Capítulo 39 – Feridas Abertas

1018 Palavras
A manhã estava ensolarada, e o cheiro de terra molhada ainda pairava no ar, um resquício da chuva leve da madrugada. Depois do café, Serena sentiu um impulso estranho. Precisava respirar. Precisava sentir. Sem dizer nada a ninguém, tirou os sapatos e deixou os pés tocarem o chão da fazenda. A relva fresca acariciava sua pele, úmida e irregular, diferente do que estava acostumada nos últimos tempos. Sorriu sozinha. Percebeu que seus pés, antes tão acostumados à liberdade, agora pareciam mais confortáveis com os sapatos do que com o toque da natureza. Cá entre nós, Serena… você está mesmo mudando, pensou. Enquanto caminhava lentamente pelos campos vastos da fazenda Castellani, o vento brincava com os fios soltos de seu cabelo. Seus pensamentos vagavam, como sempre, em direção a um nome: Alessandro. Ela odiava admitir, mas ele ainda habitava seu coração. Apesar das p************s, do orgulho cortante e dos gestos cruéis… havia algo ali. Uma parte dela acreditava – ou queria desesperadamente acreditar – que o amor podia mudá-lo. Suspirou pesadamente, balançando a cabeça em negação. — Talvez eu esteja sendo i****a de novo — murmurou para si mesma. Ficou ali, imóvel, observando o horizonte. O céu limpo, o som distante dos bois, o balançar das folhas ao vento. Tudo parecia em paz, menos seu coração. --- Do outro lado da casa, no escritório, Alessandro estava encostado na cadeira de couro, com um copo de whisky na mão e o telefone no ouvido. A voz de Lucas, seu melhor amigo, soava com ironia do outro lado da linha. — Cara, você ficou com ciúmes da Serena com o Luiz Fernando e nem percebeu — provocou Lucas. Alessandro soltou uma risada seca, debochada. — Ah, pronto… agora você também? Isso não é ciúmes, é irritação. Não suporto aquele cara. Ele ajudou a causar essa palhaçada toda. E é óbvio que ele gosta dela. Ele levou o copo à boca, tomou um gole e continuou com voz firme: — O i****a cavou a própria cova. Se tivesse ficado calado, eu teria ido embora e ele teria o caminho livre. Mas quis bancar o herói e correu pro meu pai. Agora aguente. — Hm… — Lucas murmurou, desconfiado. — Tem certeza que é só isso, Alessandro? Talvez você só não tenha percebido que está começando a gostar da garota… Alessandro franziu a testa, irritado. Passou a mão pelos cabelos, num gesto impaciente. — p***a, Lucas, desde quando você virou conselheiro sentimental?! Eu não gosto da Serena. Muito menos quero estar nesse casamento ridículo. Lucas deu uma risada curta, sem acreditar. — Só acho que devia pegar mais leve com a garota. Ela parece gostar de você. Alessandro não respondeu. Ficou apenas olhando para o fundo do copo, perdido em pensamentos. Serena voltou para o casarão, os pés levemente sujos de terra, o coração apertado. Subiu as escadas em silêncio e foi direto para o quarto. Ao empurrar a porta, o encontrou em frente ao espelho, abotoando a camisa branca com movimentos mecânicos. Ela o observou por um instante. Mesmo sem vê-la, ele percebeu sua presença. — Como você está? — perguntou ela, com a voz calma, mas carregada de cuidado. Ele deu um leve sorriso de escárnio, ainda concentrado nos botões da camisa. — Ah, eu tô ótimo — disse, sarcástico. — Um poço de favores hoje. Quer mais alguma coisa? Talvez um milagre? Serena respirou fundo, sentou-se na beirada da cama e o olhou com sinceridade. — Hoje vi algo diferente nos olhos do seu pai... Tristeza. Nunca o vi assim. Ele sempre foi forte, impenetrável. Mas hoje, estava quebrado. Achei que… Ele a interrompeu com um gesto brusco, virando-se para encará-la. — Ah, não começa. Hoje parece que o dia foi reservado pra todo mundo me dar sermão. E, sinceramente? O que você pensa não me interessa. Serena apertou os lábios, sentindo o estômago se revirar com a frieza dele. — Devia interessar, Alessandro. Você ama o seu pai, não ama? Ele só quer o melhor pra você. E sinceramente, não estou falando só do nosso casamento. Estou falando de você. De como você está se perdendo. Ele fechou os olhos por um segundo, irritado. — Chega, p***a! — explodiu, jogando o copo vazio sobre a cômoda. — Eu só quero minha vida de volta. A vida que eu tinha antes dessa merda toda começar! O silêncio que se seguiu foi denso. Serena manteve a calma, mesmo sentindo as lágrimas querendo surgir. — Tudo bem. Mas você quer resolver isso… Foi o que me pediu. Disse que, para seu pai acreditar, teríamos que fingir estar bem. Por que não tentar de verdade, pelo menos de forma pacífica? Se for pra fingir… que seja algo que não nos destrua ainda mais. Ele a encarou por longos segundos. Seus olhos castanhos estavam escurecidos pela raiva, mas havia algo ali... talvez uma fresta. Ele respirou fundo, passou as mãos pelo rosto. — Talvez… talvez você tenha razão. Eu vou tentar pegar leve. Serena sorriu, aliviada. — Então vamos descer. Mostrar ao seu pai que está tudo bem. E se puder… fale com ele sobre o que aconteceu. Ele precisa disso. Alessandro assentiu com a cabeça, a contragosto. Sabia que, se não fizesse algo, colocaria tudo a perder. E, apesar de não admitir nem para si mesmo… não queria perder. --- Quando chegaram à varanda, Inácio e Eleonora estavam sentados em poltronas de vime, tomando chá. A brisa leve balançava as cortinas e o canto de um passarinho preenchia o silêncio da tarde. Serena e Alessandro se sentaram próximos, e as primeiras palavras trocadas foram simples, quase ensaiadas. Após alguns minutos, Alessandro se levantou, pigarreando. — Pai, podemos conversar um pouco? No escritório? Inácio o encarou com certo espanto, mas assentiu, levantando-se devagar. Eleonora olhou para Serena, surpresa, mas sorrindo com gentileza. Enquanto os homens se afastavam, Serena e Eleonora ficaram tomando chá. A senhora a olhou com carinho e disse: — Você está conseguindo algo que ninguém jamais conseguiu com Alessandro… fazê-lo pensar. Só tome cuidado, minha filha. Feridas antigas demoram a cicatrizar. Serena baixou os olhos, apertando a xícara nas mãos.
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