Capítulo 6

1359 Palavras
O sol começava a se pôr sobre a linha do horizonte quando Noah retornou à praia. Não havia tempestade. Nenhuma ameaça visível. Apenas o som constante das ondas, quebrando em ritmos que pareciam ditar a própria passagem do tempo. Ele caminhava com passos lentos, observando cada detalhe: a espuma que se quebrava na areia, a luz dourada refletindo na superfície da água, o aroma salgado que preenchia o ar. Cada sentido estava aguçado, como se soubesse que algo o esperava. E ela estava lá. Íris permanecia parcialmente submersa, os cabelos escuros flutuando como sombras líquidas. A luz do pôr do sol refletia nos olhos dela de uma maneira que parecia capturar o próprio brilho do mar. Noah parou, quase sem respirar. Era impossível explicar o efeito que ela provocava. Não era apenas beleza, mas presença, autoridade, magnetismo. Cada gesto era uma linguagem silenciosa, e ele compreendia cada nuance sem precisar de palavras. Ela o observava com calma, mas havia tensão em seus ombros. O Conselho ainda pairava sobre ela, lembrança constante da linha que cruzara. Mas naquele momento, nada disso importava. Ele era real, ela era real, e o tempo parecia curvar-se para que aquele encontro acontecesse sem pressa. — Você voltou — disse Íris finalmente, a voz suave, carregando curiosidade e cautela. Não havia acusação, apenas reconhecimento. — Eu nunca realmente fui embora — respondeu Noah, aproximando-se um pouco mais da água, sem romper a distância segura que ele sentia entre eles. — Eu precisava saber se você era real. Ela sorriu levemente, um gesto que parecia iluminar a superfície ao redor. — E agora sabe? — Agora tenho certeza — disse ele, e a convicção na voz dele fez com que Íris sentisse uma onda de surpresa misturada a algo mais profundo, algo que se aproximava de alívio. Ele parou, fitando cada detalhe do rosto dela. O vento brincava com os fios de cabelo dela, o brilho da água refletindo nos olhos como se fossem pequenos universos líquidos. Noah levantou a mão lentamente, hesitando apenas um instante antes de estender o braço. — Posso me aproximar? Íris avaliou cada gesto. Ele não era impulsivo, não havia desespero, apenas uma cautela que ela não esperava de um humano. — Apenas até aqui — disse, indicando com um gesto sutil a linha onde a água a sustentava. — Eu não posso sair totalmente da água. Ele assentiu, caminhando até a beira da água. Quando os pés dele tocaram a espuma da onda, ela sentiu uma vibração diferente percorrer as correntes. Como se o oceano estivesse atento, curioso, mas sem intervir. Noah parou frente a frente com ela, os olhos verdes fixos nos olhos azuis dela, e por alguns segundos apenas permaneceram assim, em silêncio, absorvendo a presença do outro. — Desde o acidente — começou Noah, a voz baixa, quase quebrando o silêncio do mar —, eu não consigo parar de pensar em você. Em nós. No que aconteceu naquele dia. E… eu precisava ver se era real, se eu não tinha imaginado tudo. Íris respirou fundo, sentindo o coração acelerar. — Você não imaginou — disse ela com firmeza, e havia algo em sua voz que parecia admitir mais do que queria. — Eu estava lá. Eu vi você. E eu… eu não podia deixar você morrer. A aproximação deles parecia natural, mesmo com a distância que a prudência impunha. Noah inclinou-se levemente, permitindo que seus dedos tocassem a superfície da água, tão próximos da mão dela que parecia que uma única onda poderia conectá-los. — Eu tentei esquecer — disse ele, a voz embargada —, mas não consegui. Cada imagem, cada instante daquele dia, voltou para mim repetidamente. E quando a noite chega, eu ainda sinto que você está perto. Que eu posso encontrá-la se estiver aqui, se eu olhar com atenção. Ela sentiu o peito apertar com cada palavra. — Você me lembra que o mundo fora do nosso é tão persistente quanto dentro dele. Mas você não entende completamente os riscos. O Conselho… — a voz dela baixou, carregando aviso e pesar —, eles não podem saber de nossos encontros. Ele aproximou-se um pouco mais, ainda sem entrar totalmente na água, e segurou o gesto da mão dela com delicadeza. O contato era leve, quase imperceptível, mas carregava uma carga de significado que nenhum gesto humano comum poderia carregar. — Eu sei dos riscos — disse Noah —, mas não posso ignorar o que senti naquele dia. Não posso ignorar você. O toque deles foi sutil, quase imperceptível para quem não estivesse atento, mas Íris sentiu uma onda percorrer seu corpo. Cada fibra dela parecia reconhecer o toque humano de Noah de maneira inesperada. Ela fechou os olhos por um instante, sentindo a segurança que não deveria sentir, mas ao mesmo tempo a tensão do que poderia acontecer se o Conselho descobrisse. — Noah… — começou ela, hesitando —, você não entende. O que fazemos, quem somos… — ela suspirou, tentando organizar palavras —, não é apenas um segredo, é a sobrevivência do nosso povo. Cada gesto fora de lugar pode colocar tudo em risco. Ele segurou o olhar dela, os olhos verdes fixos nos azuis profundos dela. — Eu não quero destruir nada — disse ele com sinceridade —. Quero apenas entender, e… e talvez fazer parte do que você é. A intensidade na voz dele fez o coração de Íris acelerar. Ela nunca havia sentido algo assim antes: confiança completa, mas misturada com admiração e necessidade. — Noah… — a voz dela saiu quase um sussurro —, isso é perigoso. Mas… eu não posso negar que eu também queria ver você novamente. Ele sorriu levemente, a tensão no corpo suavizando. — Eu senti isso também — disse Noah. — Eu sabia que você estava me observando. Senti você na água, mesmo sem ver. O silêncio voltou, mas desta vez não era desconfortável. Era carregado de possibilidades. O toque deles continuava, agora mais consciente. Íris aproximou os dedos, permitindo que Noah segurasse sua mão com firmeza, não apenas na superfície da água, mas com intenção. A proximidade deles era mínima, mas cada centímetro carregava um universo de significado. — Eu não posso prometer que vou conseguir protegê-lo do Conselho — disse ela, finalmente —, mas posso prometer que vou tentar. Enquanto eu puder. Ele apertou a mão dela suavemente, respondendo à promessa silenciosa. — E eu prometo que vou fazer o que puder para respeitar o que você é — disse Noah. — Para entender você. Para não trazer perigo. O vento soprou mais forte, agitando a superfície da água ao redor deles. O sol estava quase desaparecendo no horizonte, tingindo o céu com tons de laranja e violeta. Íris inclinou-se levemente, deixando a água cobrir parcialmente os ombros, como se buscasse conforto no elemento que era parte dela e não dele. Noah observava cada movimento com atenção, fascinado. — Você é diferente de tudo que eu conheço — disse ele, quase em sussurro. — E ainda assim… parece tão próxima, tão tangível, que às vezes tenho medo de abrir os olhos e você desaparecer. Ela sorriu suavemente, sentindo cada palavra tocar uma parte de si que ela sempre tentou manter oculta. — Talvez seja isso que significa ser humano — disse ela —. Ter medo de perder algo que não se pode possuir completamente. Ele aproximou-se ainda mais, apenas o suficiente para sentir a energia dela, mas sem quebrar a barreira natural da água. — Então não vou ir embora — disse Noah —. Nem hoje, nem enquanto houver chance de entender você melhor. O toque deles permaneceu, um contato consciente, silencioso, carregado de possibilidades. Cada respiração de Noah parecia sincronizar-se com o ritmo das marés ao redor. Cada olhar dela transmitia uma promessa silenciosa. O oceano parecia observar, atento, curioso, mas sem intervir. E naquele instante, a praia deixou de ser apenas areia e mar. Tornou-se o ponto onde dois mundos se encontravam, carregados de segredos, emoções e escolhas que ninguém mais poderia compreender. O Conselho podia ameaçar. As correntes podiam alertar. Mas por enquanto, eles estavam ali. Presentes. Conscientes. Reais.
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