Falcão
Aproveitei o momento de distração dele para usar a mira e atirar bem na sua testa, fazendo-o largar o garoto que caiu quase de cara no chão.
— p**a que pariu. — Falei baixo e me aproximei dele. Se tinha uma coisa que me desmontava era criança.
Ele parecia ainda mais assustado, por isso eu tirei metade do tecido que cobria meu rosto, coloquei a arma para trás e ele foi se acalmando conforme eu me aproximava.
— É tua mãe, moleque? — Ele assentiu rápido, com a respiração acelerada.
— Ele bateu nela com a arma. — Ele apontou para o PM morto caído no chão.
— Tu vai fazer o seguinte. — Dei meu rádio pra ele, que olhou com medo de pegar. — Pega pô, vou te dizer o que tu vai fazer pra salvar tu e tua mãe.
Antes de entregar o rádio, apertei o botão para entrar nas outras frequências, para que o que eu fosse falar fosse ouvido por todos.
Radinho on
— Preciso de alguém no beco da rua 7. Rápido! — Comandei, e em menos de um minuto um vapor apareceu.
Radinho off
— Me dá teu rádio, cola em outro vapor e escuta os comandos pelo rádio dele.
— Sim, chefe. — Peguei o rádio e o vapor saiu correndo para resolver a situação logo. Ajustei na mesma frequência do meu, para que só o menino me ouvisse e só eu ouvisse ele.
— Se liga, esse aqui é o botão pra tu apertar e falar comigo. — Mostrei pra ele, que olhava atento ainda soluçando. — Me chama de Falcão. Qual é o teu nome? — Ele engoliu saliva e secou as lágrimas.
— Na...Kauã. — Ele falou, e eu ri pra acalmá-lo.
— Beleza, Kauã. Eu vou ali pedir ajuda pra vocês. Mas tu não pode sair daqui de jeito nenhum — tua mãe tá em risco. Se qualquer policial entrar aqui, você pode falar comigo, beleza? — Ele concordou com a cabeça, e eu tirei meu colete colocando nele. — Fé aí, moleque!
Saí do beco correndo e vi que tinha uma tábua grande de madeira por perto. Usei-a para cobrir a entrada, para ninguém ver os dois ali.
Abaixei de novo minha balaclava e saí correndo para onde estava o foco maior da troca de tiros. Cheguei vendo que meus vapores estavam intactos e os policiais tentavam resistir, atirando de volta, mas não conseguiam.
Atirei em dois policiais na cabeça. Ainda tinham alguns espalhados, então chamei Danone e DG para vasculhar as ruas e verificar se não tinha nenhum infiltrado nas casas. Demos uma volta no complexo e, pelo visto, aqueles que estavam na troca de tiros eram os últimos.
Radinho on
— Tio Falcão? — A voz infantil soou bem baixa no rádio, e os meninos me olharam sem entender. — Tem um policial tentando tirar a tábua que você colocou. — Ele falou, e eu xinguei até a última geração desse filho da p**a.
— To indo aí, moleque... — Fui em direção ao beco, segurando a risada, e corri até lá — vi que Danone veio atrás de mim e DG foi para a direção oposta, onde estavam os outros.
Radinho off
Eu conhecia esse morro como a palma da mão — vivi aqui muito tempo. Danone também.
Vi de longe outro filho da p**a tentando se esconder, mas escolheu o lugar errado. Antes que ele conseguisse tirar a madeira, Danone atirou na cabeça dele.
— Que p***a foi essa de "tio Falcão"? — Ele perguntou com a testa franzida.
— Longa história.
— O último verme tá morto, c*****o! — Ouvimos o grito dos caras e nos olhamos, fazendo toque e comemorando.
— A Maré é nossa, p***a! — Gritei também, chegando perto deles e atirando para cima. Os caras estavam rindo pro vento, assim como eu. Suspirei o ar da minha casa e finalmente me senti livre dentro da minha quebrada.
Lembrei do moleque e da mãe, saí do meio deles e fui desviando dos corpos no chão até chegar no beco.
— Tio Falcão! — O menino ficou feliz de me ver de novo.
— E aí, moleque! Já tá seguro lá fora. — Falei pra ele, que assentiu mas olhou triste para a mãe. — Sabe chegar na tua casa?
— Sei, tio. — Ele falou e esperou que eu pegasse a mulher desacordada no colo. Ela era pequena, devia ter cerca de um metro e sessenta, cabelos escuros, rosto fino, boca perfeitamente contornada. Bonita pra c*****o.
O moleque foi saindo do beco e eu fui atrás dele com a mulher no colo. Ele subiu a rua, virou duas esquinas e me fez lembrar do caminho para a minha antiga casa. Kauã apontou para uma casa pequena no meio do complexo, em frente à minha casa de antigamente.
— A chave tá no bolso dela, eu vou pegar. — Abaixei um pouco ainda com a mãe do garoto no colo, e ela começou a se remexer, finalmente acordando enquanto o garoto mexia no bolso dela.
— O que? — Ela falou tentando entender o que estava acontecendo. — Ai caramba, o que está acontecendo?
— Mamãe, esse é o tio Falcão. — Só então ela percebeu que estava no meu colo e praticamente saltou para longe de mim. — Ele ajudou a gente.
— Quem é você, p***a? — Ela perguntou quase gritando, e eu me lembrei que ainda estava de balaclava.
— Falcão... — Falei tirando o tecido que cobria meu rosto, e a mulher me olhou calada.