Logan Foster
O vazio ecoava dentro de mim enquanto o carro avançava pelas estradas cobertas de neve. Aceitei o conselho de Asher de vir para essa cidade, Brookline. Por que aceitei essa merda? Nem eu mesmo sei. Segundo o meu amigo, eu precisava sair daquela mansão que, um dia, foi meu lar. Aquele lugar agora era um túmulo, cada canto impregnado com as lembranças dos cinco anos mais felizes da minha vida. Agora, só restavam ecos e um vazio que consumia tudo.
Perdi a minha esposa, Camila, e nossa filha, Chloe, em um acidente de carro. Camila insistiu em viajar para Brookline de carro com a nossa filha. Eu fui contra. Ela estava de cabeça quente, o nosso casamento já não era o mesmo, e eu sabia que tantas horas na estrada eram perigosas. Mas ela dizia que precisava de um tempo para pensar, que a viagem ajudaria. Eu a amava, apesar das brigas, das discussões que pareciam não ter fim. Ela era a luz da minha vida, mesmo quando essa luz se apagava em nós dois.
Quando recebi a notícia do acidente, liguei para Asher. Fomos juntos para o hospital onde elas haviam sido levadas, mas já era tarde demais. Elas estavam mortas. O médico disse que Camila provavelmente adormeceu ao volante. E tudo o que consegui pensar foi: "Eu avisei." Como se isso fizesse alguma diferença. O "eu avisei" não traz ninguém de volta.
Desde então, me tornei um fantasma. Recluso. Deixei a empresa nas mãos de Asher, que além de ser meu braço direito, sempre foi meu melhor amigo. Trabalhei de casa, aparecendo na empresa apenas quando estritamente necessário. Asher me disse que alguns acionistas estavam insatisfeitos. Queriam ver o CEO, o rosto da empresa. Então ele sugeriu que eu viesse para Brookline, ficasse dois meses longe de tudo e depois voltasse para a minha "vida". Mas como se volta para a vida quando você perde tudo?
O aeroporto ficava a cerca de vinte minutos da cidade. Miguel, meu motorista, me esperava. O silêncio entre nós era confortável. Miguel sabia que eu não gostava de conversa fiada. Nunca gostei, mas depois de perder Camila e Chloe, o som da voz de outra pessoa parecia um lembrete c***l de que o mundo continuava enquanto o meu parava. Miguel e Cecília trabalharam para meus pais. São os empregados mais antigos que tenho. Depois da morte de Camila e Chloe, mandei-os para Brookline para cuidar da casa que tenho aqui. Não queria que eles vissem o que me tornei.
A neve caía lá fora, combinando perfeitamente com o gelo dentro de mim. O carro deslizava suavemente pela estrada deserta até que Miguel quebrou o silêncio.
- Senhor Foster? – a sua voz hesitante me tirou dos pensamentos. Ele diminuiu a velocidade, olhando pela janela. – Tem uma moça ali. Caída no chão.
Levantei o olhar, sem muito interesse. Uma figura frágil estava encolhida sob a luz fraca de um poste, tremendo.
- Provavelmente uma moradora de rua. Vamos embora, Miguel. – resmunguei, voltando a olhar para frente.
Miguel hesitou. Isso me irritou. Ele nunca questionava as minhas ordens. Mas, dessa vez, parou o carro e desceu sem esperar a minha permissão.
Bufei, irritado. Alguns minutos depois, ele voltou à janela do carro.
- Senhor... as roupas dela estão limpas. E ela não me parece uma moradora de rua.
Revirei os olhos.
- Isso não é problema nosso.
Fechei os olhos, esfregando as têmporas enquanto a irritação crescia. Maldito Asher e as suas ideias idiotas sobre "tempo para mim mesmo". Eu deveria estar em Chicago, enterrado em planilhas e contratos, não em uma cidade pequena ajudando estranhos.
Miguel voltou, com uma expressão sombria.
- Ela está inconsciente, senhor. Isso não é só cansaço, ela pode ter desmaiado por causa do frio.
Resmunguei algo ininteligível, mas desci do carro. O ar frio da noite me atingiu como um soco. A visão da mulher me fez parar. O rosto pálido, os lábios entreabertos e as mãos tremendo. Ela segurava uma mochila com tanta força que os seus dedos estavam brancos.
Havia algo nela que me incomodava, mas não conseguia identificar.
- Merda. Vamos logo com isso. – murmurei, ajudando Miguel a colocá-la no banco de trás.
Durante o trajeto até a casa, o silêncio voltou, mas minha mente estava inquieta. Por que diabos eu estava me importando?
Quando chegamos, pedi a Miguel:
- Chame Cecília. Diga para preparar o quarto de hóspedes.
Ele assentiu e desapareceu pela casa silenciosa. Fiquei a sós com a estranha. O fogo da lareira iluminava o seu rosto, destacando a palidez e as olheiras profundas.
Sentei-me em uma poltrona, observando-a no escuro. Seu peito subia e descia de forma irregular. Algo nela me incomodava. Talvez fosse o fato de ela estar ali, quebrada, como eu.
- O que aconteceu com você? – murmurei, sem esperar resposta.
Havia uma fragilidade nela que me irritava. Não por ela, mas porque me lembrava de mim mesmo. Do que eu perdi. Do que nunca mais teria.
Suspirei, inclinando-me para frente, os cotovelos apoiados nos joelhos. O fogo estalava suavemente, preenchendo o silêncio desconfortável.
- Que merda eu estou fazendo? – sussurrei, encarando o vazio.
Olhando para ela, percebi que não estava salvando ninguém. Talvez, só estivesse tentando encontrar algo que me fizesse sentir humano de novo.