O suor escorria pelo rosto de Neto enquanto ele abotoava a calça, ofegante. O escritório nos fundos do camarote cheirava a sexo rápido e uísque barato. A mulher, uma das muitas convidadas da noite, ainda tentava se ajeitar no sofá, mas ele nem olhou para trás. Para o Abutre, pessoas eram como cigarros: ele usava, descartava e pisava em cima para apagar a brasa.
— Sai logo daqui — rosnou ele, limpando o canto da boca com as costas da mão.
Ele saiu do escritório com o ego inflado pela adrenalina da transa e do sucesso dos negócios. Ao abrir a porta que dava para o camarote VIP, o som ensurdecedor do funk o atingiu como um soco, do jeito que ele gostava. Ele caminhou em direção ao sofá de couro onde tinha deixado Catarina, esperando encontrá-la sentada, cabisbaixa e obediente, como o troféu que ele tanto se orgulhava de exibir.
Mas o sofá estava vazio.
Neto parou no meio do camarote. Seus olhos pequenos e cruéis percorreram o ambiente, ignorando as outras mulheres e os aliados que tentavam puxar conversa.
— Onde ela está? — ele perguntou para o segurança que estava na porta.
— Ela foi ao banheiro, patrão. Já faz um tempo.
O sangue de Neto subiu para a cabeça. Ele caminhou até o banheiro e chutou a porta com toda a força. O estrondo fez as mulheres lá dentro gritarem, mas não havia sinal de Catarina. O pânico de perder o controle sobre sua propriedade começou a se transformar em uma fúria cega.
Ele voltou para a beira do camarote, de onde se via toda a multidão lá embaixo. Ele pegou o microfone que o DJ usava e, com um olhar de puro ódio, deu a ordem.
— DESLIGA ESSA p***a! AGORA! — O grito dele ecoou pelos alto-falantes, e a música foi cortada abruptamente.
O silêncio que caiu sobre o morro foi imediato e aterrorizante. Todas as pessoas pararam de dançar, olhando para cima, para o camarote onde o dono do morro parecia um animal raivoso prestes a atacar.
— Ninguém entra e ninguém sai desta favela! — Neto gritou ao microfone, a voz tremendo de raiva. — A Catarina sumiu. Eu quero ela agora! Procurem nos banheiros, na quadra, em cada beco, em cada bueiro dessa p***a! Se ela não aparecer em dez minutos, o baile vai virar um velório.
Os vapores começaram a se movimentar como baratas tontas. Homens armados com fuzis invadiram as vielas, chutando portas, revistando carros e revirando tudo o que viam pela frente. O clima de festa morreu, substituído pelo medo sufocante que o Abutre espalhava.
Dez minutos se passaram. Neto andava de um lado para o outro no camarote, socando o corrimão de metal até suas mãos sangrarem.
Um dos seus homens de confiança, um vapor jovem que estava encarregado da segurança da escada de serviço, subiu correndo, ofegante e pálido.
— Patrão... a gente procurou em tudo. Olhamos a quadra, as vielas do leste, as casas abandonadas... Ninguém viu a Dona Catarina. Ela sumiu, patrão. Ninguém sabe como.
Neto parou de andar. Ele se aproximou do rapaz lentamente, com uma calma que era muito mais perigosa do que os seus gritos anteriores.
— Como é que é? — perguntou Neto, a voz baixa. — Você está me dizendo que uma mulher, de salto alto e vestido justo, evaporou do meio do meu morro e ninguém viu?
— Patrão, eu juro, a gente tá tentando... talvez ela tenha se escondido em alguma...
Neto não deixou o rapaz terminar. Com a rapidez de uma cobra, ele sacou a pistola da cintura e encostou o cano no peito do vapor.
— Se ninguém viu ela sair, é porque você não estava olhando a po.rra da escada.
— Por favor, patrão, eu tenho família... — o rapaz começou a chorar.
POW.
O disparo foi seco. O corpo do vapor caiu para trás, batendo no chão com um baque surdo, o sangue se espalhando rapidamente pelo piso de madeira do camarote. Neto nem piscou. Ele guardou a arma e olhou para os outros soldados, que permaneciam paralisados de terror.
— Se ela sumiu, é porque vocês são incompetentes! — ele rugiu, chutando uma mesa de vidro, que se estilhaçou em mil pedaços. — Eu quero os rádios ligados! Quero todos os becos cercados! Ela não tem pra onde ir! Ela não conhece ninguém!
Neto pegou uma garrafa de uísque e virou metade de uma vez, sentindo o líquido queimar, mas não tanto quanto a sua raiva. Ele olhou para a escuridão da cidade ao redor do morro, sentindo-se cego.
— Onde você está, sua p*****a? — ele sussurrou para o vazio, os olhos injetados de sangue. — Você pode se esconder no inferno, mas eu vou te achar. E quando eu te achar, você vai rezar pra ter morrido hoje.
Ele não sabia para onde ela tinha ido. Não sabia se ela tinha pulado de um muro, se estava escondida em alguma caixa d'água ou se alguém a tinha tirado de lá. E era essa incerteza, o fato de não saber onde sua propriedade estava, que tornava o Abutre o homem mais perigoso do Rio de Janeiro naquela noite.
A festa tinha acabado. A caçada tinha acabado de começar.