Capítulo 19
Lucia Bianchi
O quarto estava limpo, mas não havia paz dentro de mim. O corpo suava, os dedos tremiam, e o travesseiro era inútil. Eu tentava dormir, mas o medo não me deixava: até quando vou conseguir esconder dele sobre mim?
Um cochilo raso me arrancou do sono quando fui acordada por um barulho de vidro estourando. Sentei num sobressalto, os olhos arregalados. O som ecoou pela casa inteira como um aviso.
— Santo Dio… — sussurrei, sentando na cama num pulo.
Levantei apressada e corri pelo corredor, pés descalços batendo no chão frio. O silêncio pesado da casa estava rachado, como se as paredes tivessem ouvido o mesmo barulho que eu. O robe balançava em torno das pernas, e cada passo era uma mistura de medo e urgência.
Quando cheguei à sala, o cenário parecia um campo de batalha: o jarro de vidro que antes enfeitava o balcão estava em pedaços, espalhado como neve cortante pelo chão. O ar cheirava a vinho derramado, forte, ácido.
Vinícius estava sentado na poltrona, corpo inclinado para frente, o celular brilhando na mão. Na outra, uma garrafa de vinho branco. O olhar dele não era vazio — era denso, pesado, perigoso para o que via no celular, com um som um tanto peculiar, inclusive.
— O que aconteceu? — perguntei, quase num sussurro. A voz saiu fraca, carregada de receio.
Nenhuma resposta. Apenas o silêncio dele, mais c***l do que um grito. Vinícius me ignorou totalmente, e vi quando tocou na tela do seu celular colocando um vídeo para começar novamente.
Dei dois passos para perto, o coração acelerando com a curiosidade e o medo. O brilho da tela me puxou. Inclinei o rosto, e a imagem do celular me atingiu.
Uma mulher nua. Cabelos imensos e castanhos. Ela cavalgava sobre um homem que não dava pra ver o rosto. Apenas as tatuagens. Me lembrei quando vi Giovanni quebrando um celular porque via isso.
— É sério que está vendo pornografia? — soltei, a irritação escapando antes de conseguir conter.
Foi o bastante para que ele levantasse os olhos e me atingisse com toda a atenção. De repente, o homem da poltrona explodiu. Jogou a garrafa contra a parede, o estrondo ecoando como um trovão dentro de mim.
— Chi sei tu per me questionare? — rugiu, a voz grave me gelando a espinha. — Quem é você pra me questionar? Você está escondendo as coisas de mim como essa v***a aqui!
— O quê? Não. Quem é essa v***a?
Ele atirou o celular no sofá com força, como se a tela fosse uma inimiga. Levantou-se, passos pesados, e veio em minha direção. Eu recuei, cada centímetro mais próxima do medo.
— Não me minta, Lucia! — o dedo dele apontava para mim como um punhal. — Quem é o maledetto que te cortou e não te pegou? Não foi capaz de tirar sua virgindade, Hm? — respondi com outra pergunta:
— Quem é essa mulher que te deixou assim?
Ele veio mais perto.
— Quem te conhece tanto pra me mandar isso? É o seu ex? Hein? — a voz dele subiu, rasgando o ar. — Exijo que me diga agora!
"Como assim?" Eu não entendi do que ele falava.
— Eu não estou te enganando… — tentei me explicar, mas as palavras tropeçaram.
Dei mais dois passos para trás, apavorada. E Vinícius agora praticamente gritava:
— Alguém me mandou esse vídeo hoje! — berrou, sacudindo a mão no ar como se ainda tivesse o aparelho, mas apontava para o sofá. — É a puttana da minha noiva dando pra outro.
— Sua... noiva?
— Sim. Porque acha que matei a maledetta? Só que apaguei essa p***a, e me enviaram de novo hoje. Disseram que fariam o mesmo com você! — o dedo apontou para mim, ameaçador. — Eu não vou permitir… mas antes você vai me dizer a verdade! Quem é que te conhece, Lucia? Quem ousaria mandar isso? É o seu ex? Hein?! — a voz dele cortava como navalha. — Me diga agora!
O medo me paralisou.
— Eu… eu não sei… não é comigo… — minha voz falhava.
— Não me minta! — rugiu, o rosto tão próximo que eu senti a respiração quente e furiosa. — Odeio ser enganado! Se eu descobrir que me enganou, não sei do que sou capaz, Lucia!
Recuei. Dois passos rápidos para trás. Foi então que senti a picada fria dos cacos sob os pés, me cortando.
— Ahhh! — gritei, o corpo tombando contra a parede, tentando me equilibrar. A dor atravessou minhas pernas, e logo o sangue se espalhou pelo chão.
Foi nesse instante que tudo mudou. O olhar dele, antes fogo e lâmina, derreteu em espanto.
— Mama mia… — murmurou, quase sem ar. — Você está sangrando.
Em segundos, o futuro Don sumiu. Restou o homem que me casei. Ele se ajoelhou diante de mim, olhos marejados de desespero olhando meus pés, e me ergueu nos braços como se eu fosse feita de porcelana.
— Não se mexa, bela mia — disse, com voz baixa, cheia de ternura.
Carregou-me pelo corredor como se o peso não existisse, desviando dos cacos com pressa. O medo que eu sentia ainda latejava dentro de mim, mas algo mais se infiltrou: a estranha sensação de estar protegida por aquele que também me assustava.
— Deixa que eu me viro. — falei áspera. Ainda estava chateada com ele.
— Boca fechada ragazza. Boca fechada.
Deitou-me na cama com cuidado, ajeitando o travesseiro atrás de mim.
— Você é louco. Grita depois vem falando assim...
O olhar dele me ignorava e percorria minhas pernas, meus pés feridos, como se cada corte fosse um insulto pessoal.
— Dio santo… olha o que eu fiz com você. — A voz saiu embargada. — Perdoa-me, Lucia.
— Merda... Porque não estou conseguindo gritar com você? — reclamei e fui ignorada de novo. Italiano maledetto. Como consegue fazer isso?
Olhou meus pés e procurou por mais cacos de vidro.
Ele buscou uma toalha, pressionou devagar contra os cortes, soprando a pele como quem acalenta. Depois trouxe a faixa de primeiros socorros, firme e cuidadoso, os dedos fortes agora trabalhando como os de um médico dedicado.
Enquanto enfaixava meus pés, ergueu os olhos para mim. E naquele olhar não havia o Don impiedoso que enfrentava homens armados — havia apenas um homem desesperado em não me deixar sangrar.
— Alguém me mandou esse vídeo hoje, ragazza. — sua voz veio baixa, quase um sussurro. — Disseram que fariam o mesmo com você e enlouqueci Lucia. Lorena minha ex eu dei graças de me livrar, mas você não. Eu te escolhi, entende? Es mia.
Segurei a respiração, sem saber se o medo que me dominava era dele… ou do que vinha de fora. Ele tem seus defeitos, mas não gosto de engana-lo.
— Vinícius… — tentei dizer, mas a garganta fechou.
Ele encostou a mão na minha bochecha, macia, carinhosa. O contraste era quase insuportável.
— Durma, amore mio — disse, com um tom que parecia promessa. — Eu cuido de você. Ninguém toca em você. Io prometo.
Fiquei olhando pra ele e ele pra mim. Me chamou de amores mio? Ah, Dio mio.
Fechei os olhos, o corpo latejando pela dor nos pés, mas a mente girando no abismo do segredo que ainda me separava dele. O Don rude, o homem amoroso. Dois lados que se encontravam em mim. E eu não sabia até quando conseguiria sustentar essa mentira.
Era como se houvessem dois homens ali: o Don que me dava medo e o homem que parecia pronto para morrer por mim.