Capítulo 20

1209 Palavras
O oceano tinha uma maneira peculiar de guardar segredos. Durante o dia, suas águas agitadas escondiam histórias antigas sob o brilho do sol. À noite, porém, quando a lua tocava a superfície com sua luz prateada, parecia que cada corrente carregava murmúrios invisíveis, como se o próprio mar estivesse atento a tudo o que acontecia em suas profundezas. Naquela noite, Íris não conseguia encontrar paz. Ela nadava lentamente entre as formações de pedra azulada próximas ao território do Conselho, mantendo o corpo próximo às sombras para evitar ser notada. Cada movimento era cuidadoso, calculado, quase silencioso. Seus olhos percorriam o ambiente constantemente, atentos a qualquer sinal de outras guardiãs. Mas o silêncio não acalmava seu coração. Desde o encontro com Noah, algo dentro dela havia mudado de forma irreversível. O toque — mesmo que breve — ainda parecia vivo em sua pele. A sensação da ponta dos dedos dele encontrando os seus havia sido simples, quase delicada, mas carregava um peso enorme. Era como se, naquele instante, uma linha invisível tivesse sido atravessada. E agora não havia mais como voltar atrás. Íris parou entre duas rochas cobertas por algas prateadas e respirou fundo, deixando as correntes passarem por seu corpo. Precisava pensar com clareza. Se realmente fosse fugir… precisava estar preparada. Não podia agir por impulso. A casa de praia de Noah. A enseada escondida. A travessia durante a noite. Cada detalhe daquele plano parecia simples quando ele falava, mas agora que ela estava sozinha, o peso da decisão começava a se tornar real. Fugir significava abandonar o Conselho. Abandonar sua posição. Abandonar o oceano que havia sido sua casa desde o primeiro momento de sua vida. Mas também significava algo mais. Liberdade. E Noah. Ela fechou os olhos por um instante. — O que estou fazendo… — murmurou para si mesma. O oceano respondeu apenas com o movimento suave das correntes. Depois de alguns segundos, Íris abriu os olhos novamente e começou a nadar em direção a uma parte menos frequentada do território submerso. Era ali que ela precisava ir. Havia coisas que precisaria levar. Poucas. Discretas. Mas importantes. --- Enquanto isso, em uma câmara mais profunda do Conselho, Karla permanecia imóvel diante de uma formação circular de pedras antigas que brilhavam com energia suave. Ela estava sozinha. Ou pelo menos parecia. Seus olhos estavam fechados, e suas mãos pairavam sobre a água, sentindo as vibrações que percorriam o oceano ao redor. Durante séculos, as guardiãs haviam aprendido a escutar o mar de maneiras que nenhum humano conseguiria compreender. Correntes, mudanças de energia, pequenas distorções no fluxo natural das águas… tudo isso podia ser sentido por quem sabia observar. E Karla sabia. Algo estava errado. Ela havia sentido a perturbação na câmara de reflexão dias antes. Uma presença humana. Fraca. Mas persistente. E agora… outra mudança. Muito mais sutil. Ela abriu os olhos lentamente. — Íris… — murmurou. Não era acusação. Ainda. Mas uma inquietação profunda começava a crescer dentro dela. Karla conhecia aquela jovem sereia desde que ela era pequena. Sabia de sua curiosidade, de sua tendência a questionar regras, de seu coração mais sensível que o das outras guardiãs. E também sabia algo que Íris não sabia. Algo sobre sua mãe. A memória da antiga guardiã cruzou sua mente como uma sombra. O mesmo brilho inquieto nos olhos. A mesma tendência a olhar para a superfície como se houvesse algo lá em cima que chamasse seu nome. Karla apertou levemente os dedos. — Não… — sussurrou. Ela não permitiria que a história se repetisse. Mas precisava ter certeza antes de agir. E para isso… teria que observar. Muito de perto. --- Íris chegou a uma pequena gruta escondida entre formações rochosas profundas. Poucas sereias frequentavam aquele lugar. A entrada era estreita, e a luz do oceano quase não chegava até ali. Dentro da caverna, no entanto, havia pequenos depósitos naturais formados por pedras lisas. Era onde ela guardava algumas coisas pessoais. Nada de grande valor para o Conselho. Mas coisas que eram importantes para ela. Íris entrou lentamente na gruta. A escuridão não era um problema para seus olhos. A luz fraca das algas bioluminescentes nas paredes criava um brilho azul suave que iluminava o interior. Ela se aproximou de uma pequena cavidade na rocha e retirou três objetos. O primeiro era um colar feito de conchas finas, preso por um fio resistente de alga seca. Era o único objeto que havia pertencido à sua mãe. Íris passou os dedos por ele com cuidado. Sempre havia sentido algo estranho naquele colar. Uma espécie de energia suave, como se carregasse memórias antigas. Talvez fosse apenas imaginação. Ou talvez não. O segundo objeto era uma pequena pedra translúcida que as guardiãs usavam para armazenar energia do oceano durante viagens longas. Ela poderia precisar disso fora da água. O terceiro era algo que poucas sereias possuíam. Um pequeno fragmento de coral cristalizado usado em rituais antigos de adaptação à superfície. Não permitia viver fora da água. Mas ajudava o corpo a suportar curtos períodos fora dela. Íris segurou os três objetos nas mãos. De repente, tudo ficou muito real. Ela estava realmente se preparando para fugir. Um aperto forte surgiu em seu peito. — Mãe… — murmurou. Ela não sabia por que disse aquilo. Talvez porque, naquele momento, desejasse poder perguntar o que fazer. Mas não havia respostas. Apenas escolhas. Íris guardou cuidadosamente os objetos em uma pequena bolsa feita de fibras marinhas. Depois respirou fundo. Ainda não era o momento. A fuga precisaria ser planejada com cuidado. Precisariam escolher a noite certa. A maré certa. O momento em que o Conselho estivesse menos atento. Ela começou a sair da gruta. Mas no instante em que cruzou a entrada, algo fez seu corpo inteiro congelar. Uma presença. Não muito distante. Uma energia familiar. Forte. Observadora. Íris virou lentamente a cabeça. Lá fora, entre as sombras das rochas, uma figura permanecia imóvel. Os olhos de Karla brilhavam na penumbra azul do oceano. Ela não parecia furiosa. Nem surpresa. Apenas… atenta. Muito atenta. Por alguns segundos que pareceram eternos, nenhuma das duas se moveu. Então Karla falou. Sua voz calma, mas carregada de significado. — Íris… o que exatamente você está procurando nessas cavernas tão afastadas? O coração de Íris disparou. Ela tentou manter a expressão neutra. — Apenas um momento de silêncio. Karla inclinou levemente a cabeça. — Silêncio… ou segredos? A água entre elas parecia mais pesada agora. Íris sabia que precisava ser cuidadosa. — Nem todo silêncio esconde algo errado. Karla se aproximou alguns centímetros. Seus olhos estudavam cada detalhe da jovem sereia. — Talvez. Ela fez uma pausa. — Mas o oceano costuma revelar quando alguém começa a se afastar do caminho que lhe foi dado. Íris sentiu um frio percorrer sua espinha. Karla continuou observando. E então disse algo que fez o coração de Íris apertar. — Tome cuidado com os caminhos que escolhe seguir. A voz dela era baixa. Quase um aviso. — Alguns deles… levam exatamente para o mesmo destino que destruiu sua mãe. O mundo de Íris pareceu parar. Mas Karla já estava se afastando lentamente nas correntes escuras do oceano. Deixando para trás uma única certeza. Ela estava desconfiando. E se descobrisse a verdade… A fuga de Íris poderia se tornar impossível.
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