"Hoje, o desafio não é conquistar a cidade, mas sobreviver às expectativas de quem nunca enxergou quem eu realmente sou."
Chistopher Davis
O relógio marcava sete da noite quando recebi mais uma mensagem de Richard Davis, meu pai.
“Filho, precisamos conversar. Venha jantar comigo amanhã. É importante.”
O tom era o mesmo de sempre: cordial, mas carregado de uma urgência calculada. Quem cresceu sob a sombra de um político sabe reconhecer a manipulação escondida atrás de palavras aparentemente afetuosas. Desde que Richard Davis assumiu o cargo de senador pelo estado de Nova Iorque, cada encontro nosso parecia mais uma negociação do que um momento familiar.
Eu estava sentado na varanda da minha cobertura, observando as luzes de Manhattan. A cidade era meu território, meu império. As casas noturnas que construí não eram apenas negócios, eram símbolos da minha independência. O luxo, as festas, os carros esportivos, e principalmente as mulheres que orbitavam ao meu redor, eram parte de uma armadura que me protegia do passado. Eu era Christopher Davis, um homem que não se curvava a ninguém, muito menos ao pai que sempre tentou me transformar em uma peça do seu tabuleiro político.
Richard nunca aceitou minha decisão de investir no império da noite. Para ele, eu deveria seguir seus passos, perpetuar o sobrenome Davis nos corredores do poder. Mas eu não era um político. Eu era um homem que conquistava respeito e desejo sem precisar de alianças forçadas. As mulheres estavam aos meus pés, não por conveniência, mas porque eu sabia como seduzir, como dominar sem precisar de títulos ou cargos.
Minha mãe, Eleanor Davis, sempre foi diferente. Filantropa, ex-primeira-dama do estado, ela entendia minhas escolhas, mesmo sem aprovar todas. Seu novo marido, Dr. Samuel Carter, tornou-se um mentor para mim, alguém que oferecia conselhos éticos e equilibrados, longe do ambiente tóxico da política. Mas era com meu pai que o conflito se intensificava.
Naquela noite, decidi aceitar o convite. Não por vontade, mas porque sabia que Richard não desistiria. Eu não queria prolongar a pressão psicológica que ele sempre exercia. Havia algo entre nós que nunca foi discutido abertamente, mas que nos mantinha afastados. Eu não tinha pretensão de estar por muito tempo no mesmo ambiente que ele. Ele podia ignorar meus sentimentos, fingir indiferença ao que me fez, mas eu nunca esqueci, muito menos perdoei.
O restaurante escolhido por ele era um dos mais sofisticados da cidade, frequentado por empresários, celebridades e políticos. Ao chegar, fui recebido com um sorriso calculado. Richard sempre soube encenar o papel de pai afetuoso em público, mas eu conhecia bem o homem por trás da máscara.
— Christopher, que bom que veio. — disse, estendendo a mão. — Precisamos conversar sobre o futuro.
Sentei-me à mesa, mantendo a postura firme. O garçom trouxe um vinho caro, e meu pai começou a falar sobre política, alianças, estratégias. Era como se eu fosse apenas mais uma peça em seu jogo.
— O governador está organizando um evento importante na próxima semana. Quero que você esteja presente. — disse, olhando-me nos olhos. — E mais, precisamos fortalecer nossa relação com a família dele. A filha do governador, Emily Thompson, é uma jovem brilhante, educada, de boa família. Seria uma excelente escolha para você.
Engoli em seco, mas não desviei o olhar. Já havia ouvido rumores sobre essa intenção, mas nunca de forma tão direta. Richard queria me obrigar a casar com Emily Thompson, não por amor, mas por conveniência política. Era o tipo de jogada que ele sempre admirou: unir famílias influentes, consolidar poder, perpetuar o legado.
— Pai, você sabe que não é assim que eu vivo minha vida. — Respondi, firme, sem titubear. — Não vou me casar por interesse. Não sou você. Quero deixar claro que não lhe devo nada. Portanto, não me venha com imposições. Eu não sou uma peça no seu tabuleiro.
Ele sorriu, mas havia dureza em seu olhar.
— Christopher, você é meu filho. O sobrenome Davis carrega responsabilidades. Não podemos nos dar ao luxo de escolhas impulsivas. O casamento com Emily Thompson abriria portas, fortaleceria alianças. Pense no futuro, não apenas no presente.
Olhei para o vinho, buscando coragem, mas minha determinação era maior que qualquer bebida. Meu passado com Richard era marcado por mágoas profundas. Eu o flagrei em situações de traição: primeiro com a irmã mais nova da minha mãe, depois com minha própria namorada, Katherine, que estava prestes a se tornar minha noiva. Esses episódios destruíram minha confiança nele. Desde então, evito qualquer envolvimento profundo com sua vida política e pessoal.
— Você nunca pensou no que eu quero, só no que é melhor para você. — disse, sentindo a raiva crescer, mas mantendo o tom firme. — Eu construí meu próprio império, longe dos escândalos da família. Não vou sacrificar minha felicidade por um acordo político.
Richard respirou fundo, tentando manter o controle.
— O mundo não é feito de sonhos, Christopher. É feito de escolhas estratégicas. Você tem tudo para ser um grande líder, mas precisa aprender a jogar o jogo.
— Não me interessa o seu jogo, Richard. Você sabe muito bem o que me faz sentir nojo do meio em que vive.
Ele inclinou-se para frente, com aquele olhar frio e narcisista.
— Você ainda insiste em falar desse assunto. Deixa de ser infantil, garoto. Eu te fiz um favor. Depois que se livrou daquela interesseira, já teve mais mulheres do que qualquer homem poderia desejar.
Sorri com ironia.
— A questão não é quantas mulheres eu conquistei depois, mas o quanto você não tem consideração pelos seus. Você traiu minha mãe com a própria irmã dela e não teve o menor receio de ferir o próprio filho transando com a namorada dele. Que respeito acha que devo ter por você?
— Eu sou seu pai. Deve me respeitar. Deixe de sentimentalismo, isso já faz muito tempo e já devia ter esquecido. Até sua mãe partiu pra outra.
Era impressionante a frieza e o desdém desse homem. Não havia arrependimento ou constrangimento em suas atitudes egoístas. Tudo se resumia ao seu prazer e controle.
A conversa se arrastou por horas. Ele insistia, cobrava visitas, tentava me envolver em reuniões, eventos, jantares com figuras influentes. Cada convite era uma armadilha, uma tentativa de me puxar para o universo que tanto rejeito.
Saí do restaurante sentindo o peso da conversa com Richard sobre meus ombros. Caminhar pelas ruas de Manhattan, com as luzes refletindo nos vidros dos prédios, era minha forma de me livrar da raiva e da frustração. O frio da noite não era suficiente para acalmar o turbilhão de emoções que me consumia. Sentia indignação, tristeza e cansaço, mas também uma certeza: eu não me dobraria.
Por mais que tentasse me blindar, era impossível não sentir o peso do sobrenome, da história, dos escândalos. Eu queria ser livre, queria ser apenas Christopher, mas parecia que o mundo insistia em me lembrar do legado Davis. Ainda assim, cada passo que eu dava era uma afirmação silenciosa de que eu não seria apenas mais uma peça no tabuleiro dele.
Assim que cheguei em casa, larguei as chaves sobre a mesa e peguei o celular. Disquei para minha mãe, Eleanor Davis. Ela sempre foi meu porto seguro, a única capaz de me ouvir sem julgamento.
— Mãe, preciso conversar — disse, minha voz carregada de exaustão.
Ela percebeu de imediato que algo não estava bem.
— O que aconteceu, Chris? Seu pai te pressionou de novo?
— Ele quer que eu participe de um evento político na próxima semana. E, como se não bastasse, está tentando me empurrar para um casamento arranjado com a filha do governador. Tudo por conveniência. Não aguento mais essas expectativas, mãe. Eu não sou uma peça no tabuleiro dele.
Do outro lado da linha, ouvi o silêncio compreensivo, seguido de um suspiro.
— Filho, você sabe que nunca concordei com as imposições do seu pai. Sempre apoiei suas escolhas. Você construiu seu próprio caminho, e eu tenho orgulho disso.
As palavras dela trouxeram alívio imediato. Samuel Carter, o novo marido da minha mãe, também sempre esteve ao meu lado, me ajudando a enxergar além das pressões familiares. Saber que eu tinha esse apoio me dava forças para continuar
Samuel sempre me dizia para seguir o que acreditava, e naquele momento suas palavras ecoavam em minha mente. Eu não seria apenas mais um Davis. Eu era Christopher, dono do meu destino, um homem que conquistava respeito e desejo sem precisar de alianças políticas.
Desliguei o telefone e fiquei em silêncio por alguns instantes. O peso da conversa com Richard ainda me rondava, mas a certeza de que eu não me dobraria me dava forças. Caminhei até a varanda, acendi um charuto e observei Manhattan. A cidade era minha arena, e eu sabia como jogar o meu jogo.
As mulheres que frequentavam minhas casas noturnas, as que se aproximavam de mim em festas e eventos, não vinham por conveniência. Vinham porque eu era diferente. Eu não precisava de sobrenome para seduzir. Meu olhar firme, minha postura determinada e a confiança que carregava eram suficientes para que estivessem aos meus pés. Eu era um homem que sabia o que queria e não tinha medo de tomar.
Richard podia ser narcisista, egoísta, manipulador. Podia acreditar que o mundo girava em torno de suas estratégias. Mas eu não era mais o garoto que ele tentava moldar. Eu era um homem que enfrentava seus demônios de frente, que carregava cicatrizes profundas, mas que não deixava de lutar por seus próprios interesses.
Naquela noite, enquanto a cidade pulsava ao meu redor, percebi que o confronto com meu pai não era apenas sobre política ou casamento arranjado. Era sobre identidade. Ele queria me transformar em reflexo de sua ambição, mas eu já havia escolhido meu caminho.
O telefone vibrou novamente. Uma mensagem de uma das mulheres que havia conhecido na última festa. “Chris, estou com saudades. Posso passar aí?” Sorri. Eu sabia que poderia ter quem quisesse, quando quisesse. Mas naquele momento, mais do que prazer, eu buscava reafirmação. Cada conquista era uma prova de que eu não precisava do legado Davis para ser desejado, respeitado e lembrado.
Apaguei o charuto e voltei para dentro. A luta contra meu pai seria longa, mas eu estava preparado. Ele podia tentar manipular, impor, controlar. Mas eu era firme, determinado, e não me dobraria.
Richard Davis podia carregar o título de senador, mas eu carregava algo maior: a liberdade de ser quem eu realmente era. E isso, nenhum poder político poderia comprar.