Capítulo 22
Lucia Bianchi
Ele entrou comigo no quarto e bateu a porta com tanta força que o barulho me fez estremecer. Antes que eu pudesse reagir, fui empurrada contra a cama, o corpo afundando no colchão com violência.
— Eu não quero ver nada plantado naquele jardim! — a voz dele cortava como lâmina.
— Se eu vou morar nessa casa, também é minha! — levantei na mesma hora, ajeitando o vestido amassado e o encarando de frente. — E eu gosto de plantar flores. Qual o seu problema?
Ele avançou dois passos, o corpo duro como pedra.
— O problema é que eu não gosto. Eu projetei essa casa e eu escolhi o gramado vazio. O problema é que você não me consultou. É suficiente Lucia?
Meu peito subia e descia rápido. A raiva me dava coragem.
— Ah, me poupe! Você não tem algo pra resolver? Alguma coisa mais importante pra se preocupar e me deixar em paz?
— No, io no tenho! — ele rugiu, o rosto tão perto que senti o hálito quente. — E exijo que minha vontade seja obedecida. Se io digo que não quero planta, você não planta! Aliás, ninguém planta. E se plantar espere só pra me ver espedaçar.
— Seu egoísta! Ranzinza! Enfie seu jardim no…
Antes que eu terminasse, ele me empurrou de volta na cama e veio por cima. O peso dele me prendeu, tirando meu ar. Por um segundo, jurei que ia sentir as mãos dele no meu pescoço, mas ao invés disso, a boca de Vinícius se colou à minha com violência.
O beijo não foi doce, nem cuidadoso. Foi bruto. Exigente. A boca dele dominava a minha como se quisesse arrancar toda a minha fúria e transformá-la em silêncio. Senti o gosto forte do vinho que ele certamente havia tomado, misturado ao metal do meu próprio sangue quando mordi o lábio ao tentar resistir.
As mãos dele prenderam meus pulsos contra o colchão, firmes, quase doloridas, como se quisesse me lembrar de que eu não tinha saída. Depois deslizaram pela lateral do meu corpo, apertando minha cintura com força, arrancando de mim um arrepio que eu não quis demonstrar.
Meu coração disparou, e por mais que eu empurrasse o peito dele, a força não era suficiente. A raiva queimava dentro de mim, mas junto dela vinha uma sensação que eu odiava admitir: com ele, eu me sentia desejada de uma forma que ninguém nunca me fizera sentir. Como se a fúria dele não fosse contra mim, mas contra a ideia de me perder.
Eu sabia que Vinícius estava furioso, que aquele beijo era mais uma forma de me calar do que de me acariciar. Mas ainda assim, me perdi em sua boca. O jeito que ele sugava meu lábio inferior, a língua invadindo sem pedir licença, o calor do corpo dele colado ao meu — tudo me arrastava para um lugar perigoso, onde a raiva se confundia com o desejo.
Afastei o rosto com esforço, o peito subindo e descendo rápido.
— Não adianta gritar e depois me beijar. — desviei o olhar, respirando ofegante. — Isso não muda nada. Você foi um grosso.
Ele me pressionou mais fundo contra o colchão, o joelho prendendo minhas pernas.
— Você precisa saber o seu lugar. Já viu que horas são? Quase escurecendo e você não se arrumou. Esse jantar é importante, Lucia.
Eu ri com deboche, mesmo com o peso dele sobre mim.
— Não se preocupe. Eu não vou te envergonhar. Senhora Fabiana me ensinou como fazer. Deixa que de mim eu cuido, vá bene? Não me perturba!
Ele se afastou o bastante para me olhar de cima a baixo. O olhar era uma mistura de raiva e desejo.
— Mas é muito insolente. Eu deveria ter imaginado. Só pela cor do cabelo dava pra saber que precisaria te colocar limites.
Segurei o queixo dele com força, puxando de leve para o lado.
— Não é insolência. É que eu gosto de plantas, gosto de rosas, de flores. Se você não gosta é problema seu. Mas eu quero ver vida nessa casa. Só isso. É pedir muito?
Ele se levantou de súbito, passando a mão pelos cabelos para trás.
— Chega, ragazza. Chega. Io não quero me estressar hoje, capisce?
— Capisce. — ajeitei o vestido, erguendo o queixo. — Agora some daqui, porque não consigo me arrumar com você de cara feia me olhando. Vai acabar estragando minha pele.
Ele bufou e saiu, batendo a porta com a mesma fúria com que tinha entrado, dizendo xingamentos que preferi não tentar ouvir.
Fiquei alguns instantes imóvel, tentando respirar. O coração ainda disparado, a boca com o gosto dele. Passei as mãos pelo rosto, sentindo o calor subir.
“Grosso. Insuportável. Mas por que meu corpo treme toda vez que ele me encosta?”
Levantei devagar e fui até as caixas. Só de raiva, procurei o vestido mais bonito. Eu não ia aparecer como uma boneca amassada depois daquela briga. Queria que todos vissem que eu sabia me portar, que eu podia brilhar sozinha, sem precisar da aprovação dele.
Tomei banho, sequei o cabelo. Haviam muitas coisas aqui.
Escolhi um salto alto que alongava minhas pernas, um vestido justo na medida certa, brincos delicados. Prendi um lado do cabelo com um ponto de luz e fiz uma maquiagem leve, só o suficiente para destacar meus olhos. Olhei no espelho e senti orgulho — eu ainda tinha escolhas.
A porta abriu. Vinícius entrou. Já me preparei para atacar o salto que segurei com o susto, na cabeça dele. Claro que reclamaria do vestido.
Mas ele parou no batente e o olhar dele percorreu meu corpo devagar. A raiva de antes desapareceu como se nunca tivesse existido.
— Mama mia… — murmurou. — Mas se não é a ragazza mais bela de Roma!
"Oi?"
O jeito como ele se aproximou fez minhas pernas ficarem bambas. O perfume forte masculino me envolveu, a barba bem aparada roçou na minha pele, o cabelo impecável caía de lado, e a mão firme agarrou minha cintura como se fosse dele por direito. O rosto colado ao meu pescoço me arrancou um arrepio involuntário.
Dio santo… Respira, Lucia.
— Vinícius… — tentei falar, mas a voz falhou quando ele inclinou os lábios e deixou o sussurro quente contra a minha orelha.
— Questa notte, quando tudo acabar… — a voz dele veio baixa, rouca. — Io vou te despir devagar, vou espalhar essas tuas pernas teimosas e meter até você gritar o meu nome.
"Maledetto!"
O sangue correu quente pelo meu corpo, queimando minhas bochechas. Segurei firme o braço dele, tentando fingir que ainda tinha forças para enfrentá-lo.
"Você fala assim comigo depois de gritar e me humilhar?" — murmurei pra mim mesma, tentando manter a raiva viva para não me perder nele.
Mas o calor da respiração dele no meu pescoço, o aperto da mão que subiu para o meio das minhas costas, e a certeza de que ele me queria daquele jeito — bruto, impaciente, inteiro — só me fizeram estremecer mais.
Queria dizer que não tinha esquecido a grosseria dele. Queria ameaçar que depois do jantar ele ia me ouvir. Mas como resistir quando o corpo inteiro reagia a cada toque desse maledetto?
A respiração batia quente no meu pescoço, a voz rouca me fazendo arrepiar inteira. Senti os dedos dele apertando minha cintura e descendo pra b***a com força. Mas foi quando ele bateu ali que percebi que não tinha como disfarçar.
Fechei os olhos e respirei fundo. Não falei nada. Se eu abrisse a boca, ele saberia que eu não conseguia resistir a ele.