Capítulo 3

1144 Palavras
Emily Petrov Hoje era o dia do tal evento que Ivan mencionou ontem. Eu nem sabia do que se tratava, e, sinceramente, não me interessava. Minha única preocupação era que essa noite passasse sem problemas, sem que eu provocasse a sua ira, mesmo sem querer. Ele havia enviado um batalhão de mulheres à mansão para "me ajudar": estilistas, maquiadoras e manicures. Era como se eu fosse uma boneca que ele precisava embelezar para exibir. As mulheres que vieram eram simpáticas e tagarelas, não paravam de elogiar Ivan, descrevendo-o como o marido perfeito. - Ele tem um bom gosto incrível. – uma delas disse enquanto ajustava o tecido do meu vestido. – Você é muito sortuda, sabia? Homens assim são raros. A minha vontade era de rir, ou talvez vomitar, mas mantive o sorriso falso e acenei em concordância, como sempre fazia. Ivan era um ator nato, um verdadeiro cavalheiro aos olhos de todos, mas por trás das portas da nossa casa, ele era um monstro. Eu usava um vestido longo de seda preta, com detalhes em pedras brilhantes no decote, que moldava o meu corpo perfeitamente. O meu cabelo estava preso em um coque elegante, com algumas mechas soltas, e a maquiagem, impecável, escondia qualquer resquício de cansaço ou tristeza que a minha pele pudesse denunciar. Uma das mulheres me olhou enquanto eu me avaliava no espelho e sorriu. - Você está deslumbrante, senhora. – ela disse. – O senhor Petrov com certeza ficará encantado. Depois que elas saíram, fiquei sozinha no quarto, me encarando no espelho. O que eu via não era uma mulher, mas um vazio. Minha vida havia se reduzido a isso: ser a esposa troféu de Ivan, sorrir para os outros e suportar as consequências em silêncio. Consequências essas que variavam entre insultos e agressões, dependendo de como ele interpretava o meu comportamento. A porta do quarto se abriu de repente, e Ivan entrou. Os seus olhos me percorreram, analisando cada detalhe. - Está muito bonita, Emily. – ele disse, aproximando-se. A suas mãos deslizaram pelo meu rosto, e eu tive que me controlar ao máximo para não recuar. – Espero que não me envergonhe hoje. – ele continuou, sua voz baixa e ameaçadora. – Fique ao meu lado, não saia por aí e, não seja tão simpática com os homens. – Eu assenti rapidamente, sem ousar contradizê-lo. Ele segurou o meu braço e me puxou, avisando que estávamos atrasados. Descemos as escadas, e um dos seus seguranças já nos aguardava. O silêncio no carro era sufocante. Ivan estava ocupado no celular, e eu, olhando pela janela, tentava controlar a minha respiração. Cada fibra do meu ser ansiava por uma saída dessa vida, mas eu não via como. Chegamos ao local do evento, uma grande mansão com um jardim iluminado por luzes douradas. O ar cheirava a flores frescas e ao perfume caro dos convidados. Ivan me ajudou a sair do carro, e eu segurei em seu braço enquanto caminhávamos para dentro. O interior era ainda mais grandioso, com lustres de cristal pendendo do teto, mesas cobertas por toalhas brancas e decoradas com arranjos luxuosos. Os cumprimentos começaram assim que entramos. Homens de negócios e as suas esposas, todos com sorrisos polidos e palavras ensaiadas. Eu mantinha um sorriso falso no rosto enquanto escutava os elogios habituais. - A sua esposa é deslumbrante, Ivan. Você tem sorte. – ouvi isso de pelo menos três homens e duas mulheres. Ivan, com sua máscara impecável, respondia com um sorriso satisfeito. - Ela é mesmo. Ele inclinou-se para mim e sussurrou. - Se comporte, Emily. – a sua mão apertou o meu braço, e eu assenti. Ele me conduziu até uma mesa e disse. – Fique aqui. Não saia. Vou falar com algumas pessoas. – então, ele me deixou sozinha. Tentei manter a cabeça baixa, observando o ambiente ao redor. Garçons passavam com bandejas de bebidas, e eu recusei todas. Senti alguém sentar ao meu lado e, quando olhei, era uma mulher elegante e muito bonita. Ela me encarava com um olhar crítico. - Posso te ajudar? – perguntei, tentando soar educada. - Eu sinceramente não sei o que ele viu em você. – ela disse, sem rodeios. - Desculpe, o que quer dizer? Ela estendeu a mão com um sorriso falso. - Sou Eleonora, querida. E você é Emily, a esposa de Ivan. A insinuação em sua voz era clara. Provavelmente, ela era uma das amantes dele. Tentei ignorar, mas suas palavras pareciam uma faca. Levantei-me e caminhei até uma varanda próxima. O ar fresco da noite era um alívio, e por alguns minutos, senti uma paz rara. Essa paz foi interrompida quando ouvi passos pesados atrás de mim. Ivan apareceu, o seu rosto uma máscara de fúria. - Eu não mandei você ficar na mesa, Emily. – ele rosnou, segurando o meu braço com força. - Eu… eu não estava me sentindo bem. – murmurei, tentando explicar. - Não me interessa. – ele rebateu, apertando mais forte. – Quando eu mandar você ficar em um lugar, você fica. Ele me arrastou de volta para a mesa, onde me obrigou a sentar. Olhei para Eleonora, que me encarava com um sorriso cínico. Eu baixei os olhos, desejando desaparecer. Eu me sentia humilhada de várias formas. Quando Ivan finalmente se cansou do evento, anunciou que iríamos embora. Mas antes de alcançarmos a saída, fomos interrompidos por um homem mais velho, de cabelos grisalhos e aparência imponente. - Ivan, como vai? – o homem disse com um tom de desprezo. - Sullivan, que surpresa. – Ivan respondeu, visivelmente desconfortável. Os olhos do homem se voltaram para mim, e ele sorriu levemente. - E esta deve ser sua esposa. - Sim, esta é Emily. – Ivan respondeu, sem entusiasmo. - Prazer em conhecê-la. – o tal Sullivan disse, estendendo a mão. Havia algo no olhar dele que me fez estremecer, uma mistura de curiosidade e pena. Ivan encerrou a conversa rapidamente e me puxou para fora. No carro, a sua raiva transbordou. - Você adora chamar atenção, não é, Emily? – ele me deu um tapa tão forte que a minha cabeça virou para o lado batendo na janela do carro. Quando chegamos em casa, a verdadeira tortura começou. Ivan descontou toda a sua raiva em mim, com socos, empurrões e insultos. Eu chorei em silêncio, implorando mentalmente para que aquilo terminasse logo. Depois que ele terminou, ele saiu do quarto, como sempre fazia, deixando-me sozinha com a minha dor. Fui ao banheiro e tranquei a porta. Lá, desabei no chão frio, as minhas lágrimas misturando-se ao sangue em meus lábios partidos. Tomei um banho demorado. Ao sair do banheiro, me olhei no espelho e vi os hematomas começando a se formar. O meu corpo estava machucado, mas era minha alma que mais doía. Eu não aguentava mais viver assim, mas não sabia como escapar.
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