Stella Lewis
O som dos meus saltos ecoava no corredor silencioso. Acelerei o passo e chequei o celular: 8:29.
Sem hesitar, empurrei a porta da sala de August, o CEO da editora, e encontrei ele e Christian me esperando.
— Cheguei! — anunciei, caminhando até eles.
— Porrä... — August resmungou, entregando uma nota de cem dólares para Christian, que sorria satisfeito.
Arqueei a sobrancelha.
— Vocês apostaram sobre o horário que eu chegaria? — perguntei, incrédula.
— Sim, e eu sabia que você não ia se atrasar hoje! — Christian disse, triunfante.
— Espero que esse livro seja tão bom que compense meus cem dólares perdidos — brincou August.
Ri e me sentei ao lado de Christian.
(...)
Segui para o estacionamento ao lado de Christian, um sorriso satisfeito no rosto. August aprovou o novo livro. Agora, eu tinha dois meses para finalizá-lo, e as divulgações já começariam.
— E como está Lili? — perguntei, encostando no carro e olhando para Christian.
O sorriso dele se alargou. Lili, sua filha recém-nascida, claramente tinha derretido o coração do meu assessor.
— Está ótima. Luiza decidiu trabalhar de casa pelos próximos anos para ficar com ela. Mas a cada dia que passa, Lili fica mais linda!
Sorri também.
— Fico feliz por vocês, Chris! Manda um beijo para elas.
Ele acenou com a mão antes de entrar no carro.
Liguei o motor e saí da empresa, voltando para o Brooklyn. Eu estava ansiosa para escrever.
Enquanto dirigia, minha mente vagava pelo passado. Aos dezessete anos, comecei a escrever no famoso Wättpad, criando aqueles romances escolares bobos, cheios de clichês. O tipo de história onde o bad boy se apaixonava pela nerd tímida, e tudo sempre terminava com um “felizes para sempre”. Eu acreditava nessas merdas. Até que a vida esfregou a realidade na minha cara.
Os romances açucarados não existem. O amor de verdade não é feito só de juras apaixonadas e finais felizes. Ele tem sombras, tem caos, tem dor. Aprendi isso da pior forma.
Quando entrei para a faculdade de Letras em Nova York, foi a minha chance de escapar daquela cidadezinha de merda onde cresci. Vim sozinha, sem apoio, sem ninguém para me dar um empurrão. Só a minha coragem e um ódio latente pelo passado. No começo, dividi um quarto na residência da faculdade, e foi lá que conheci Eleonor e Samanta. Eleonor cursava Publicidade, Samanta fazia Medicina. Eram tão diferentes de mim que a amizade não deveria ter dado certo, mas, de alguma forma, nos tornamos inseparáveis.
Agora, aos 25 anos, cada uma seguiu seu caminho profissional, mas continuamos sendo aquele trio caótico que, de alguma forma, se encaixa perfeitamente. E, sinceramente? Eu não faço ideia do que seria de mim sem elas.
Quando terminamos a faculdade, não tinha nem discussão: alugamos um apartamento juntas, e desde então, seguimos lado a lado. Samanta é a mais organizada e higiênica do grupo, às vezes até demais, o que eu atribuo totalmente à carreira dela. O lado bom de morar com uma médica? As doenças mäl têm tempo de se instalar. Ela sempre sabe o que fazer, quais remédios tomar e até quando só precisamos de um chá e vergonha na cara. Além disso, Sam é o cérebro da casa. Inteligente, metódica e realista até a crueldade, ela nunca adoça a verdade, mas seus conselhos são sempre certeiros. Minha colombiana pode até ser dura, mas é exatamente por isso que a gente precisa dela.
Eleonor, por outro lado, é nosso arco-íris. A luz da casa. Amorosa, criativa e sempre cheia de energia, ela é quem dá cor à nossa vida. Se temos um apartamento estiloso e cheio de personalidade, é por causa dela. Eleonor é uma publicitária nata, e antes mesmo de se formar, já cuidava da divulgação dos meus livros. Hoje, trabalha na mesma editora que eu, só que na área de publicidade e propaganda. Se Samanta é o cérebro, Eleonor é o coração.
E eu...?
Bom, eu sou o instinto. A impulsividade. A raiva contida que, de vez em quando, transborda. Mas sejamos sinceros: todo mundo tem um lado explosivo. A diferença é que alguns escondem melhor, e eu simplesmente não faço questão. Se for preciso, eu explodo. Se alguém mexer com quem eu amo, eu destruo. Simples assim. Mas não me entenda mäl, também tenho minhas qualidades. Sou uma parceira leal, do tipo que faz o que for necessário para proteger os meus. E, claro, sou criativa. Não tem como ser escritora sem ser.
Saí do meu transe quando o prédio apareceu à minha frente, mas minha atenção foi capturada por uma visão específica.
Um homem, descendo de uma moto.
E um detalhe que fez meu estômago revirar.
Uma tatuagem.
Na mão.
Uma caveira.
A mesma maldita caveira dos meus sonhos.
Meu coração disparou. Assim que ele tirou o capacete, precisei me segurar para não soltar um grito dentro do carro.
Era ele.
O homem que me assombrava todas as noites.
Claro, qualquer mulher diria que ele era um sonho. Mas para mim, isso era literal. Eu o via sempre. E agora, ele estava ali, de carne e osso... E, para piorar minha situação, ainda mais gostöso do que nos meus delírios noturnos.
Ele seguiu para dentro do prédio sem me notar.
Meu Deus, será que eu estava sonhando?
BIIIIH!
Uma buzina me arrancou do choque. O semáforo estava verde e eu, parada feito uma idiotå no meio da rua. Liguei o carro e fui direto para a garagem. Assim que estacionei, saí correndo como uma maluca para o hall de entrada.
Nada.
O misterioso dos meus sonhos tinha evaporado.
Vi o porteiro e, sem nem tentar disfarçar meu desespero, fui direto até ele.
— Seu Henri... — minha voz falhou. Droga, eu precisava voltar a me exercitar.
Ele me olhou com pura confusão.
— Você está bem, Stella?
Fiz um gesto com a mão, tentando respirar.
— O homem... que entrou agora... — inspirei fundo. — Enfim, o gostöso de cabelos castanhos que acabou de passar aqui...
Seu Henri arqueou a sobrancelha.
— Stella, acho melhor você não mexer com ele.
Ótimo. Um aviso desses servia para qualquer pessoa com um mínimo de bom senso. Eu? Fiquei ainda mais interessada no futuro pai dos meus filhos.
— Quem é ele?
O porteiro soltou um suspiro pesado.
— Um ex-militar que se mudou hoje para cá.
Ah, então era por isso aquele físico. Meu Deus.
— E...?
— Ele é seu novo vizinho.
Soltei um gritinho.
Putä merdä. Isso só pode ser um sonho.
— Obrigada, seu Henri!
— Stella. — O tom sério dele me fez encará-lo. — Não estou brincando. Ele não é qualquer um, entendeu? Melhor se manter afastada.
Assenti, fingindo que absorvia o aviso. Mas por dentro? Eu estava estourando champanhe e soltando fogos de artifício.
Assim que ele desviou o olhar, corri para o elevador, meu coração disparado. Meu vizinho misterioso não era “qualquer um”? Ótimo. Porque eu também não era.
E se tudo desse certo, ele seria o homem que me föderia até eu esquecer meu próprio nome.
Stella, pelo amor de Deus. Se controla.
Respirei fundo quando o elevador parou no meu andar. O corredor estava vazio. Nenhum sinal do ex-militar gostöso.
Minha vontade? Tocar a campainha dele e dar um oi nada inocente.
Mas, surpreendentemente, meu senso moral decidiu dar as caras, e em vez disso, destranquei minha própria porta e entrei no apartamento.
Vazio.
Suspirei. O dia prometia ser longo.