SETE - CALMARIA...POR ENQUANTO

1275 Palavras
O sol da manhã começava a dissipar a névoa que cobria o topo do Turano, mas o calor que subia do asfalto não era suficiente para aquecer o semblante de Sete. Ele estava no escritório da mansão, cercado por telas de monitoramento e rádios que sibilavam constantemente. O aparelho encriptado sobre a mesa vibrou. Era a chamada que decidiria se o Rio de Janeiro acordaria sob o som de fuzis ou sob uma trégua armada. — Fala, meu relíquia — Sete atendeu, a voz postada, o corpo tenso como uma mola. A voz do Chefe do Comando Vermelho veio do outro lado, pausada e carregada de autoridade. — Sete, o papo lá em cima foi reto. A cúpula da facção deles não sabia da metade da missa. O Abutre escondeu as covardias que estava fazendo, vendendo a ideia de que era uma guerra de território comum. Sete fechou os olhos por um segundo, sentindo o peso da responsabilidade. — E qual foi o veredito? — A ordem é de recuo imediato. Ninguém do Turano encosta um dedo na Maré por enquanto. Eles vão "enquadrar" o Abutre. O cara está perdendo a linha e eles não querem o prejuízo que uma guerra total traria agora. Mas tem um porém, Sete... — O Chefe fez uma pausa dramática. — As cúpulas das duas facções querem a verdade nua e crua. Eles vão querer conversar com as meninas. Com a Catarina e com a tal da Ayla. Eles querem ouvir o relato de quem sentiu o ferro do Abutre na pele. Se elas confirmarem que o cara virou um carrasco de civil, a sentença dele vai ser assinada por quem divide o prato com ele. Sete sentiu um calafrio. Ele sabia o que aquilo significava. Envolver as meninas em uma "conversa" com a cúpula do crime era expô-las a um mundo de onde ele tentava tirá-las. — Elas não estão em condições, Chefe. A Ayla saiu de uma cirurgia de pulmão agora de madrugada. Tá na UTI, entre a vida e a morte. — Eu sei, Sete. Por isso não é pra hoje. Mas prepara o terreno. Assim que ela conseguir falar, a gente vai subir com elas. Fica na atividade. O Abutre tá amordaçado, mas bicho acuado morde. A ligação caiu. Sete não perdeu tempo. Ele pegou as chaves da moto, o fuzil curto e desceu as ladeiras do Turano como um raio. O destino era um só: o posto de saúde. O hospital do morro parecia um bunker. Soldados de confiança de Sete faziam o perímetro, e o cheiro de antisséptico agora se misturava ao cheiro de óleo de motor das motos que chegavam. Sete entrou no corredor da UTI e viu a figura de Tico sentada no mesmo banco de plástico. O soldado parecia ter envelhecido dez anos em uma única noite. O olhar de Tico era o de um homem que tinha visto o abismo e decidiu morar na borda dele. Tico levantou-se assim que viu o patrão. O cansaço era visível, mas a mão dele não saía de perto da coronha da pistola na cintura. — E aí? O Homem ligou? — Tico perguntou, a voz saindo como um rosnado baixo. Sete fez um sinal para que eles se afastassem da porta de vidro da UTI. Eles caminharam até o final do corredor, perto de uma janela que dava para a mata por onde Ayla rastejara. — Ligou, Tico. O papo foi pesado lá em cima. As cúpulas se falaram. O Abutre tá oficialmente proibido de atacar o Turano. A outra facção recuou as barricadas da divisa. Eles entenderam que o cara tá agindo por ego, não pela firma. Tico soltou uma risada amarga, sem nenhum traço de alegria. — Recuaram? E o que eu faço com o que eu vi ali dentro, Sete? O que eu faço com o pulmão daquela menina furado? Com o rosto dela que parece um mapa de porrada? A "justiça de cima" vai devolver a saúde dela? Sete colocou a mão no ombro de Tico, sentindo a tensão muscular do seu braço direito. — Calma, Tico. Não é só isso. Eles querem ouvir as meninas. O Chefe do CV e o pessoal da Maré querem uma reunião. Se a Ayla e a Catarina confirmarem as atrocidades do Abutre, a própria facção dele vai cobrar a conta. Eles não aceitam carrasco de mulher no comando de complexo. Tico virou-se para Sete, os olhos injetados. — Tu tá falando sério? Tu quer levar aquela menina, que treme toda vez que uma porta bate, pra falar com a cúpula do crime? Ela não consegue nem respirar sem máquina, Sete! Ela tá toda remendada! — Eu sei, Tico! Eu falei isso pra ele! — Sete subiu o tom, tentando fazer o amigo enxergar a estratégia. — Mas é a única forma de a gente acabar com o Abutre de forma legítima, sem que o Rio de Janeiro inteiro vire um campo de batalha. Se a cúpula dele decidir que ele é um problema, ele cai por dentro. É a morte mais suja que um bandido pode ter. Tico encostou a cabeça na parede, fechando os olhos. O ódio que ele sentia era uma fornalha, mas a lealdade ao Sete e o desejo de ver Ayla segura falavam mais alto. — Ela não vai conseguir falar tão cedo — Tico murmurou, o cansaço finalmente vencendo a raiva por um instante. — O médico disse que o maxilar tá inflamado e o dreno do pulmão incomoda demais. Vai levar semanas. — Então a gente ganha tempo — Sete respondeu. — Até lá, o Abutre vai ficar fritando na Maré, sabendo que a vida dele tá por um fio e que o fio tá na mão da menina que ele tentou matar. Tico olhou através do vidro da UTI. Lá no fundo, em meio a aparelhos, Ayla era apenas um vulto frágil. — Sete... se essa reunião acontecer, eu vou estar lá. Eu vou ser a voz dela se ela não conseguir falar. E se alguém lá em cima tentar intimidar ela ou a Catarina, eu não quero saber de facção, de comando, de p***a nenhuma. Eu mato quem estiver na frente. Sete deu um tapinha no peito de Tico. — Eu sei que vai, irmão. Por isso que eu tô aqui. A Catarina também vai ter que ser forte. O Abutre achou que tinha quebrado duas mulheres, mas ele só deu a elas o poder de destruir ele. Tico assentiu, respirando fundo. — Vai lá pra cima, Sete. Cuida da Catarina. Eu vou ficar aqui. Vou avisar a enfermeira que, se alguém estranho aparecer perguntando, é pra me chamar na hora. Sete saiu do hospital, sentindo que a guerra tinha mudado de patamar. Não era mais sobre quem tinha mais fuzil, mas sobre quem contava a história mais verdadeira. Tico voltou para o seu banco. Ele olhou para a mochila que trouxera, com as roupas limpas para o banho que ele ainda sonhava em dar nela quando ela estivesse melhor. Ele sabia que a estrada para a recuperação da Ayla seria longa, e que a tal "conversa" com os chefões seria um pesadelo à parte. Mas ele também sabia que, se aquele era o caminho para ver o Abutre cair, ele carregaria Ayla no colo até o topo de qualquer morro para que ela pudesse ver a justiça ser feita. O silêncio do hospital agora parecia menos opressor, mas Tico não baixava a guarda. No mundo deles, a paz era apenas o tempo necessário para recarregar as armas. E ele pretendia estar com a dele bem carregada quando a hora da verdade chegasse.
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