Capítulo 10
Vinícius Strondda
Não dormi direito. Fiquei deitado de lado, observando o peito dela subir e descer. Lucia parecia calma, mas os olhos fechados não enganavam. O corpo se contorcia, a respiração prendia de repente, como se lutasse contra alguma coisa no sonho.
Pesadelos.
Passei a mão pelo cabelo, impaciente. Eu, que sempre dormi como uma rocha, agora estava inquieto. Meu corpo queimava de raiva por não saber lidar com aquilo — com ela, também com o fantasma que a assombrava.
Quando a madrugada começou a clarear, levantei. Ainda estava escuro, o vento frio batendo nas janelas do casarão. Caminhei até o jardim, sem camisa, os pés afundando na grama molhada de orvalho. O silêncio era pesado, só ouvia o som distante de um corvo.
Vi as rosas enfileiradas, intactas, perfeitas. Estendi a mão e arranquei uma. Segurei firme, os espinhos perfurando minha pele, o sangue escorrendo. Apertei até o talo se despedaçar, até não sobrar nada. Joguei os restos na terra, respirei fundo e murmurei:
— Assim será com quem ousar tocar nela.
Me senti melhor.
Virei as costas e voltei.
No salão, reuni meus homens de confiança. Carlo, Enzo e Matteo, todos firmes como cães de guarda. Cruzei os braços e encarei cada um deles.
— Vocês têm vinte e quatro horas. Quero a vida inteira de Lucia Bianchi sobre a mesa. Se mentiu. Se tiver merda escondida, vou saber antes que o sol se ponha. — pausei, a voz seca. — Meu pai chega amanhã. Preciso estar armado com informações.
Eles assentiram, sérios. Carlo foi o primeiro a falar:
— Entendido, Don Vinícius. Não vai sobrar sombra na história dela. — É estranho me chamarem de Don. Não me acostumei.
— Bene. — fiz um gesto de corte com a mão. — Vão.
Segui até o reduto no jardim — o espaço reservado ao Don, onde meu pai sempre resolvia assuntos internos. Abri a melhor garrafa de vinho branco e servi a taça. A bebida desceu queimando minha garganta, mas a cabeça ainda fervia.
Resolvi alguns papéis, dei ordens rápidas para os negócios de importação, e já me sentia no papel de Don. Mas então… o barulho de um motor chegando me fez congelar.
Olhei pela janela e quase engasguei com o vinho.
O carro do meu pai. Estava muito mais perto do meu quarto do que eu.
— Che cazzo… — o copo quase escapou da minha mão. — A maledetta tá na minha cama. A mamma vai enlouquecer.
Saí pelos fundos correndo, a taça ficou na mesa, e subi dois degraus de cada vez até meu quarto. Entrei ofegante.
— Levanta, ragazza. — sacudi o ombro dela. — Lucia, pelo amor de Dio, levanta vá bene?
Ela piscou sonolenta, sem entender.
— Que foi?
— Arruma o roupão, merda! — puxei o tecido sobre os ombros dela. — Vai pro quarto de hóspedes, rápido!
Ela tentou se erguer, tropeçou no lençol e… caiu direto sobre o meu peito.
A porta abriu no mesmo instante.
Minha mãe.
Fabiana entrou como uma tempestade, o olhar fulminante.
— O que está acontecendo aqui? — os braços cruzados, a voz fria. — Senhor Vinícius, por acaso essa é sua noiva?
Engoli seco.
— É, mãe. Mas não aconteceu nada.
— Vinícius! — ela apontou o dedo para mim. — Você quebrou a tradição? Por que ela está de roupão na sua cama?
Antes que eu respondesse, ouvi passos firmes atrás dela. Meu pai.
— Não iriam chegar amanhã? Ou depois? — questionei.
— Pensou que eu não estaria no casamento do meu filho? Se a gente chegasse e já tivesse ocorrido, você casaria de novo. Está me ouvindo?
Don Antony entrou com a imponência de sempre, ajeitando o paletó. Olhou pra mim, depois pra mamma, colocando a mão sobre seu ombro.
— Fabi, fica tranquila. Eu resolvo, vá bene?
— Antony! — ela virou-se indignada. — Ela está sem roupa no quarto dele e ele sem camisa! Se os acionistas sonham com isso…
Levantei as mãos, impaciente. Ah, se ela soubesse quantas vezes enfiei a Gracy nessa cama e ela nunca descobriu.
— Mamma, já aproveita e arruma roupas pra Lucia. — falei com naturalidade. — Pronto. Problema resolvido.
— Amorzinho… — meu pai segurou o braço dela de leve. — Cuida da roupa da ragazza, tá? Vou conversar com o bambino.
Respirei fundo. Pro meu pai eu nunca cresci. Mas pelo menos estava ajudando a resolver.
Mamma bufou, mas chamou Lucia com um gesto ríspido.
— Venha comigo, menina. Agora.
Quando as duas saíram, meu pai se aproximou devagar, me olhando de cima a baixo e encostou a porta. O peso daquela presença me atingia, como sempre.
— Agora a conversa é entre homens. — a voz grave cortou o silêncio.
Cruzei os braços, firme.
— Papà… você me pede pra assumir a máfia Strondda diariamente, mas não me deixa fazer do meu jeito. Ela é minha noiva. Não tem mais porcaria nenhuma de lençol pra provar virgindade. Dio, eu sou homem!
Ele ergueu a mão, pedindo calma.
— Bambino, espera. Eu não reclamei nada. Só preciso saber algumas coisas. É que é estranho... Sua ex noiva — levantou a mão — Que diavolo a tenha — Nunca chegou a passar pela porta da cozinha, capisce?
— Papà. Pelo amor de Dio... Aquela ragazza era uma puttana. Deu em cima de mim desde o primeiro instante e odeio isso. Você sabe. Pelo que disse, tu também era assim. Eu iria casar com ela e pedir a Dio pra que me ajudasse gerar no mínimo um bambino.
— Aqui na máfia Strondda sempre foi assim, temos regras. De certa forma fico contento que tenha reagido. Também odeio essa parte. Se gosta da sua noiva, io também gosto.
— Ela me traiu com o capo que me olhou sorrindo no outra dia. Eu bem que imaginei alguma merda, mas não isso.
— Fez bem. Na verdade, vou matar a família dela inteira amanhã. Não queremos surpresas depois, não é?
— Sim. É o certo.
— Só me responde a minha dúvida?
— Tá, vamos ver então.
— Você desonrou a ragazza Vinícius? — os olhos dele não piscavam.
Respirei fundo, o maxilar travado.
— Não. Mas eu…
— Pronto, Vini. Já respondeu. Não tenho interesse no resto — ele ajeitou o paletó. — Agora me diga: ela é de confiança? Maicon me contou que invadiu o jardim. Outros disseram que tentou fugir.
Me aproximei um passo, a voz mais firme.
— Papà, se ela é ou não, já não importa. Minha casa, minhas regras. Ela precisa entender que serei o Don. Eu mando. Ela obedece. Va bene?
Um sorriso de canto surgiu no rosto dele.
— Gosto da sua postura. É assim mesmo. Pense como homem, como Don. Coloque suas regras.
Soltei o ar pesado.
— Obrigado, papà.
Ele pousou a mão no meu ombro, firme.
— Só quero seu bem, bambino. Se me dá sua palavra que é seguro, é o que vale. Como Don, precisa saber que não é só sua vida que importa. Não é só sua família. Muitas cabeças dependem de ti. Precisa proteger toda uma geração. Estou confiando em sua palavra.
— Vá bene, vou lembrar. Só isso, papà? — ergui a sobrancelha.
Ele deu uma risada curta.
— Não. Hoje você não dorme com ela. Temos uma palavra a zelar. Amanhã é o casamento. Aí sim poderá levá-la para sua casa. E assim que houver a consumação, faremos a festa de cerimônia formal. Ali será eleito como próximo Don. É preciso seguir algumas regras, capisce?
Passei a mão no queixo, rindo de lado.
— Va bene. Mas amanhã, ninguém segura essa ragazza de mim.
Meu pai sorriu com orgulho, mas os olhos carregavam o peso da responsabilidade.
— Isso eu quero ver, bambino. Isso eu quero ver.