# Capítulo 9
Pedro Alcântara Montenegro
A tempestade passou durante a madrugada, deixando o ar da ilha denso e limpo.
Da varanda do quarto principal, vi o sol erguer-se sobre a linha do oceano, tingindo o mar de um tom dourado e violento. Na cama atrás de mim, entre os lençóis de linho desarrumados, Laura dormia.
Mesmo adormecida, o corpo dela mantinha uma tensão latente. Os cílios escuros projetavam sombras sobre as maçãs do rosto; as marcas dos meus dedos na pele clara dos quadris dela eram um lembrete visual de quem ditava as regras naquele espaço.
Aproximei-me da cama com passos silenciosos. Sentei-me na borda do colchão e deslizei os dedos pelos cabelos dela, afastando os fios do seu rosto. Ela despertou instantaneamente. Os olhos castanhos se abriram com sobressalto, o corpo encolhendo-se em um reflexo de defesa antes que a razão assumisse o controle.
Essa era a resposta fisiológica perfeita: vigilância constante.
— Bom dia, querida — murmurei, mantendo o tom suave e controlado. — O café será servido em vinte minutos.
ela sentou-se na cama, puxando o lençol até a altura do peito. Não havia lágrimas hoje. A raiva desordenada da noite anterior fora substituída por uma frieza rígida e calculada.
— O que você espera de mim hoje, Pedro? — a voz dela estava rouca, mas incrivelmente firme. — Que eu continue auditando seus servidores como se estivesse em um dia normal de escritório?
Sorri, apreciando a mudança no tom dela. Ela estava parando de reagir emocionalmente e começando a se adaptar. A mente dela estava entrando no modo de sobrevivência.
— Exatamente isso — respondi, levantando-me. — Às dez horas, teremos uma videoconferência com o conselho da holding. Você estará ao meu lado, apresentando o novo protocolo de segurança da rede. Quero que todos vejam a eficiência da minha nova assistente pessoal.
— Você quer me usar como um troféu diante da sua diretoria.
— Não um troféu, Laura — corrigi, ajustando a abotoadura da minha camisa. — Quero que você entenda que, a partir de agora, a sua vida profissional e a minha estão completamente fundidas. Se eu cair, você cai junto. E o seu irmão também.
Ela sustentou meu olhar sem piscar. A faísca de desafio ainda estava lá, mas agora vinha acompanhada de uma contenção estratégica. Ela estava aprendendo a jogar. E nada era mais estimulante do que um adversário que se recusava a quebrar facilmente.
Laura Vasconcelos
A dor física no meu corpo e o cansaço psicológico ameaçavam me derrubar, mas a descoberta sobre Helena mudara tudo. Chorar ou implorar não funcionaria com um sociopata como Pedro. A única maneira de sobreviver a um manipulador é se tornar invisível para os radares dele.
Enquanto me vestia no banheiro com uma saia lápis preta e uma camisa social sóbria, olhei para o meu reflexo no espelho. A garota ingênua e assustada da noite anterior não podia continuar ali.
*Ele quer que eu seja a assistente perfeita? Então eu serei*, pensei. *Até encontrar a única falha no sistema dele.*
Desci para o andar principal. Pedro já estava postado no escritório de vidro, ajustando os monitores da reunião. Ele parecia o homem perfeito: elegante, focado, radiante em sua posição de poder. Ninguém que olhasse para ele através de uma tela de computador imaginaria o monstro frio que dormia no mesmo quarto que eu.
— Os relatórios estão prontos — disse, entrando na sala e colocando o tablet sobre a mesa dele.
Ele ergueu os olhos cinzentos, analisando minha postura, minha roupa, a neutralidade do meu tom de voz. Pude ver uma fagulha de curiosidade e aprovação brilhar no olhar dele.
— Excelente — disse ele, indicando a cadeira ao seu lado. — A reunião começa em dois minutos. Apenas responda ao que for perguntado e mantenha o foco nos gráficos de desempenho da rede.
A chamada de vídeo foi iniciada. As telas exibiram os rostos de cinco diretores seniores da Montenegro Holding. Todos homens influentes, vestidos com ternos caros, tratando Pedro com uma mescla de respeito e temor reverencial.
Durante quarenta minutos, apresentei os dados com precisão cirúrgica. Minha voz não tremeu. Minha postura permaneceu impecável. Pedro manteve uma mão pousada discretamente na minha coxa por baixo da mesa, um toque firme e constante que servia como uma ameaça invisível para todos os outros na sala, mas clara como cristal para mim.
Quando a reunião acabou e as conexões foram encerradas, Pedro girou a cadeira na minha direção.
— Impressionante, Laura — disse ele, deslizando os dedos do meu joelho até a borda da saia. — Você se comporta muito bem quando decide colaborar.
— Eu não estou colaborando, Pedro — respondi, mantendo o olhar fixo no dele, sem recuar do toque. — Estou pagando a minha dívida. E garantindo a segurança do meu irmão.
— Seja qual for o motivo, o resultado me agrada — ele se aproximou, selando meus lábios em um beijo possessivo e lento. — À tarde, você terá acesso irrestrito ao servidor central da ilha para concluir a criptografia.
Ele se afastou e saiu do escritório, deixando-me sozinha com o computador.
Um arrepio percorreu minha espinha, mas desta vez não de pavor, e sim de adrenalina. Ele achava que estava me dobrando. Achava que o medo e a chantagem tinham surtido efeito. Mas ao me dar acesso irrestrito ao servidor central, Pedro cometera o seu primeiro erro em dias.
Peguei o pendrive encriptado que mantinha escondido no bolso interno da minha jaqueta. Era hora de descobrir exatamente o que aconteceu com Helena.