Serena despertava lentamente enquanto a luz do sol filtrava-se pelas cortinas m*l fechadas. Seus olhos piscaram algumas vezes, acostumando-se à claridade suave. Ela sentou-se na beira da cama e, por um momento, permaneceu ali, perdida em pensamentos. A movimentação da cidade, visível pela janela, chamou sua atenção. Aproximou-se do vidro e observou os carros e as pessoas lá embaixo. Um suspiro escapou de seus lábios ao lembrar que aquele seria o primeiro dia de seu curso.
Levantou-se rapidamente e foi ao banheiro, tomando um banho rápido e gelado para afastar a letargia. De volta ao quarto, encarou suas poucas roupas no armário. Um vestido simples, mas em bom estado, chamou sua atenção. Colocou-o com cuidado, calçou uma rasteirinha e prendeu a respiração antes de se olhar no espelho.
"É o melhor que tenho", murmurou para si mesma, tentando reunir coragem.
Ao sair do quarto, encontrou a sala vazia e decidiu esperar por Alessandro. Sentada no sofá, suas mãos suavam. Nunca havia pisado em uma universidade. Imaginava corredores amplos e pessoas sofisticadas, muito diferentes do mundo simples que conhecia.
Pouco depois, Alessandro apareceu, conversando ao telefone com uma expressão séria. Ele usava uma roupa impecável, sua postura autoritária e confiante. Após encerrar a ligação, ele a encarou brevemente.
— Vamos. — A voz era fria.
Serena assentiu, levantando-se apressadamente para segui-lo.
No elevador, o silêncio era denso. Alessandro não parecia notar o nervosismo que transparecia nos gestos de Serena.
No carro, ela observava a cidade através da janela. Tudo era fascinante, tão diferente de sua realidade anterior. Mas, ao chegarem à imponente universidade, sua fascinação deu lugar à insegurança.
— É aqui? — ela perguntou, sua voz embargada pela surpresa. Seus olhos brilhavam ao contemplar o edifício. — Meu Deus, é enorme...
Alessandro lançou-lhe um olhar rápido, seus lábios curvando-se em um sorriso cínico.
— Sim, aqui.
Serena desceu do carro e o seguiu em silêncio. O ambiente era grandioso, e as pessoas que passavam pareciam seguras de si, vestindo roupas que ela só vira em revistas. Sentia-se deslocada, mas esforçava-se para manter a compostura.
O diretor os recebeu com um sorriso profissional, mas logo passou a analisar Serena de cima a baixo, como se questionasse o que ela fazia ali.
— Então, é ela que será nossa nova aluna? — perguntou, olhando para Alessandro.
— Sim, é ela — respondeu Alessandro, direto, lançando um olhar de advertência para Serena.
Ela se limitou a cumprimentar o diretor com timidez, seu corpo rígido de nervosismo.
Depois de alguns minutos, o diretor entregou-lhe um papel com os horários e informações do curso.
— Amanhã você pode começar, Serena. Seja bem-vinda.
Ela agradeceu com um sorriso hesitante e segurou o papel como se fosse um troféu.
Alessandro, impaciente, apertou a mão do diretor e encerrou a reunião.
— Vamos.
De volta ao carro, Serena tentou disfarçar seu nervosismo.
— Obrigada. Espero me acostumar logo... É tudo tão grande que temo me perder. — Sua voz era quase um sussurro, acompanhada de um sorriso tímido.
— Questão de costume — respondeu Alessandro, sem olhá-la.
Durante o trajeto, ele recebeu uma ligação de sua secretária, informando sobre uma emergência na empresa. Alessandro bufou e mudou a rota, agora em direção ao escritório.
— Eu ia deixá-la no apartamento, mas tenho que resolver algo na empresa.
Serena apenas assentiu, sentindo-se pequena em meio à sua falta de importância no mundo dele.
Ao chegar à empresa, ela ficou impressionada com o luxo e a elegância do lugar. Seguiu Alessandro a passos tímidos, percebendo os olhares curiosos que recebia. Ele indicou um assento para que ela esperasse.
Enquanto aguardava, uma mulher deslumbrante e bem vestida se aproximou. Ela lançou um olhar de desprezo a Serena, como se a simples presença dela fosse um incômodo. Serena tentou manter-se firme, mas o julgamento silencioso daquela mulher perfurava sua frágil autoconfiança.
Pouco depois, Alessandro retornou, acompanhado por sua secretária, que fazia anotações apressadas. Antes que ele pudesse falar, uma voz feminina chamou por ele.
— Alessandro!
Ele virou-se e reconheceu a figura esbelta e elegante que se aproximava com passos calculados.
— Brenda — respondeu, um sorriso surgindo em seus lábios.
Ela o abraçou com familiaridade.
— Você some se eu não te procuro — disse, com um tom misto de sensualidade e falsa indignação.
— Ando ocupado ultimamente. — Alessandro respondeu casualmente, mas permitiu que Brenda permanecesse próxima.
Serena, desconfortável, finalmente decidiu intervir.
— Já vamos, Alessandro? — perguntou, sua voz suave, mas firme o suficiente para chamar a atenção dos dois.
Brenda finalmente voltou o olhar para Serena.
— Quem é ela? — perguntou, confusa.
Antes que Alessandro pudesse responder, Serena deu um passo à frente.
— Sou a esposa dele.
O silêncio que se seguiu foi palpável. Brenda olhou de Alessandro para Serena, incrédula.
— Isso é uma piada, certo?
— Infelizmente, não — respondeu Alessandro, seco, sem disfarçar sua irritação.
Serena sentiu o coração apertar ao ouvir o tom de desprezo em sua voz.
— Como isso aconteceu? Você... com ela? — Brenda gesticulou em direção a Serena, como se fosse algo inconcebível.
— Outra hora explico. Tenho que ir — Alessandro encerrou o assunto, chamando Serena para segui-lo.
No carro, o silêncio era opressor. Até que Alessandro a encarou com uma expressão dura.
— Que diabos foi aquilo?
— O quê? Dizer que sou sua esposa? Mas... eu sou.
Ele suspirou, exasperado.
— Não faça mais isso. Logo essa merda vai acabar.
As palavras dele eram secas, mas Serena decidiu segurar as lágrimas.
Quando Alessandro recebeu a ligação, ativou o viva-voz enquanto dirigia, o semblante frio e indiferente de sempre.
— Fala, Lucas — respondeu, a voz firme, mas sem entusiasmo. — Depois conversamos.
Lucas, no entanto, ignorou a tentativa de encerrar o assunto:
— Espera aí, cara. Pelo visto, a noite com aquela gatinha ontem não resolveu muita coisa, hein? Ou será que a transa não foi tão boa assim?
— riu, sua voz carregada de ironia.
Serena congelou no banco ao lado, a respiração presa. Uma lágrima traiçoeira escorreu antes que ela pudesse impedir, queimando sua pele como um lembrete c***l da humilhação.
Alessandro suspirou, irritado, mas não hesitou em responder:
— Ah, a noite foi boa, sim. Muito boa, na verdade. Mas, você sabe como é, Lucas. A realidade aqui é que não é boa.
— Ele riu, seco, o olhar fixo na estrada.
Lucas riu novamente, parecendo se divertir com a conversa:
— Você tá falando da sua mulher?
Alessandro lançou um rápido olhar para Serena, que agora abraçava o próprio corpo em um gesto de autoproteção. Ele respondeu com frieza:
— Sim, e ela está aqui. Diga oi para ela.
Houve um momento de silêncio antes que Lucas falasse, a voz soando desconfortável:
— Putz, cara. Desculpa.
Alessandro riu com sarcasmo.
— Que isso, Lucas. Serena sabe o lugar dela. Não é mesmo, minha querida esposa?
Serena sentiu a vergonha se intensificar com aquelas palavras. Lucas, por sua vez, murmurou uma desculpa apressada antes de encerrar a ligação.
Quando o silêncio voltou a preencher o carro, Alessandro virou a cabeça em sua direção, os olhos frios e penetrantes.
— E então? Tá surpresa? — perguntou, um sorriso debochado curvando seus lábios.
Serena tentou encontrar sua voz, mas tudo que conseguiu foi um sussurro trêmulo:
— Alessandro... como você pode? Eu... eu sou sua esposa.
Ele soltou uma risada curta, carregada de desprezo.
— Esposa? — repetiu, como se a palavra fosse uma piada amarga. — Serena, você realmente acha que isso significa alguma coisa? Acha que eu ficaria sem t*****r?
Ela arregalou os olhos, a dor em seu peito aumentando com cada palavra que ele proferia.
— Ma-mas... somos casados — insistiu, a voz embargada.
Alessandro perdeu a paciência, seu tom ficando mais cortante:
— Ou você é muito ingênua ou simplesmente burra. Vou repetir para ficar claro: eu não me interesso por você. Não quero você como esposa, mulher ou qualquer coisa que imagine.
Serena piscou rapidamente, tentando conter as lágrimas que insistiam em cair. As palavras dele deixando uma ferida profunda e aberta. Ela simplesmente não conseguiu encontrar mais nenhuma resposta.
Por um instante, Alessandro a observou, algo que quase parecia arrependimento piscando em seus olhos. Mas, como um reflexo, ele afastou qualquer traço de empatia e voltou a focar na estrada.
Chegaram ao prédio. Ele estacionou e, sem sequer olhar para ela, ordenou com frieza:
— Desce.
Serena desceu apressada, o coração pesado e a cabeça baixa, enquanto Alessandro acelerava, deixando-a sozinha com a dor e o som do motor se afastando.