14 Ruby

1080 Palavras
Dois anos e cinco meses atrás... O medo torna as pessoas mais fracas, e além de fraca eu também sou medrosa. Resultado, sempre me ferro e sempre passo por situações que acabam com meu psicológico. Tudo aqui é diferente, o ônibus é legal por exemplo. Estudei minha vida inteira a tarde, e o ônibus sempre foi uma merda. Digamos que quem estuda no turno da manhã sejam pessoas que moram dentro da cidade, pessoas mais ricas e de vidas confortáveis que cresceram com pessoas fazendo tudo para elas. E quem estuda no turno da tarde sejam pessoas de famílias carentes, que mendigam dinheiro de programas do governo, pessoas que cresceram com dificuldades e burocracias chamadas "pobreza", não pessoas pobres que não tem dinheiro para fazer nada, mas sim pessoas que não tem uma vida muito confortável. E é claro, pessoas que moram no campo distante da cidade como eu. São pessoas que frequentam a mesma escola, mas são pessoas totalmente diferentes. Essas pessoas são como água e óleo, não se misturam. Mas ainda existem pessoas teimosas - como eu - que tentam se misturar. Para uma pessoa como eu, se dar bem com essas pessoas do turno da manhã, seria necessário no mínimo ser alguém de personalidade forte com muitos conhecidos e família minimamente bacana. E eu não tenho nada disso. Subo os degraus do ônibus sentindo estômago revirar de ansiedade, já sou recebida com pessoas me encarando. Me julgando e me olhando da cabeça aos pés, já sou capaz de me sentir totalmente diferente dessas outras pessoas, está sendo diferente do que imaginei. Quando saí de casa, saí com a idéia de que seria diferente do que está sendo aqui. Eu estava mais confiante quando saí de casa, e agora tudo o que sinto é inseguranças e desconfortos. Achei que eu estava maquiada e bem vestida o suficiente. Mas eu não sabia o quanto essas pessoas se vestiam tão bem até chegar aqui, peguei a mania feia de ficar olhando para os pés das pessoas e eu não era assim. Sento ao lado da Vick, minha amiga. Estamos juntas nessa, não estou sozinha e está tudo bem, vai ficar tudo bem. Observo pela janela sairmos da zona rural e chegarmos na zona urbana, sinto tanta ansiedade e tanto medo, tanta insegurança que parece que esse ônibus vai bater a qualquer instante. Como eu disse, essas pessoas são de sítios. Mas quando olho em volta, são todos de família bacana ou de personalidade forte e marcante. Eu sou uma garota tímida com quem não conhece e de uma família de fracassados, qual a chance? — Ruby! Vamos, você vai ficar aí? — Vick brincou me fazendo acordar, então percebo que eu estava esse tempo todo encarando as pessoas descerem ao invés de seguí-las. — Vou, claro! — Forcei um sorriso seguindo atrás dela. Por mais irônico que seja - pelo menos eu acho - o turno da manhã é o que tem mais pessoas, nunca vi tanta gente na minha vida. Tem muitas pessoas assim em festas, mas não vou em festas. Por esse motivo para mim era admirável ver tantas pessoas assim no mesmo lugar. Tento disfarçar o fato de que eu quase caí alí, porque algum i****a achou muito engraçado amarrar os cintos de segurança um no outro. E então mais uma vez me sinto mais intimidada do que ja estou. Quando desço os últimos degraus do ônibus vejo ainda mais pessoas aglomeradas alí em frente ao portão, parecia que estavam distribuindo comida de graça de tanta gente que tinha alí. — Todas essas pessoas estudam mesmo aqui? Ou são funcionários? — Sussurrei para Vick, já que eu estava tão tímida e tão insegura. — Sim, creio eu que sim. — Vick deu de ombros, não muito preocupada. Ela parecia estar com vergonha mas não parecia afetar ela. Para todos os lados haviam meninas tão bonitas que pareciam ter sido esculpidas, eram próprias artes do Pablo Picasso com ajuda de Van Gogh. Não tenho inveja das pessoas, mas dessa vez eu sinto mais do que apenas inveja. Sinto vontade de voltar para casa e cortar os pulsos. Eu sei que existem meninas bonitas, mas eu não estava acostumada a viver entre elas. Para mim elas eram como esculturas, não dava para conviver com elas, eram apenas idealizações e idéias. Então todas aquelas pessoas começaram a entrar na escola, e enquanto eu caminhava para dentro dela só conseguia me sentir exposta e invisível ao mesmo tempo. As pessoas não me olhavam e quando olhavam eu sempre sentia que estavam me crucificando enquanto me julgavam. — Agora preciso ir para a minha sala, Ruby. — Vick avisou. — Tchau. Sabe a sensação de querer sair correndo? De querer chorar e implorar para que alguém não te abandone? Eu senti isso. Apenas olhar para a minha sala, a sala na qual eu teria que ficar o ano inteiro me dava tanta ansiedade ao ponto de querer vomitar. — Fica mais um pouco, por favor. — Implorei tentando disfarçar mas não dava, meu desespero era muito grande e meu pavor era visível. Eu estava me sentindo ridícula. — Vou colocar minha mochila na carteira e já volto. — Meu coração suspirou aliviado, junto com meu corpo inteiro. Não tive nem mesmo coragem de entrar na sala sozinha, esperei até que Vick voltasse. Olhei rápido para a porta mas não dava, eu não conseguia nem mesmo entrar. — Você não guardou a mochila ainda? — Vick questionou vendo meu receio. — Vamos! E então ela me arrastou até dentro da minha própria sala, e quando olhei para todas aquelas pessoas alí me encarando, nem estavam mas eu sentia que estavam. — Aqui! Essa aqui! — Puxei Vick pelo braço a fazendo voltar de volta para a porta. — Na porta? — Ela arqueou a sobrancelha. — É, gostei da vista para fora. — Joguei a mochila em cima da mesa e nem mesmo a arrumei. — Vamos dar uma volta enquanto não começa a aula? — Vamos. — Vick me olha torto, e então me sinto estranha. Eu não era assim, eu não era estranha assim antes. Mais uma vez quando passo pela porta indo para fora sinto um alívio imediato, estou me sentindo bem melhor. Agora que tenho uma amiga na qual estou passando agora e deixando de ser a garota excluída da sala. Posso ser feliz por esses pequenos momentos antes do inferno começar, e eu sei que começará em breve.
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