Capítulo 4

1267 Palavras
Íris nunca tinha sentido o oceano tão pesado. Não fisicamente as águas ainda a acolhiam como sempre, mas havia uma densidade diferente nas correntes, como se cada movimento seu estivesse sendo observado. Como se as próprias marés hesitassem antes de abrir caminho. O Conselho havia sido claro. Afastada da superfície. Monitorada. E, acima de tudo, advertida. Ela tentara obedecer. Nas primeiras horas após a convocação, manteve-se nas regiões mais profundas, ajudando em tarefas rotineiras, evitando qualquer direção que a levasse para cima. Mas a inquietação não diminuía. Pelo contrário, crescia como uma vibração constante sob sua pele. Era como se algo a puxasse. Não apenas curiosidade. Não apenas culpa. Chamado. Íris fechou os olhos, deixando o corpo flutuar entre colunas de coral antigo. Tentou concentrar-se nos sons comuns: cardumes mudando de direção, correntes encontrando rochas, o eco distante de criaturas noturnas. Mas, por baixo disso tudo, havia outra frequência. Ela. E ele. Na superfície. Esperando. Quando abriu os olhos novamente, a decisão já estava tomada. Ela nadou lentamente, evitando as áreas onde Kael costumava patrulhar. Conhecia os caminhos menos vigiados — passagens estreitas entre formações rochosas, corredores naturais onde a luz quase não penetrava. Não estava fugindo. Estava escolhendo. À medida que subia, a água mudava de temperatura. Tornava-se mais leve, mais instável. Pequenas partículas refletiam a luz da lua que já tocava as camadas superiores. Quando finalmente alcançou a região próxima à costa, manteve-se parcialmente escondida atrás de um conjunto de rochas escuras. E lá estava ele. Noah. Sentado na areia, não na beira da água desta vez, mas um pouco mais afastado, como se tivesse aprendido a respeitar a distância que não compreendia. Os joelhos dobrados, os braços apoiados sobre eles. A cabeça levemente baixa. Ele parecia cansado. Mas determinado. Íris observou por alguns minutos. Ele não falava. Não chamava. Não implorava. Apenas esperava. E aquela espera silenciosa foi o que a fez emergir. Primeiro, apenas os olhos acima da água. Depois, lentamente, o rosto. A lua refletiu-se na superfície, e por um breve segundo o brilho nos olhos dela se confundiu com o brilho do mar. Noah levantou a cabeça como se tivesse sentido. Seus olhos percorreram a linha da água. Pararam. E não se moveram mais. Ele não piscou. Não respirou por um instante. — Eu sabia — a voz dele saiu baixa, mas firme, quebrando o silêncio da praia. Íris sentiu o coração acelerar. Aquela era a primeira vez que ele falava diretamente para ela com plena consciência. Ela não respondeu imediatamente. Apenas manteve o olhar. Ele levantou-se devagar, sem movimentos bruscos. — Eu não estava louco — continuou ele, aproximando-se alguns passos, mas parando antes que a água alcançasse seus pés. — Eu vi você. O vento soprou, movendo os cabelos dele e ondulando levemente a superfície onde ela estava. Íris inspirou fundo. — Você deveria ter esquecido. A voz dela era exatamente como ele lembrava. Suave. Clara. Real. Noah soltou um riso nervoso, quase incrédulo. — Eu tentei. Ela inclinou levemente a cabeça, analisando cada expressão dele. Não havia medo. Havia admiração. E uma intensidade que a deixou desconfortável de uma maneira nova. — O que você é? — perguntou ele, finalmente. A pergunta pairou no ar. Íris poderia mentir. Poderia desaparecer. Poderia cumprir a ordem do Conselho e encerrar ali. Mas estava cansada de fugir do que sentia. — Eu sou parte do que você chama de lenda — respondeu, sem desviar o olhar. Noah engoliu em seco. — Sereias não existem. — E ainda assim você está falando com uma. O silêncio que se seguiu foi longo. Ele passou a mão pelo rosto, processando. — Eu quase morri — disse ele, a voz mais baixa agora. — E você me puxou para fora. Por quê? A pergunta tinha peso. Íris deixou que a água a sustentasse enquanto pensava. — Porque você não deveria morrer naquele dia. Ele franziu a testa. — Isso não responde. Ela aproximou-se um pouco mais da borda da água, revelando parte dos ombros. — Nem tudo precisa de explicação imediata. — Para mim, precisa. Havia frustração na voz dele. Íris percebeu que, diferente dos humanos descritos pelo Conselho, ele não reagia com pânico. Reagia com necessidade de entender. — Eu ouvi algo antes da tempestade — disse ela finalmente. — Um aviso nas marés. Quando você caiu… não foi acaso. — Então foi destino? — ele perguntou, com um leve traço de ironia. Ela sustentou o olhar dele. — Talvez. Noah deu mais um passo à frente. A água tocou seus pés. Íris não recuou. — Eu tenho procurado você todos os dias — confessou ele. — Não porque acho que você vai me machucar. Mas porque… — ele hesitou, buscando as palavras certas — …porque desde aquele dia, nada parece completo. O coração dela bateu com força. — Você não deveria sentir isso. — Mas sinto. O vento soprou mais forte, levantando pequenas ondas ao redor dela. Íris sabia que cada segundo ali era risco. — O meu povo não permite contato com humanos. — Seu povo? — ele repetiu, absorvendo a informação. Ela assentiu. — Existe um mundo sob o seu que você desconhece. Ele respirou fundo, olhando brevemente para o horizonte antes de voltar os olhos para ela. — Eu não quero explorar seu mundo. Eu só quero entender por que você me salvou… e por que não consigo tirar seus olhos da minha cabeça. A sinceridade crua da frase a desarmou. Ela não estava acostumada com aquilo. Com alguém falando sem medo. Sem cálculo. — Você deveria voltar para casa — disse ela, mas a voz saiu menos firme do que pretendia. Ele deu um meio sorriso. — Você está aqui. Era simples. Direto. Perigoso. Íris aproximou-se ainda mais, até que a água agora tocava os pés dele enquanto ela permanecia parcialmente submersa a poucos metros de distância. A proximidade mudou o ar entre eles. Noah podia ver melhor os detalhes do rosto dela. A pele parecia refletir a lua de maneira sutil. Os cabelos escuros flutuavam como se a gravidade não tivesse autoridade sobre eles. — Posso tocar você? — ele perguntou, inesperadamente. A pergunta fez o coração dela falhar um compasso. Nenhum humano jamais havia pedido. A maioria que, segundo as histórias, avistara sereias reagira com medo ou ganância. Ele pedia permissão. Íris hesitou. Sabia o que aquele contato provocara da primeira vez. Sabia que o Conselho perceberia qualquer vibração incomum nas correntes. Mas também sabia que negar naquele momento seria mentir para si mesma. — Apenas uma vez — disse ela, quase em sussurro. Noah ajoelhou-se lentamente na areia molhada, estendendo a mão. Ela aproximou-se o suficiente para que seus dedos se tocassem. O contato foi diferente da tempestade. Não havia desespero. Havia consciência. Os dedos dele eram quentes. Humanos. Vivos. Quando a mão dele envolveu a dela com delicadeza, uma corrente elétrica percorreu o corpo de ambos. Íris sentiu o oceano reagir. Pequenas ondas se formaram ao redor, não violentas, mas alertas. Noah fechou os olhos por um segundo, absorvendo o momento. — Você é real — murmurou ele. — Eu nunca fui imaginação sua. Ele abriu os olhos novamente. — Então não desapareça. A frase foi simples. Mas carregava algo que ultrapassava curiosidade. Íris sabia que não poderia prometer. Sabia que estava sendo imprudente. Mas naquele instante, sob a lua, com a mão dele segurando a sua como se fosse a coisa mais natural do mundo, o oceano não parecia ameaçador. Parecia atento. Observando. Esperando o próximo movimento. E, nas profundezas, correntes começaram a mudar de direção. O Conselho sentiria. Era apenas questão de tempo.
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