3|Clara

863 Palavras
Estava jogada na cama olhando alguns vídeos no Youtube sobre intercâmbio. Com empolgação repentina, corri até a minha mãe, que está na cozinha preparando algo. - Mãeeee - rodeio ela, com tamanha animação. - O que você quer dessa vez, Clara Vitória? - me olha como se eu estivesse com culpa no cartório. - Ai, mãe - faço careta - A senhora nunca espera algo de bom de mim - ela dá de ombros, revirando os olhos - Mas se fosse o seu Caua... - a provoco. - Desembucha, Clara - volta a me olhar, desta vez com atenção. - Eu estava um vendo vídeo de intercâmbio de uma menina no youtube, então imaginei que, só talvez... - Quer fazer intercâmbio? - Talvez - dou de ombros - A senhora paga uma faculdade pra mim? Não tem como pagar sozinha - faço biquinho para convence-la. - Tudo bem - concorda - Mas eu pago todo o seu material, apostilas. Seu pai paga a mensalidade. - Eu vou ter que conversar com ele sobre isso... - faço cara de derrota. - Por que essa cara? Até parece que ele vai te recusar, Clara. Ele não te recusa nada. - Mas não deixa eu segurar uma arma... - resmungo - O problema não é pedir, mãe... mas ele vai comentar sobre isso com todo mundo. - Sei bem disso - rir - Mas ele faz isso porque tem orgulho de quem a filhinha dele está se tornando, meu amor. Pesquisa qual faculdade você quer, daí conversa com o seu pai. Após muitas pesquisas, decido finalmente qual faculdade quero entrar, mas ainda fico confusa com que curso devo escolher. Decido ir até o meu pai, com coragem... talvez. - Oi, pai - o abraço de lado. - Oi, filhota - beija a minha cabeça, após retribuir o meu abraço - Você tá bem? - concordo - O que foi? - Vim visitar meu papai - sorrio, na tentativa de ser convicente. - Desembucha, Clara - me olha com certo deboche. - Então né... - me achego a ele - Eu queria fazer faculdade e... Nem foi preciso eu terminar de dizer nada, ele começou a pular com a sua animação gigante. - A minha filha vai fazer faculdade, seus otários! - começa a gritar, fazendo a atenção se atrair para nós dois. - Não precisa disso tudo, pai - seguro o seu braço, tentando o fazer se controlar. - Eu estou feliz por você, minha princesinha - me abraça, beijando o topo da minha cabeça com carinho. - Obrigada, pai - sussurro, o abraçando calorosamente de volta. - Depois me passa o valor direitinho, daí eu te dou, tá bom. - Tá - concordo, o soltando. - Vamos contar pra tua avó agora - ele se anima outra vez. Reviro os olhos, o acompanhando na moto em seguida. - Chegou a netinha favorita - entro gritando pela casa. - A neta favorita sou eu - Cléo surge lá se sabe de onde. - Lá vem a sem sal - a zoou, recebendo um abraço acolhedor, mas logo um tapa em seguida da mesma - Seus tapas doem, branquela. - Falou a inimiga da escuridão - desdenha, batendo o cabelo pro lado e andando em direção ao sófa. - Vocês duas são tão estranhas - minha avó comenta, me abraçando em seguida. - Bença, vó - beijo sua bochecha. - Deus te abençoe, minha filha. Veio sozinha? - Não. Papai está guardando a moto lá fora. - Hum - resmunga - Cadê Cauazinho? Estou com saudades daquele menino de ouro. - Só se for ouro falso, né vó - brinco - Ele tá bem, graças a Deus. - A alegria da casa chegou - meu pai já chega bagunçando, como sempre - Oi, minha coroinha - tenta a abraçar, mas recebe um tapa - Que isso, mãe - reclama. - Você é filho de uma put@, Caique. Não vem ver a própria mãe por um tempão, e ainda tem a coragem de vir aqui de cara lavada. Você é um sem vergonha mesmo. - Eu fiquei muito ocupado com muitas coisas, mãe. Foi m*l. - Isso não é desculpa - ergue o dedo no ar - Quando eu morrer... - A Clara vai fazer faculdade - ele se apressa em falar, na tentativa de distrair a minha avó... - Ah, minha menina - ela vem me dar um abraço - bem, e ele conseguiu distrair ela perfeitamente - Meus parabéns! Vai cursar o quê? - Então, eu ainda estou no caminho de decidir - digo, meio nervosa. - O importante é se encontrar e seguir o ramo que você goste. Vovó está orgulhosa de você - beija o meu rosto. - Obrigada, vovó - sorrio, sem graça. - A sem sal vai ser graduadaaa - Cléo me zooa - Já vai ter cela individual. - Vai a merda - pego a almofada que está no meu alcance, e taco na sua direção, mas ela desvia. Eu e Cléo resolvemos ficar sentadas um pouco na pracinha. - Clarinha - escuto alguém cantarolar o meu nome. E quando olho, me arrependo profundamente neste momento por ter olhos e ouvidos.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR