagiosa. Seus amigos a ignoraram na maior parte do tempo, era como se não fosse vista e, pela primeira vez em toda sua vida, se sentiu insignificante para todos aqueles que considerou seus melhores amigos durante toda a vida. — Não fica assim, amiga — Clara falou, do outro lado da linha, enquanto Juliana subia as escadas em direção a entrada de sua casa. — Com certeza não é nada além de um m*l entendido. Enquanto Juliana estava seguindo para a porta de sua casa, Clara estava no banco de trás do carro particular que a levava para todo canto, ajeitando os cabelos loiros que quase chegavam ao tom platinado e checando se sua blusinha rosa de alças finíssimas estava no lugar, se sentia perfeita. Um enorme sorriso estava em seu rosto e ela estava animada, finalmente conseguiria o que queria há muito tempo. — Não me importo, mas fico m*l por saber que só você ficou do meu lado, Carla — Juliana respondeu a amiga, suspirando levemente. — Pode vir na minha casa hoje? — Ah… Hoje não vai dar, tenho uma consulta médica — Carla mentiu, enquanto retocava o gloss nos lábios carnudos. — Amanhã a gente se vê na escola. — Tudo bem, amiga, até amanhã — Juliana falou, parando na porta de sua casa. — Obrigada por ficar do meu lado, você é a melhor amiga que eu poderia ter. — Até amanhã, amiga! — a outra respondeu, antes que a chamada fosse encerrada. Quando finalmente entrou em casa, enquanto guardava seu celular em sua bolsa, Juliana se deparou com um grupo de policiais que conversavam com sua mãe enquanto mostravam a ela um papel que parecia muito importante, afinal, Sônia tinha uma expressão de choque no rosto. — Mamãe? — Juliana a chamou, fazendo sua mãe erguer o rosto para ela. — O que está acontecendo? Meu pai já voltou? — Bem, dona Sônia, infelizmente não há nada que possamos fazer, vocês precisarão deixar a casa no prazo de uma semana — o policial informou, fazendo Juliana arregalar os olhos. “Deixar minha casa? Como assim?”, ela se perguntava, olhando para sua mãe, que somente assentia e confirmava que havia entendido tudo muito bem. — Tenham uma boa tarde, policiais — ela falou, sem maiores discussões ou duvidas, os observando partir e, só então, dando atenção a sua filha. — Juliana venha, precisamos conversar. Dito isto, afastando-se dos olhares curiosos que espiavam pelas janelas, a senhora Golçalvez entrou na grande mansão, da quão seria obrigada a se despedir logo logo. Atrás dela, sua filha seguia seus passos de forma insegura e assustada, sem saber como as coisas poderiam piorar. Quando chegou à sala e jogou sua mochila sobre o grande sofá, Juliana observou sua mãe se sentar e, depois de alguns minutos de silêncio, ajeitar a postura, voltando a exibir o ar altivo e elegante de sempre. — Seu pai não vai voltar, Juliana — Sonia falou, sem meias palavras. — Ele não é inocente e… — Que brincadeira de mau gosto é essa, mãe? — Juliana a interrompeu, olhando para sua mãe com os olhos marejados. — Como assim meu pai não vai voltar? Ele é inocente! — Não, ele não é! E você precisa se acostumar com a ideia de que seu pai enfiou a gente num problema de proporções imensas sem se importar com o seu futuro ou com o meu — as palavras de Sonia acertaram o coração já magoado de Juliana como facas, mas ela não via forma melhor e mais rápida de fazer sua filha entender o que estava acontecendo. — Seu pai foi preso e todos os bens dele também foram apreendidos, inclusive esta casa, Juliana. — Nossa casa? — ela perguntou, sentindo as pernas tremerem e se apoiando no sofá. — Papai não faria isso com a gente! — Não só faria, como fez, filha! Ele nunca quis deixar nada no seu nome ou no meu, Carlos sempre deixou claro que nunca passaria nada para meu nome e agora não temos nada! Nada além do meu maldito carro e das nossas joias! — ela continuou, perdendo a paciencia e se levantando, apoiando as mãos nos ombros da filha. — Não temos mais nada, filha, tudo o que eu tenho vou deixar para o seu futuro, futuro que seu pai sacrificou em nome da propria ganancia. Mesmo sabendo que sua filha iria sofrer, mesmo sabendo como ela amava o pai e o achava um herói, um homem íntegro, Sonia não poupou palavras, não faria isso, sequer se esforçou para poupar a imagem de Carlos, principalmente quando ele não se importou em sacrifica-las e deixá-las na miséria para pagar os malditos advogados. Enquanto Sônia decidiu não usar meias palavras, Juliana sentia seu coração se apertar e seus olhos se encherem de lágrimas enquanto ouvia as palavras de sua mãe. Seu pai sempre foi o homem mais honesto que ela já havia conhecido, sempre foi aquele que deu o sangue para que ela pudesse viver como uma princesa. Como se convencer agora de que Carlos Gonçalvez não era nada além de um homem que estava disposto a deixar a esposa e a filha sem amparo algum para tentar livrar a propria pele? Ela não conseguia entender. — Quero que arrume tudo o que é seu, pegue tudo, faça suas malas — Sonia comunicou, soltando os ombros da filha e suspirando. — Amanhã a tarde vamos embora daqui. — Mas… — Julina fungou, passando as mãos no rosto para tentar limpar as lágrimas. — Mas para onde vamos? — Vamos para o único lugar que nos restou — sua mãe respondeu, suspirando e fechando os olhos com força enquanto, seguindo para o grande lance de escadas, sentia o corpo pesado. Quando sua mãe se foi, Juliana desabou na sala, caindo de joelhos e chorando alto, soluçando sem para enquanto as lágrimas escorriam grossas e salgadas por seu rosto. Não sabia o que fazer, não sabia o que pensar, sentia seu coração doer enquanto percebia que toda sua vida estava acabada, que tudo o que viveu com seu pai era uma mentira, que sua família não era como imaginou. A garota deitou no tapete felpudo da sala, encolhendo o corpo para tentar consolar a si mesma e, depois de longos minutos chorando sem parar, conseguiu se acalmar o suficiente para pegar seu celular. Então, em meio a todo aquele sofrimento, fez a única coisa que conseguiu pensar, ligou para a única pessoa que acreditou que poderia compreender seus sentimentos, que poderia acolher seu choro. Mas, aparentemente, o universo decidiu odiá-la desde o dia em que completou 17 anos e, naquele momento, não seria diferente. Abriu seu w******p e, clicando na conversa de Jonas, fez uma chamada de vídeo. Não se lembrava exatamente de quando os dois ficaram tão próximos, porém, desde que notou o interesse dele, Juliana sentiu que, pela primeira vez, poderia dar certo. Sentiu que seu pai o aprovaria e que, finalmente, ela viveria o romance que tanto sonhou, que tanto viu nos livros. O que, claramente, não era o que o destino reservava para ela. Quando a chamada foi recusava, Juliana uniu as sobrancelhas fungando e se erguendo do chão, se sentando com as costas encostadas no sofá e limpando os olhos, mas a vista ainda embaçada não foi empecilho o suficiente para impedi-la de fazer uma nova chamada, agora com uma urgência maior. O bip de chamada soou uma, duas, três vezes, fazendo o coração dela se apertar e a mente criativa inventar uma série de desculpas para a demora. Então, quando suas esperanças já estavam perdidas, o rosto de Jonas apareceu na tela. O rapaz atendeu a chamada com um riso nos lábios que estavam estranhamente vermelhos para Juliana. O rosto dele também parecia meio corado e estava com o peito a mostra, sem camisa. A pele clara e os músculos definidos pela academia que Jonas frequentava todos os dias o faziam um menino incrivelmente bonito, mas via-se em sua cara que ele era, definitivamente, um playboy sem muito o que oferecer além da grana dos pais. — Er.. Juli, oi! — ele falou, seus cabelos estavam molhados e, claramente, ele estava desconfortável. — Eu tava ocupado. — Desculpa… É que eu queria conversar e — Juliana começou, limpando mais uma vez o rosto antes de continuar. Porém, antes que ela pudesse continuar, o viu olhar para trás e, depois uma voz conhecida que saiu meio abafada e sonolenta na chamada: — Quem é? — a voz falou chegando aos seus ouvidos e ao seu coração, fazendo seus lábios tremerem. — Carla? — Juliana sussurrou, vendo Jonas arregalar os olhos. Carla sempre foi desde que se conhecia por gente, a melhor amiga que Juliana poderia ter. Mas aparentemente aquela era uma relação totalmente unilateral, afinal, Carla m*l esperou a fofoca esfriar para aproveitar a oportunidade que teve e pegar para ela o garoto mais rico e mais bonito da escola. Qualquer consideração que ela um dia teve por Juliana acabou no dia em que o pai dela foi preso, no dia em que tudo desmoronou. — Juliana… Olha, desculpa mesmo, mas eu não posso falar com você agora — então ele desligou, sem um pedido de desculpas, sem uma explicação. Naquele momento, Juliana percebeu que seu mundo mudaria completamente, percebeu que nada do que ela viveu sua vida inteira era real, que o dinheiro que havia perdido era o que sustentava toda aquela vida de aparências. Mas e agora, como ela iria viver? Viver de aparências era tudo o que ela sabia fazer, ostentar, gastar, aproveitar o luxo e a fortuna. Sem isso, o que seria dela?
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