VERDADES

1594 Palavras
O som do baile funk não era apenas música; era uma vibração física que sacudia as paredes de concreto e fazia o vidro das janelas da sede tremer. O Complexo da Maré estava em chamas. Fogos de artifício cortavam o céu, e o cheiro de pólvora se misturava ao aroma de churrasco, cerveja barata e maconha. No centro de tudo, caminhando como um deus pagão em seu próprio império, estava Neto, o Abutre. Ele mantinha o braço direito pesado e possessivo em volta do pescoço de Catarina, obrigando-a a acompanhar seus passos largos. Com a mão esquerda, ele segurava um fuzil banhado a ouro, apontando-o para o alto ocasionalmente como se fosse um cetro. Catarina, em seus saltos finos e vestido preto que parecia uma segunda pele, tentava não tropeçar. Seus olhos estavam fixos no chão, mas ela sentia o peso de mil olhares sobre si: a inveja das mulheres, a cobiça dos soldados e o medo dos moradores. — Olha só o que é poder, boneca! — Neto gritou acima do estalo dos graves, apertando o pescoço dela com uma i********e que beirava o sufocamento. — Tudo isso aqui é nosso. Tudo isso aqui se curva pra mim! Eles subiram para o camarote VIP, uma estrutura elevada coberta por vidros fumê que permitia ver todo o pátio do baile sem ser totalmente visto. O lugar estava apinhado de aliados, seguranças e mulheres vestidas com o mínimo possível, que se jogavam sobre os sofás de couro sintético. — Senta aí e não sai. — Neto a empurrou em direção a um dos sofás de canto. — Quero você bem aqui, onde eu possa te olhar enquanto eu comemoro. Catarina obedeceu. Ela se sentou, cruzando as pernas e mantendo as mãos sobre o colo para esconder o tremor que não conseguia controlar. A sensação de ser um objeto de vitrine nunca fora tão aguda. Neto, ignorando completamente o fato de que a esposa estava a poucos metros, começou a circular pelo camarote como um animal alfa. Ele pegou uma garrafa de uísque, virou metade do conteúdo na boca e, com um sorriso debochado e ruidoso, começou a interagir com as mulheres ao redor. Ela assistiu, com uma indiferença que já havia se tornado sua armadura, enquanto ele distribuía tapas pesados e sonoros na b***a das mulheres que se aproximavam. Neto ria, fazia piadas obscenas e se deixava ser acariciado, tudo isso enquanto lançava olhares ocasionais para Catarina, para garantir que ela estava vendo o quanto ele era "homem". O desrespeito era público, planejado. Era a forma dele de lembrar a todos — e a ela — que Catarina era apenas a peça mais cara de sua coleção, mas não a única. O estômago de Catarina deu um nó. A mistura de som alto, o cheiro de álcool e a visão daquela decadência a faziam querer vomitar. A humilhação já não doía mais, mas o asco era insuportável. — Eu vou ao banheiro — ela disse, levantando-se. Neto, que estava com uma mão no pescoço de uma loira e a outra em um copo, m*l a olhou. — Vai logo. E não demora. Se eu olhar pra esse sofá e você não tiver aqui, eu mando os moleques te buscarem pelo cabelo. Catarina caminhou em direção ao fundo do camarote, onde uma área mais reservada levava aos banheiros e a um pequeno escritório usado para contabilidade rápida e conversas de corredor. O corredor era estreito e m*l iluminado, abafando ligeiramente o som ensurdecedor que vinha da pista. Ela parou diante da porta do banheiro, respirando fundo, tentando puxar o ar que parecia faltar em seus pulmões. Foi então que ouviu a voz de Neto. Ele não tinha ficado no sofá. Tinha entrado no escritório lateral com dois de seus homens de confiança, provavelmente por uma entrada secundária. A porta do escritório estava apenas encostada. Catarina congelou. — ... o esquema tá fechado — a voz de Neto soou alta, cheia de uma satisfação c***l. — O asfalto quer rotas novas e o pessoal do Comando tá oferecendo um suporte que a gente não pode recusar. Mas os caras são exigentes. Querem garantia de alto nível. — E o senhor vai dar o quê, patrão? — um soldado perguntou. Houve um silêncio curto, seguido pelo som de um isqueiro riscando. — Eu vou entregar a Catarina — Neto disse, e o som de sua risada curta fez o sangue de Catarina congelar nas veias. — Ela tá gasta já. Três anos e a boneca só me olha com cara de enterro. O parceiro lá do Comando é louco por ela desde que a viu no último encontro. Disse que se eu entregar a "Primeira-Dama" pra ele se divertir uns meses, ele libera o acesso livre pelo porto sem cobrar um real de pedágio. — Mas patrão... a Dona Catarina? Se o morro souber que o senhor entregou a esposa... — O morro não vai saber de nada, seu o****o. Vou dizer que ela foi sequestrada pelo Sete, que o pessoal do Turano atravessou a divisa e pegou ela. Isso ainda me dá motivo pra invadir o lado de lá com o apoio de todo mundo. Eu me livro de uma mulher que não fode mais com vontade e ainda ganho a guerra e o porto. É o negócio da década. Catarina sentiu o chão desaparecer sob seus pés. Seus ouvidos zumbiram, abafando o som do funk que ainda vinha lá de fora. Ela não era mais apenas uma prisioneira. Agora, ela era gado. Seria vendida, entregue como carne fresca para um homem que ela nem conhecia, tudo para que Neto pudesse ganhar mais alguns milhões e uma desculpa para derramar sangue. O medo, que até então era uma presença constante e controlada, transformou-se em um pânico cego. Ela não podia voltar para aquele sofá. Se voltasse, seria levada naquela mesma noite. Ela conhecia Neto; ele não esperava. Suas mãos começaram a suar frio. Ela olhou para o final do corredor. Havia uma escada de serviço que descia para a parte de trás da sede, uma área menos vigiada por onde os carregamentos de bebida entravam. Se ela conseguisse descer... se conseguisse sumir na multidão do baile... Mas para onde ela iria? Neto era o dono da Maré. Se ela fugisse para o asfalto, os soldados dele a pegariam em minutos. Não havia lugar para se esconder no Rio que o braço longo do Abutre não alcançasse. Exceto um. Ela olhou para a janela pequena e gradeada no final do corredor. Ao longe, no horizonte escuro, as luzes do Morro do Turano piscavam. O território do Sete. O único lugar onde Neto não ousava pisar. O único homem que Neto odiava e respeitava o suficiente para manter distância. Era loucura. Sete era um assassino, um líder de facção rival, um homem que provavelmente a mataria apenas para enviar uma mensagem a Neto. Mas a morte nas mãos de um inimigo parecia subitamente mais digna do que ser vendida como uma mercadoria usada por seu próprio marido. O desespero tomou conta dela. Catarina não pensou nas consequências. Se ficasse, seu destino era o estu.pro e a servidão eterna. Se corresse, ela tinha uma chance, por menor que fosse, de acabar com tudo nos seus próprios termos. Ela tirou os sapatos de salto alto, segurando-os nas mãos para não fazer barulho no piso de metal da escada de serviço. Cada passo era um batimento cardíaco acelerado que parecia ecoar nas paredes. Ela desceu a escada, sentindo o frio do ferro nos pés descalços. Ao chegar no térreo, ela se viu nas sombras atrás da sede. O barulho do baile era um monstro vivo agora. Ela se enfiou por entre os becos, usando as sombras como capa. O vestido preto ajudava a escondê-la na escuridão. Ela corria, o coração batendo tão forte que chegava a doer nas costelas. — Ei! Quem tá aí? — uma voz de soldado ecoou em um beco transversal. Catarina parou, encostando-se na parede áspera, prendendo a respiração. O suor escorria por sua testa, borrando a maquiagem cara. Ela esperou o feixe de luz da lanterna passar e continuou. Ela não conhecia o caminho exato para a divisa, mas sabia a direção. Ela precisava subir. Precisava chegar à trilha da mata que ligava os dois complexos. Era uma terra de ninguém, cheia de minas e armadilhas, mas era seu único caminho. Enquanto corria, a conversa de Neto se repetia em sua mente como um disco quebrado. Eu vou entregar a Catarina... ela tá gasta... é o negócio da década. As lágrimas finalmente vieram, mas não eram lágrimas de tristeza. Eram lágrimas de um ódio puro e cristalino que ela nunca soube que possuía. Ela correu até os pés sangrarem nas pedras da trilha. A música do baile começou a ficar para trás, substituída pelo som dos seus próprios pulmões lutando por ar e pelos estalos da mata à noite. Catarina parou por um segundo no topo da primeira subida, olhando para trás. O camarote do Abutre ainda brilhava, uma lanterna de arrogância no meio da favela. Ela sabia que em poucos minutos ele notaria sua ausência. Sabia que o rádio iria chiar e que a caçada começaria. Sem saber o que o futuro reservava, ou se sobreviveria à próxima hora, ela mergulhou na escuridão da mata, correndo em direção ao território do homem que todos chamavam de Sete. Ela estava apavorada, estava sozinha, mas pela primeira vez em três anos, Catarina não era o troféu de ninguém. Ela era apenas uma presa tentando se tornar um fantasma.
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