Querido diário,
ele me ignorou.
E mesmo assim… por que não consigo parar de pensar nele?
Lana ainda sentia o frio do ar coreano na pele enquanto repassava mentalmente tudo o que acontecera naquela tarde. O campus de Seul, com seus prédios imponentes e árvores douradas pelo outono, parecia saído de um dorama. Mas a cena mais vívida em sua memória era ele — Jae-Hyun.
Ela fechou os olhos por um segundo, tentando apagar o constrangimento, mas ao invés disso, a imagem dele voltou com clareza perturbadora.
O cabelo de Jae-Hyun era o primeiro detalhe que chamava atenção: uma mistura impecável entre loiro platinado acinzentado e mechas pretas perfeitamente alinhadas. O contraste parecia intencional, quase artístico, como se cada fio tivesse sido colocado com exatidão para causar impacto. Era o tipo de visual que exigia confiança para sustentar — e ele sustentava.
Sua pele era tão clara que contrastava com as roupas pretas que usava, como porcelana sob o breu de uma noite fria. O nariz fino dava ao rosto um ar aristocrático, e os olhos puxados, ligeiramente inclinados para cima, tinham uma expressão que oscilava entre o tédio e o mistério. Ele era bonito de um jeito quase irreal — como se tivesse saído de um videoclipe, moldado pela perfeição estética que Lana sempre vira nas telas.
Mesmo a postura dele chamava atenção. Jae-Hyun andava com uma calma calculada, como quem sabe que todos os olhares o seguem. E seguiam. Inclusive os dela.
Ela lembrava bem da confusão que se seguiu. Antes que pudesse dizer qualquer coisa, um grupo de garotas surgiu em volta de Jae-Hyun pedindo selfies, fazendo perguntas, puxando assunto. O garoto não disse nada. E antes que ela tivesse chance de insistir, dois dos colegas de banda o puxaram dali com um “Vamos, hyung. Já deu.”
Agora, sentada na cafeteria do campus com um chocolate quente nas mãos, Lana observava os alunos passando apressados. As palavras coreanas ainda soavam como música rápida e confusa aos seus ouvidos. Tudo era novo, tudo era desafiador.
Mas a ideia de ficar invisível, de ser só mais uma estrangeira… isso doía mais do que o frio.
Enquanto misturava o chocolate quente distraidamente, Lana tentava focar no motivo de estar ali: realizar seu sonho. Mas o coração insistia em voltar para Jae-Hyun. Ainda não entendia por que aquele breve encontro tinha mexido tanto com ela. Talvez fosse porque, naquele olhar frio, ela sentiu algo que reconhecia: solidão disfarçada.
Decidiu sair para caminhar e explorar o campus por conta própria. Precisava se reconectar com o motivo de ter vindo. A brisa estava fria, mas o sol aquecia o rosto. Parou em frente ao mural da universidade, onde anúncios de grupos de dança, festivais e castings se amontoavam. Sorriu ao ver um cartaz de apresentação da banda “ZEUS” — e lá estava ele, Jae-Hyun, entre os integrantes.
— Olha só… uma caloura gringa - murmurou uma voz feminina em coreano, às costas de Lana.
— Você viu o cabelo dela? Tão seco… parece palha. Será que ela nunca ouviu falar de tratamento? — disse uma das garotas coreanas, em voz baixa, mas com o tom venenoso de quem queria ser ouvida.
Ela se virou, incerta se havia entendido bem. Três meninas coreanas a encaravam com risos abafados.
— Claro que não, deve estar aqui atrás de algum oppa. São todas iguais, — respondeu a outra, rindo sem esconder o desprezo.
O rosto de Lana esquentou, e não era pelo clima. Ela entendeu o suficiente para saber que o comentário era sobre ela — e sobre sua presença ali. Fingiu não ouvir, mas uma das garotas fez questão de empurrar o ombro dela de leve ao passar.
— Volta pro seu país, garota esquisita.
As palavras atingiram como estilhaços. Por um segundo, Lana se sentiu pequena, deslocada. Queria responder, mas o nó na garganta não deixou. O sonho dela estava se tornando um campo minado emocional.
Com passos rápidos, saiu dali, contendo as lágrimas. Entrou no banheiro do prédio mais próximo e se trancou em uma cabine. Encostou a testa contra a porta fria e fechou os olhos.
“Você sabia que não seria fácil,” repetiu para si.
Mas ninguém fala sobre como doem as palavras ditas com desprezo.
Sobre como é ser olhada como um erro, mesmo quando você só quer pertencer.
Lana se recompôs como pôde. Lavou o rosto, ajeitou os cabelos, respirou fundo e seguiu para a primeira aula do dia. As paredes brancas do prédio de Artes Culturais pareciam frias demais para acolher alguém com o coração ainda remendado de palavras cortantes.
A sala já estava quase cheia quando ela entrou. Procurou um lugar mais ao fundo, desejando passar despercebida. Mas, assim que deu os primeiros passos em direção às cadeiras, uma voz doce, segura e musical a chamou:
— Ei! Pode sentar aqui, se quiser.
Lana virou o rosto e deu de cara com uma garota lindíssima. Tinha a pele alva como porcelana, os cabelos longos em um tom castanho-escuro com ondas suaves nas pontas e olhos puxados que pareciam sorrir até quando estavam sérios. Usava um delineado impecável e brincos de argola pequenos que balançavam levemente.
— Obrigada… — Lana disse, meio surpresa, sentando ao lado da garota.
— Sou Min-ji. Talvez você ainda não saiba, mas algumas disciplinas aqui misturam alunos veteranos com calouros. Especialmente nesse curso meio “bagunçado” de Produção Cultural — disse, rindo. — Sou do segundo ano.
Lana sorriu, ainda um pouco desconcertada com a beleza e espontaneidade da garota.
— Eu sou Lana… primeira semana aqui.
— Ah, imaginei. Você tem aquela expressão de quem ainda está tentando entender os corredores e os horários, tipo “o que eu estou fazendo aqui?”
Lana riu, pela primeira vez no dia.
— É exatamente assim que me sinto.
— Bom, seja bem-vinda, Lana. Não deixa ninguém te intimidar, tá? Ah, e eu sou cantora. Quer dizer, ainda em fase inicial, mas tô montando uma bandinha com uns amigos. Quem sabe você não vem em algum ensaio qualquer dia?
Antes que Lana pudesse responder, três garotas entraram na sala com copos de café na mão. Uma delas lançou um olhar enviesado para Lana — do tipo que dizia mais que qualquer palavra —, e cochichou algo para as outras, que riram de forma contida.
Lana imediatamente se encolheu um pouco, lembrando das palavras cruéis no pátio.
Mas Min-ji notou.
— Ei! — chamou, em voz alta, olhando diretamente para as três. — Sejam gentis. Ela é nova aqui. Vamos mostrar que não somos tão frias quanto dizem por aí, né?
As garotas desviaram o olhar e foram para o fundo da sala.
Lana a encarou, surpresa.
— Obrigada… de verdade.
— Ah, não se preocupe. Já passei por isso também. E sinceramente? Elas só fazem isso com quem se destaca. Acho que é o seu caso.
Lana corou.
— De onde você é mesmo?
— Brasil — respondeu, orgulhosa.
Os olhos de Min-ji brilharam.
— Sério? Eu já ouvi que o Brasil tem os fãs mais calorosos do mundo. Alguns ídolos coreanos amam se apresentar lá. Dizem que os fãs gritam tanto que fazem até o chão tremer!
Lana riu, agora mais à vontade.
— É verdade… a gente sente tudo muito intensamente.
— Eu gosto disso — disse Min-ji, com sinceridade. — A gente precisa de mais gente com intensidade por aqui. Seja bem-vinda, Lana do Brasil.
Naquele instante, Lana sentiu que talvez nem tudo estivesse perdido. Que entre sorrisos sinceros e vozes que sabiam acolher, ela poderia começar a construir um novo lar, mesmo a milhares de quilômetros de casa.
A aula avançava com explicações sobre a influência da cultura nos projetos artísticos. Lana tentava se concentrar, mas ainda se sentia deslocada, como uma peça que não encaixava bem naquele quebra-cabeça coreano. O idioma, os rostos parecidos entre si, os sorrisos controlados — tudo soava estranho e distante, apesar da beleza e da excitação de estar ali.
Foi então que três garotas se aproximaram do lugar onde ela e Min-ji estavam sentadas. Todas pareciam saídas de um comercial de cosméticos: pele perfeita, maquiagem impecável, roupas estilosas. Elas trocaram olhares rápidos entre si ao notarem Lana, um daqueles olhares enviesados que pareciam medir e rotular em silêncio.
— Ei, gente — disse Min-ji, com naturalidade e um sorriso amistoso. — Essa é a Lana. Ela é do Brasil, chegou há pouco. Quero que vocês sejam gentis com ela, ok?
As meninas sorriram de forma educada, mas sem entusiasmo.
— Claro… prazer — disse uma delas, com um leve aceno de cabeça.
Lana sorriu de volta, mesmo percebendo que a recepção era mais polida do que verdadeira. Ainda assim, agradeceu em silêncio o gesto de Min-ji. Talvez a presença dela fosse mesmo uma ponte naquele novo mundo.
A aula seguiu, e ao final, quando o professor liberou os alunos, as meninas começaram a se organizar para sair. Uma delas comentou algo sobre ensaiar uma nova música. Lana ficou curiosa, mas ficou quieta, apenas recolhendo seu material com calma.
— Na verdade, hoje eu vou assistir o ensaio do Jae — disse Min-ji casualmente, enquanto se levantava.
Lana sentiu uma pontada no peito, como se a menção ao nome tivesse ativado algo que ela ainda nem queria admitir. Tentando parecer natural, perguntou:
— Você… conhece ele?
Antes que Min-ji pudesse responder, uma das amigas riu.
— Conhecer? Acho mais fácil ninguém conhecer ele do que a Min-ji.
— Min-ji é a namorada dele — completou a outra, sem hesitação.
O mundo de Lana pareceu dar uma girada sutil.
Ela forçou um sorriso.
— Ah… Entendi.
Tentou não deixar transparecer a decepção repentina que queimava por dentro. Repetiu para si mesma que não havia motivo para se sentir assim. Era apenas um garoto bonito em meio a muitos. Era só esquecer. Simples.
— Qualquer dia te levo pra ver nosso ensaio. Quem sabe você curte? — disse Min-ji com um sorriso sincero, talvez sem notar o leve tremor no olhar de Lana.
— Pode ser… Mas não se preocupe comigo, tá? Eu me viro.
Min-ji assentiu e acenou.
— A gente se vê por aí, Lana do Brasil.
E com isso, elas se despediram.
Lana ficou um tempo parada diante da sala vazia. Sentiu o coração apertado, mas respirou fundo. Era só o começo. Ainda havia tanto para viver. E, mesmo sem perceber, já estava envolvida num emaranhado de relações que prometiam muito mais do que ela poderia imaginar.