capítulo 4

1825 Palavras
# Capítulo 4 ## Parte I: Pedro Alcântara Montenegro Controle não é sobre erguer paredes altas em volta de alguém. Paredes são visíveis; geram pânico, geram revolta. O verdadeiro controle é sutil. É alterar a temperatura da sala de forma tão gradual que a presa nem percebe que a água está fervendo até que seja tarde demais para pular fora. Sexta-feira, seis da tarde. Enquanto os relatórios do setor de TI passavam na minha tela de cristal líquido, eu mantinha o olhar fixo na silhueta de Laura, sentada à mesa a poucos metros da minha. O terno cinza que ela usava hoje era comportado, mas o modo como o tecido marcava a curva da sua cintura e o contorno de suas coxas toda vez que ela se inclinava para digitar... isso estava me distraindo há horas. E eu não gosto de distrações que não estejam sob meu domínio absoluto. Na noite anterior, quando a pressionei contra a mesa e senti a pele da sua coxa queimando sob meus dedos, vi a fratura perfeita em sua resistência. Laura não era frágil. Ela era analítica, desconfiada, treinada para encontrar falhas. Mas a reação do corpo dela ao meu toque era uma falha que ela não conseguia corrigir no código. A respiração dela havia descompensado. O peito subira rápido. Os olhos, um tom intenso de castanho, dilataram de puro choque e... desejo. Ela podia odiar a minha mente, mas o seu corpo já estava me obedecendo. — Você está distraída, Laura — comentei, quebrando o silêncio denso do escritório executivo. Minha voz ecoou suave, aveludada, com a gravidade exata para fazê-la estremecer. Ela travou os dedos sobre o teclado, congelando no meio de uma linha de comando. Lentamente, ergueu o rosto. Havia olheiras sutis sob seus olhos. Ela não tinha dormido direito. Excelente. — Estou apenas revisando os logs de acesso aos servidores da holding, senhor Montenegro — respondeu ela, a voz fria, tentando desesperadamente manter a fachada profissional. — Encontrei algumas discrepâncias de acesso no setor financeiro. — Deixe isso para segunda-feira — ordenei, fechando o meu laptop de alumínio. O som do clique fez o ombro dela dar um leve sobressalto. — O seu expediente de hoje acabou. E o meu também. — Ótimo. Vou pegar minhas coisas — ela disse, movimentando-se rápido demais para recolher a bolsa, como se o ar perto de mim queimasse seus pulmões. — Não tão rápido. — Levantei-me da poltrona de couro, ajeitando as abotoaduras de platina dos meus punhos. Caminhei com passos lentos e calculados até a frente da mesa dela. — O meu motorista vai levá-la para casa. — Não é necessário. Eu pego o metrô, como faço todos os dias. — Não foi um convite, Laura — murmurei, inclinando-me ligeiramente sobre a mesa dela, invadindo seu espaço pessoal até sentir o calor suave que emanava de sua pele. — A partir de hoje, você não usa o transporte público. Você é uma funcionária de alta relevância estratégica do meu gabinete pessoal. Sua segurança é minha responsabilidade. — Eu sei me cuidar sozinha — ela retrucou, o queixo erguido. Aquela pequena e teimosa inclinação de cabeça me dava uma vontade absurda de segurá-la pelo pescoço e prensá-la contra o vidro até que ela implorasse para que eu a soltasse. Ou para que eu não parasse. — Você acha que sabe — corrigi com um sorriso mínimo, frio, que não atingiu meus olhos. — O carro está esperando na garagem privativa. Desça. Ela respirou fundo, os lábios lábios cerrados em uma linha fina de frustração. Ela sabia que bater de frente comigo em público era inútil. Sem dizer mais uma palavra, pegou a bolsa e caminhou em direção à porta de carvalho. Eu a acompanhei com o olhar, apreciando o balançar natural do seu quadril. Ela achava que estava voltando para o seu refúgio. O seu pequeno apartamento modesto, seu porto seguro onde se sentia no controle de sua própria vida. Ela não fazia ideia de que, enquanto esteve trancada comigo nesta sala nas últimas oito horas, meu departamento jurídico e minha equipe de aquisições imobiliárias trabalharam sem parar. O prédio inteiro onde ela morava agora pertencia à Montenegro Imóveis. O síndico fora substituído. As câmeras de segurança do corredor do andar dela haviam sido atualizadas para modelos de alta definição com transmissão direta para o meu servidor privado. O contrato de aluguel dela fora transferido para a minha administradora. Laura pensava que saía da minha gaiola às seis da tarde. Ela só não entendia que a cidade inteira estava se tornando a minha gaiola... e ela já estava trancada do lado de dentro. ## Parte II: Laura Vasconcelos O silêncio do interior do sedã preto blindado era quase ensurdecedor. O motorista de Pedro, um homem alto de expressão impenetrável que se apresentou apenas como Valter, dirigia com uma precisão cirúrgica pelas ruas movimentadas de São Paulo. Tentei me concentrar na paisagem lá fora, na luz avermelhada do pôr do sol batendo nos arranha-céus, mas minha mente recusava-se a sair do quadragésimo andar da Holding Montenegro. Especificamente, recusava-se a esquecer a sensação das mãos de Pedro Montenegro na minha pele. Pressionei as costas contra o banco de couro macio e fechei os olhos por um segundo. Toda vez que eu fechava os olhos, sentia o toque quente do polegar dele no meu lábio inferior. O peso do corpo dele entre as minhas pernas. Aquele perfume amadeirado e perigoso que parecia impregnar minhas roupas e minha pele. *Ele é um psicopata*, repetia para mim mesma como um mantra. *Um manipulador rico que está brincando com você porque você notou a máscara dele.* Eu precisava manter a cabeça no lugar. A raiva era minha única defesa contra o charme distorcido e a força esmagadora daquele homem. Quando o carro finalmente parou em frente ao meu prédio, no Bairro Fundinho, soltei um suspiro longo de alívio. O prédio era antigo, de três andares, com fachada de tijolos expostos e uma portaria simples. O meu pequeno santuário. — Obrigada, Valter. Não precisa me buscar na segunda-feira, eu posso— — Estarei aqui às sete e meia, senhorita Vasconcelos — o motorista interrompeu, com a voz polida, mas inflexível, abrindo a porta para mim. — Ordens diretas do senhor Montenegro. Rangi os dentes, saí do carro sem responder e caminhei a passos largos em direção ao portão de ferro. Mas assim que passei pela entrada, senti que algo estava errado. O portão antigo, que sempre rangia e exigia um empurrão forte para fechar, agora tinha uma fechadura eletrônica novinha em folha, com leitor facial e biometria. No saguão, o antigo Seu Almir, o síndico de setenta anos que passava as tardes ouvindo rádio, não estava lá. Em seu lugar, um homem jovem, vestindo um terno escuro impecável e postura militar, estava de pé atrás do balcão. — Boa tarde, senhorita Vasconcelos — disse o homem, com uma cortesia mecânica ao me ver aproximar. — Seu acesso biométrico já foi cadastrado no sistema do prédio. Pode apenas aproximar o rosto da câmera ao lado do elevador. Parei no meio do saguão, o coração dando um salto violento contra minhas costelas. — Onde está o Seu Almir? O que aconteceu com a portaria? — O prédio mudou de administração nesta tarde, senhorita. A nova empresa gestora implementou um protocolo de segurança atualizado para todos os moradores. Seu Almir foi aposentado com um pacote de benefícios integral. Senti o chão tremer sob meus pés. A sensação de aridez na garganta voltou com força total. — Quem... quem é a nova empresa gestora? — perguntei, embora o meu cérebro já soubesse a resposta antes mesmo de ele falar. — Montenegro Propriedades & Investimentos. O ar sumiu dos meus pulmões. Subi as escadas correndo, ignorando o elevador. Meus passos ecoavam no corredor do segundo andar. Cheguei à porta do meu apartamento — número 23 — com as mãos tremendo tanto que m*l conseguia acertar a chave na fechadura. Quando finalmente consegui girar o tambor de metal e entrar, bati a porta com força e passei a tranca dupla. Encostei as costas na madeira fria, arfando. O apartamento estava exatamente como eu o deixara de manhã: os livros de restauração empilhados na mesa de centro, a caneca de café usada na pia, o sofá modesto com a manta dobrada. Mas a sensação de segurança havia desaparecido completamente. Olhei para o topo do corredor do meu andar antes de entrar e me lembrei de ter visto uma luz azul piscando no teto. Uma câmera nova. Apontada exatamente para a minha porta. Ele comprou o meu prédio. Ele tirou as pessoas que eu conhecia. Ele cercou cada milímetro do meu espaço pessoal. Meu celular vibrou no bolso da minha bolsa. O som do toque parecia um tiro no silêncio do apartamento. Peguei o aparelho com os dedos gélidos. Na tela, um número desconhecido. Atendi, levando o telefone ao ouvido com uma hesitação quase dolorosa. — Espero que a viagem de volta tenha sido confortável, Laura. A voz de Pedro veio através da linha, baixa, cristalina, carregada de uma i********e aterrorizante. Podia ouvir o som suave de gelo se chocando contra um copo de uísque do outro lado. — Você é doente — sussurrei, a voz embargada de raiva e pavor. — Você comprou o meu prédio? Você está me vigiando no meu próprio apartamento?! — Eu estou cuidando do que é meu — ele respondeu, a voz mantendo uma calma exasperante, sem um pingo de culpa. — Você tem uma péssima mania de achar que pode se afastar de mim, querida. Eu apenas me certifiquei de que, quando você olhar pela janela ou passar pela porta, lembre-se de quem detém o controle da sua vida. — Eu não sou sua! — gritei contra o telefone. — Eu sou sua funcionária por causa de uma chantagem contratual! Você não manda em mim fora daquela empresa! Houve uma pausa do outro lado da linha. Um silêncio denso, carregado, que fez os pelos dos meus braços se arrepiarem. — Abra a porta da sua varanda, Laura — disse ele, num tom que não admitia contestação. Senti meu sangue congelar nas veias. Caminhei devagar, como se estivesse pisando em brasas, até a porta de vidro que dava para a pequena varanda do meu apartamento no segundo andar. Acelerei o passo, puxei a cortina e olhei para a rua. Do outro lado da avenida estreita, parado sob a luz amarelada do poste, estava um SUV preto de vidros escuros. E encostado na porta do passageiro, vestindo um sobretudo escuro, o telefone no ouvido e os olhos cinzentos fixos diretamente na minha janela... estava Pedro. Mesmo à distância, no escuro da noite, a presença dele era avassaladora. Ele ergueu o copo de uísque em um brinde silencioso na minha direção. — Eu estou em todo lugar, Laura — a voz dele ressoou no meu ouvinte, grave, intimidadora e assustadoramente próxima. — Agora vista algo bonito. Eu estou subindo.
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