Miguel estranhou quando abriu o relatório do novo caso que chegou para si, o ruivo não imaginava que veria um caso daquele novamente. Yuri suspirou e se inclinou na cadeira, olhou o primo e logo iniciou sua fala.
— O pai dele veio conversar comigo, me procurou para abrir a denúncia contra o internato, o filho foi manipulado e dopado, não teve nenhum cio, mente infantil e oferece uma resistência para compreender e aceitar a decisão do pai. —Yuri explicou.
— Do pai? — Miguel questionou. — E a mãe? Pelo relatório, os dois estão juntos.
— É isso que eu preciso que você descubra... O pai parece estar disposto a ir até o fim com essa denúncia e mostrou grande preocupação com o filho, mas a mãe parece não querer denunciar o internato e na verdade a diretora e ela são grandes amigas... — Yuri falou e Miguel compreendeu. — Acho que a mãe sabia de tudo e ajudou a diretora.
— Isso é algo bem grave... — Miguel falou. — Se ela tiver feito isso mesmo, é um abuso psicológico! — Miguel explicou.
— Eu sei... E acredito que se o pai souber disso, pode acontecer algo grave, provavelmente a separação ou pior...
— Ele se mostrou violento?
— Não, mas é ex fuzileiro... Serviu na guerra do Iraque, e é alguém bem grande e forte, a mulher é manipuladora e ele confia cem por cento nela. Mas, ele com o filhote é extremamente protetor e parece prioriza-lo.
— Ele pode surtar! — Miguel falou. — Preciso conversar com eles... De preferência somente com o pai. — Miguel falou.
— Isso não é difícil... Ele vai buscar o filho hoje, eu falei com ele que você iria conversar com ele primeiro. — Yuri falou. — Se a mãe estiver envolvida, vamos abrir denuncia e processo.
— Confia tanto assim que o pai prioriza o filhote? — Miguel questionou.
— Ele quebrou a sala da diretora na hora que soube... — Yuri falou. — A mãe tentou convencer ele a não seguir com a denúncia e só tirar o filhote da escola... — Yuri falou.
— Vamos lá... Estou curioso! — Miguel falou rindo.
(>Harry e eu!
Harry?
Miguel continuou foleando e alguns desenhos chegavam a ser assustadores, muitos eram pretos e retratavam violência, Miguel estranhou aquilo e continuou a ver, os únicos coloridos eram do tal Harry e com o pai.
Eu sinto saudades do papai, queria ver ele...
Ravi sentia falta do pai!
O próximo fez o ruivo ficar encarando as palavras com muita seriedade, era uma bola completamente preta, mas as palavras escritas ali diziam muito sobre o desenho.
Mamãe disse que não sei desenhar e disse que o papai não quer me ver... A tia me machucou e eu não gosto de tomar os remédios!
Ravi desenhava e gostava de fazer aquilo, mas a mãe dizia que ele não sabia, provavelmente por considerar que os desenhos não eram bons o suficiente.
Miguel voltou a levantar o colchão e encontrou um caderno menor que os outros, o ruivo pegou o objeto e voltou a sentar no chão, assim que abriu a primeira página soube que aquilo era o diário de Ravi.
Miguel então começou a ler.
Hoje é aniversário do Harry, mas a mamãe disse que não posso ir porque ele já virou um adolescente e não quer brincar mais comigo, eu fiquei triste, porque o Harry sempre prometeu que seria meu irmão.
Miguel precisava saber quem era esse Harry!
Alguém bateu na porta e Miguel se apressou em esconder os cadernos e o diário, abriu a porta e se deparou com o pai de Ravi, ele era bem alto e a cara de Ravi, apenas com seus traços mais marcados.
— Você é o psicólogo? — Ele questionou e Miguel confirmou, o loiro entrou e logo olhou o quarto com certo desprezo.
— Você é o pai... — Miguel falou fechando a porta e virando na direção do alfa que já tinha as mãos enfiadas no bolso do moletom azul, Miguel cruzou os braços e com certeza ficou um tanto intimidado com a presença do alfa. — Bom, eu vou acompanhar seu filho até o fim do processo.
— E depois?
— Ele vai ser encaminhado para outro psicólogo de minha confiança. — Miguel explicou. — Seu filho não me parece ser um caso muito difícil, ele é bem doce e sincero...
Ethan não segurou o sorriso e Miguel sentiu a presença do outro diminuir.
— Acha que ele pode ir à escola?
— Vou ter mais algumas conversas com ele, mas acho que ele poderá frequentar a escola... Hm... Quem é Harry? — Miguel questionou.
— O primo do Ravi, os dois sempre foram melhores amigos...
— Ele pergunta pelo Ravi?
— Todos os dias... Ele está bem animado com volta do meu filho para casa. — Ethan falou e Miguel suspirou.
Os dois conversaram um pouco mais e logo saíram do quarto. Ethan foi para perto de Ravi e Kayte e Yuri logo se aproximou.
— É a mãe! — Miguel falou. — Embaixo do colchão tem cadernos, preciso de todos eles e qualquer coisa que possa ter um desenho, principalmente os desenhos. — Miguel falou. — Mas, os pais não podem saber, fica em segredo.
— Algo preocupante?
— Para lá de preocupante! — Miguel falou de forma sincera.
(><)
Ethan sentia que seu corpo estava um tanto paralisado, ele não tinha reação diante de tudo que acontecia, o médico que atendeu Harry surgiu e disse que o ruivo ficaria bem, porém passaria a noite no hospital para observação.Quando Marsha e Miguel saíram do quarto de Ravi, todos ficaram de pé e Miguel foi diretamente a Ethan, puxou seu braço delicadamente até um canto e assim os dois poderiam ter uma conversa mais privada, Marsha chamou os outros familiares e assim explicaria a situação de forma impessoal.
— Ethan, o Ravi teve um surto de raiva... Isso foi desencadeado pela presença da Kayte. — Miguel falou e isso Ethan já sabia. — Porém, não foi só por ela estar presente, mas por ela querer obrigar ela a algo que ele não queria.
— Eu não entendi... — Ethan falou e Miguel suspirou.
— Ravi queria estar no parque com os amigos, ele queria continuar lá e a mãe queria obrigar ele... — Miguel explicou. — O tratamento o deixa sensível, seus sentimentos são mais intensos e por isso ele surtou. Provavelmente ficou incomodado com todas as vezes que a mãe o obrigava a algo e essa situação foi o estopim.
— Eu... Eu não sei o que fazer ou dizer...
— Só continue mantendo a sinceridade com ele, o Ravi confia em você e isso é muito bom. — Miguel falou e seus olhos castanhos logo viram o curativo no braço do loiro. — Ele machucou você?
— Me mordeu... — Ethan falou. — Algum motivo para ele ter desmaiado junto com o Dante?
— Dante foi tomado pelo lobo dele, ele ficou incomodado com a presença violenta e forçou a sua em cima da dele, por isso Ravi desmaiou, só que Dante também se esgotou.
— Eles vão ficar bem?
— Vão sim... — Miguel falou sorrindo e viu o alfa suspirar aliviado, mas seus olhos encheram-se de lágrimas e Ethan parecia prestes a surtar. — Vem cá... — Miguel falou chamando o loiro para uma sala que Marsha permitiu que ele usasse. — Está tudo bem com você?
— Achei que você fosse psicólogo somente do meu filho... — Ethan falou rindo.
— Eu sou..., mas, sei reconhecer quando alguém necessita de uma conversa. — Miguel falou calmo e sentou na cadeira de frente para Ethan.
— Eu só queria ter reparado antes... A Kayte sempre foi muito severa com o Ravi e eu achei que ele ir para o internato seria melhor.... Pelo menos lá ele não teria que aguentar tantas críticas da mãe.
— Ela criticava muito ele?
— Sim... Ela queria que ele fosse perfeito em tudo. — Ethan contou secando o rosto. — Ele amava desenhar e ela vivia dizendo que os desenhos não estavam bons, que ele deveria tentar de novo e fazer um melhor... — Ethan falou. — Até o dia que ele cansou e disse que odiava desenhar, ela gritou com ele, eu cheguei em casa e ele estava chorando. No outro dia ela falou do internato e eu deixei...
— Não foi sua culpa. — Miguel falou.
— Foi sim, eu me acomodei na ideia de ele preferir o internato do que a própria casa, eu a deixei manipular tudo e agora meu filho está tendo surtos de raiva.
— Ethan, você se separou assim que soube o que ela fez, você prioriza seu filho acima de tudo e isso é muito bom... — Miguel falou tocando na mão trêmula.
— Mas se eu tivesse me atentado antes.
— Não é sua culpa, você confiou na mãe dele...
— Meus pais nunca gostaram dela... Meu pai conhece o pai dela e vivia dizendo para mim que ela mentia sobre as coisas, só não digo que me arrependo de ter me casado com ela, porque tivemos o Ravi. — Ethan falou e Miguel riu.
— Você deveria sair... Saia com os amigos, ou com alguém, mas dê um tempo a isso tudo, ou você vai acabar doente. Esse surto do Ravi, pode não parecer, mas foi bom, mostrou que ele já sabe dizer o que quer ou não.
Ethan sorriu para o ruivo e Miguel sorriu de volta.
— Bom, eu preciso montar um quarto para ele de novo... Não é muita coisa, mas preciso encontrar um abajur rosa urgentemente,
— Ravi não gosta tanto assim de rosa... — Miguel falou.
—Como assim? Ele tem tudo rosa... — Ethan falou e Miguel o ficou encarando. — Entendi... A mãe dele fez ele gostar de rosa...
— Isso!
— Que cor ele gosta? — Ethan questionou.
— Pergunta para ele... Faz isso junto com ele, deixa ele participar e sentir que está fazendo parte das coisas. — Miguel falou e Ethan concordou.
— Obrigado... Está fazendo mais do que seu trabalho, principalmente comigo.
— Você deveria procurar alguém para conversar...
— Isso é um aviso de que não vai mais me atender informalmente? — Ethan falou rindo e Miguel se sentiu tímido.
— Não é isso, não posso te atender como profissional, mas como amigo, ficaria feliz em conversar com você. — Miguel falou e Ethan sorriu.
— Amigo é? — Ethan questionou olhando diretamente nos olhos de Miguel, o ômega sentiu seu rosto esquentar rapidamente.
— É... Amigo... Hm, você deveria descansar, já está quase amanhecendo.
Ethan agradeceu e assim saiu da sala, logo Marsha entrou e encarou o ruivo.
— Está tudo bem? — Marsha questionou.
— Está sim... — Miguel falou. — A gente só estava conversando... — O ruivo falou ficando de pé.
— Aquele alfa é uma delícia! — Marsha falou fazendo Miguel gargalhar.
— Por deus, Marsha!
— O que? Vai dizer que nunca reparou? Ele na adolescência era uma delícia, mas agora? Ele envelheceu igual vinho! — A Haruno falou.
— Não tenho opinião sobre isso...
— Não precisa mentir... Qualquer um repara no Ethan!
— Eu não!
— Sei...
Miguel apenas riu e decidiu ir para casa, ele estaria de volta assim que Ravi acordasse e ele precisava descansar.