Sentada no chão mantenho as mãos na cabeça, estou encolhida com o rosto entre os joelhos desejando parar de pensar um pouco.
Depois de tanto tempo, eu fiz de novo. Eu fiz de novo.
Depois de tanto lutar e me forçar a sair disso e mudar quem eu tinha me tornado, eu fiz de novo.
Eu não sei como que o deixei se aproximar, eu apenas sei que quando percebi, ele já estava com o corpo colado no meu e não consegui evitar que ele ultrapassasse os limites.
Aquele i****a me beijou, e o pior... Eu deixei. Quando percebi lá estava ele, colado em mim me beijando. Mas foi tudo tão rápido, eu não consegui evitar. Eu consegui, mas não o suficiente.
— Ruby, você não vai a escola faz três dias. Você não pode continuar faltando, o que está acontecendo? Você nunca falta um dia. — Minha mãe questionou enquanto me encarava tomar café.
— Está. — Dei de ombros.
— "Está"? Me conte o que aconteceu. De um tempo para cá tenho reparado em como você está diferente, você nem parece mais a mesma, Ruby.
— E o que eu tenho de tão diferente agora?
— Você não sorri mais como antes, detestava ficar em casa e agora não sai nem nos finais de semana. Você não trás nenhum amigo e nem namorados aqui. O que houve? Você se descobriu lésbica, é isso?
A encaro indignada pela pergunta tão direta e tão aleatória.
Eu não mudei. Há dois anos atrás eu mudei sim, e agora eu apenas voltei a ser quem eu era. Não mudei agora, apenas voltei a ser quem eu sempre fui e nunca irei deixar de ser. Nunca mais.
— Ah, mãe. Lésbica? É sério? — Resmunguei, levantei e comecei a caminhar para o meu quarto.
— Onde vai? — O som da voz dela ecoou vindo da cozinha.
— Me arrumar para a escola!
Caminho em direção a Línea que me olha com um sorriso julgador de quem está me repreendendo por faltar 3 dias.
Mudo a direção sentando no banco da frente dela, abro a janela deixando o vento entrar e bater contra meu rosto.
Mais a frente Abby sobe, caminha concentrada em não cair quando o motorista pisar fundo no acelerador antes dela sentar - ele tem essas manias - então ela caminha em direção ao banco de Linea.
— Olha quem voltou, finalmente! Depois sou eu quem falta todos os dias. — Ela notou a minha presença e é claro que não deixou de me zoar se vingando por todas as vezes em que zoei ela.
— Foram apenas três dias, já sentiu a minha falta? — Ironizei.
— Eu não. — Negou me fazendo rir. Ela sentiu sim.
Depois de chegar ao nosso destino, caminhamos até a praça como todos os dias.
Eu odeio faltar a escola, mas eu realmente não queria ir e encarar ou esbarrar com ele pelos corredores. Não sei se conseguiria esbarrar com ele, porque o que mais sinto vontade agora é de sumir, desaparecer e deixar de existir.
Tudo está quieto novamente, como todos os dias mas algo em mim está gritando por mais algo. O que meu corpo quer de mim? Eu não sei, não consigo entender.
Eu não quero voltar a ser o que era antes, mas beijar Dean não é voltar a ser o que era antes, ou é? Beijar ele significa estar completamente entregue a um garoto qualquer? Ou é normal? Não sei mais.
— O que aconteceu nesses três dias, Ruby? — Abby questiona acabando com o silêncio que estava, e então sei que agora a conversa começa a fluir entre nós.
Nunca menti para elas, na verdade nunca precisei. O que quero dizer é que sempre conto o que estou passando para elas, sei que posso confiar, ou que tudo fica bem se eu contar mesmo que elas não possam resolver.
— Eu estava evitando um garoto. — Joguei no ar, também não sei como saiu tão fácil assim. Mas não estou pronta para falar quem é.
Abby e Línea me encaram em choque, boquiabertas e não sei exatamente o porquê. Por essa vocês não esperavam, não é?
— O que foi, gente? — Questionei.
— Nada, é só que... Foi tão do nada. — Abby se explica.
— Sim. — Línea concorda.
— Quem é ele?
— Vocês não precisam saber. — Dei de ombros sem dar mais nenhum detalhe.
— Mas o que aconteceu exatamente? — Abby questiona.
— Ele me beijou.
As duas se olham com a boca aberta e sorrindo de orelha a orelha, super surpresas e animadas.
— E o que você fez? — Abby me pergunta com um sorriso enorme.
— Dei um tapa na cara dele e gritei para ele nunca mais chegar perto de mim. — O sorriso de Abby e de Línea somem quando falo.
— Ah, Ruby! Você não ajuda. — Abby resmunga me olhando torto como se ela fosse uma alemã e eu um judeu.
— Não tem como te defender. — Línea complementa com o mesmo olhar de Abby, chega até a ser engraçado.
— Ah, gente. Não me façam sentir m*l. — Escondi o rosto nas mãos e deitei sobre o banco como se ninguém pudesse me ver.
— Minha amiga, eu não vou falar nada. — Abby ironiza.
— Tadinho. — Línea complementa, como sempre falando apenas pequenas coisas no meio da conversa.
— Eu deveria ser mais legal com ele?
— Sim, não é? Ele deve gostar de ti. — Abby fala grave como se gritasse comigo.
— Você nem sabe quem é! — Gritei de volta.
— Se ele te beijou é porque deve gostar! — Gritou novamente.
— Beijo não quer dizer nada vindo de um homem! — Gritei em seguida.
— Estão gritando por que? — É Línea que grita agora.
— A Línea separando a discussão. — Abby gargalha me fazendo rir junto.
Me acostumei a acreditar que beijos não significam nada, e homens beijam mulheres apenas por beijar. E realmente estou certa, não é?
O que me faria acreditar que Dean gosta de mim? Ele me olha com ódio. Sinto que ele me beijou por pura luxúria, homens tem fetiches assim, para mim é normal.
Isso ao mesmo tempo me assusta, porque sinto que só acreditaria no amor de homem se ele desse a vida por mim. O que isso significa? Que eu não acredito que posso ser verdadeiramente amada?
— A Ruby está apaixonada, nunca imaginei. — Abby comentou em meio ao silêncio.
— Eu não estou apaixonada. — Resmunguei.
— Você está deitada nesse banco da pracinha olhando para o céu e pensando em alguma coisa, faltou três dias por estar evitando um garoto, e quer me dizer que não está apaixonada? — Abby arqueia uma sobrancelha.
— Você está conversando muito com o Killer nos últimos dias, Abby? — Tentei mudar de assunto.
— Não. — Ela me olha torto como se fosse uma pergunta i****a. — Por que?
— Por nada. — Dei de ombros.
— Ele não para de me mandar vídeos idiotas, faz umas duas semanas. Estou ficando com nojo da cara dele, menino chato. — Línea bufa.
Espera!
Killer não estava interessado na Jesse, não está interessado na Abby já que não conversa muito com ela, mas está muito atrás da Línea e enchendo o saco dela toda hora... É a Línea!
Ele estava mandando indireta para ela quando falou que estava indo atrás de uma namorada, naquele jogo em que estávamos assistindo!
— E o que tem nos vídeos? — Questionei tentando não demonstrar interesse com segundas intenções.
— Ah, não sei. Memes de humor duvidoso, humor masculino, você sabe. — Deu de ombros.
— Hum. — Resmunguei mordendo a bochecha segurando o sorriso.
Tenho quase certeza que é ela.
— Já está na hora, vamos. — Abby levanta do banco tirando a poeira da calça com tapinhas.