Estava jogada na cama olhando alguns vídeos no Youtube sobre intercâmbio. Com empolgação repentina, corri até a minha mãe, que está na cozinha preparando algo.
- Mãeeee - rodeio ela, com tamanha animação.
- O que você quer dessa vez, Clara Vitória? - me olha como se eu estivesse com culpa no cartório.
- Ai, mãe - faço careta - A senhora nunca espera algo de bom de mim - ela dá de ombros, revirando os olhos - Mas se fosse o seu Caua... - a provoco.
- Desembucha, Clara - volta a me olhar, desta vez com atenção.
- Eu estava um vendo vídeo de intercâmbio de uma menina no youtube, então imaginei que, só talvez...
- Quer fazer intercâmbio?
- Talvez - dou de ombros - A senhora paga uma faculdade pra mim? Não tem como pagar sozinha - faço biquinho para convence-la.
- Tudo bem - concorda - Mas eu pago todo o seu material, apostilas. Seu pai paga a mensalidade.
- Eu vou ter que conversar com ele sobre isso... - faço cara de derrota.
- Por que essa cara? Até parece que ele vai te recusar, Clara. Ele não te recusa nada.
- Mas não deixa eu segurar uma arma... - resmungo - O problema não é pedir, mãe... mas ele vai comentar sobre isso com todo mundo.
- Sei bem disso - rir - Mas ele faz isso porque tem orgulho de quem a filhinha dele está se tornando, meu amor. Pesquisa qual faculdade você quer, daí conversa com o seu pai.
Após muitas pesquisas, decido finalmente qual faculdade quero entrar, mas ainda fico confusa com que curso devo escolher.
Decido ir até o meu pai, com coragem... talvez.
- Oi, pai - o abraço de lado.
- Oi, filhota - beija a minha cabeça, após retribuir o meu abraço - Você tá bem? - concordo - O que foi?
- Vim visitar meu papai - sorrio, na tentativa de ser convicente.
- Desembucha, Clara - me olha com certo deboche.
- Então né... - me achego a ele - Eu queria fazer faculdade e...
Nem foi preciso eu terminar de dizer nada, ele começou a pular com a sua animação gigante.
- A minha filha vai fazer faculdade, seus otários! - começa a gritar, fazendo a atenção se atrair para nós dois.
- Não precisa disso tudo, pai - seguro o seu braço, tentando o fazer se controlar.
- Eu estou feliz por você, minha princesinha - me abraça, beijando o topo da minha cabeça com carinho.
- Obrigada, pai - sussurro, o abraçando calorosamente de volta.
- Depois me passa o valor direitinho, daí eu te dou, tá bom.
- Tá - concordo, o soltando.
- Vamos contar pra tua avó agora - ele se anima outra vez.
Reviro os olhos, o acompanhando na moto em seguida.
- Chegou a netinha favorita - entro gritando pela casa.
- A neta favorita sou eu - Cléo surge lá se sabe de onde.
- Lá vem a sem sal - a zoou, recebendo um abraço acolhedor, mas logo um tapa em seguida da mesma - Seus tapas doem, branquela.
- Falou a inimiga da escuridão - desdenha, batendo o cabelo pro lado e andando em direção ao sófa.
- Vocês duas são tão estranhas - minha avó comenta, me abraçando em seguida.
- Bença, vó - beijo sua bochecha.
- Deus te abençoe, minha filha. Veio sozinha?
- Não. Papai está guardando a moto lá fora.
- Hum - resmunga - Cadê Cauazinho? Estou com saudades daquele menino de ouro.
- Só se for ouro falso, né vó - brinco - Ele tá bem, graças a Deus.
- A alegria da casa chegou - meu pai já chega bagunçando, como sempre - Oi, minha coroinha - tenta a abraçar, mas recebe um tapa - Que isso, mãe - reclama.
- Você é filho de uma put@, Caique. Não vem ver a própria mãe por um tempão, e ainda tem a coragem de vir aqui de cara lavada. Você é um sem vergonha mesmo.
- Eu fiquei muito ocupado com muitas coisas, mãe. Foi m*l.
- Isso não é desculpa - ergue o dedo no ar - Quando eu morrer...
- A Clara vai fazer faculdade - ele se apressa em falar, na tentativa de distrair a minha avó...
- Ah, minha menina - ela vem me dar um abraço - bem, e ele conseguiu distrair ela perfeitamente - Meus parabéns! Vai cursar o quê?
- Então, eu ainda estou no caminho de decidir - digo, meio nervosa.
- O importante é se encontrar e seguir o ramo que você goste. Vovó está orgulhosa de você - beija o meu rosto.
- Obrigada, vovó - sorrio, sem graça.
- A sem sal vai ser graduadaaa - Cléo me zooa - Já vai ter cela individual.
- Vai a merda - pego a almofada que está no meu alcance, e taco na sua direção, mas ela desvia.
Eu e Cléo resolvemos ficar sentadas um pouco na pracinha.
- Clarinha - escuto alguém cantarolar o meu nome. E quando olho, me arrependo profundamente neste momento por ter olhos e ouvidos.